Angola é o vértice africano de uma triangulação atlântica, diz artista brasileira em Luanda

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Thaís Muniz, artista visual e investigadora baiana radicada em Dublin, encerrou quase um mês de trabalho de campo em Angola. O percurso começou num teste de ADN realizado durante o processo de aquisição da cidadania irlandesa

A artista visual brasileira Thaís Muniz descreve Angola como o vértice africano de uma triangulação atlântica que liga o Brasil, a Europa e o continente. A afirmação foi feita em Luanda.

Numa conversa pública realizada a 13 de Agosto na sede da Nesr Art Foundation, em Luanda, moderada por Dreça Manuel, a artista apresentou o país como ponto de convergência de uma investigação que desenvolve há mais de uma década sobre memória, ancestralidade e cultura material afro-atlântica. Questionada sobre por que razão escolheu Angola e não outro país africano, respondeu que o país se apresenta como um aglutinador daquilo que procurava. A estadia, de cerca de um mês, incluiu permanência em Luanda e deslocações ao interior do país.

Um teste de ADN como ponto de partida

O ponto de partida do percurso não foi artístico nem académico. Segundo o relato da própria artista, foi durante o processo de aquisição da cidadania irlandesa que realizou um teste de ADN cujo resultado indicava 27 por cento de ascendência bantu, percentagem de que afirma não ter tido noção até então. É a partir desse dado que Angola deixa de ser referência histórica genérica e passa a destino concreto de investigação. A artista citou ainda a frase de um escritor, segundo a qual sem Angola não existiria o Brasil, para justificar o peso simbólico da deslocação.

Natural de Feira de Santana, na Bahia, Thaís Muniz vive na Irlanda desde 2014 e fundou em Salvador, em 2012, o projecto Turbante-se, plataforma de investigação sobre turbantes e amarrações de cabeça nas culturas afro-atlânticas. O trabalho tem circulado por instituições europeias e norte-americanas, o que faz de Angola um destino tardio num percurso que começou pela diáspora e só agora chega ao continente.

O que observou no interior

A parte mais densa do relato diz respeito ao que a artista observou fora de Luanda. Numa comunidade do interior que visitou, um jovem de 15 anos, filho do soba local, terá manifestado o desejo de emigrar; entre as mulheres que entrevistou, registou a aspiração a maior acesso à educação. A artista relaciona estes desejos com aquilo que descreve como falha dos sistemas perante estas comunidades, sustentando que a vontade de permanecer seria compatível com a permanência caso existissem condições.

Um segundo registo diz respeito à encenação da tradição. A artista afirmou ter observado práticas tradicionais executadas em função da chegada de um visitante, e problematizou a tensão entre a expectativa romantizada do observador externo e as condições reais de sobrevivência económica das comunidades. Referiu ainda a atracção exercida pelas plataformas digitais sobre os mais novos como factor que altera a transmissão de saberes comunitários. Estas observações resultam do relato de uma visitante estrangeira em estadia curta e não foram contraditadas por fontes locais.

Sobre o balanço da estadia, a artista recusou a ideia de resultado fechado, afirmando sair do país com mais perguntas do que aquelas com que chegou.

Um circuito sustentado por privados

A conversa realizou-se numa instituição que é ela própria matéria noticiosa. A Nesr Art Foundation foi criada em 2021 por Hiba e Wissam Nesr, membros da família que controla o Webcor Group, e mantém em Luanda um programa de residências com comité artístico presidido pela arquitecta e curadora angolana Paula Nascimento. O programa divulgado destina-se a artistas emergentes de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, perímetro que não abrange artistas brasileiros, o que sugere enquadramento distinto para esta estadia.

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