Procura pela UNITEL cobriu 120,7 por cento da oferta, o rácio mais baixo das ofertas públicas realizadas na BODIVA desde 2024

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As operações da ENSA, da BODIVA e do Banco de Fomento Angola registaram rácios entre 174,5 e 778,9 por cento, mas em ofertas de dimensão muito inferior. Todas as empresas cotadas desvalorizaram durante o período de subscrição, num movimento associado à venda de posições para financiar a nova compra

A procura pelas acções da UNITEL cobriu 120,7 por cento da oferta. É o rácio mais baixo das ofertas públicas de venda realizadas na BODIVA desde 2024.

Segundo o comunicado de apuramento de resultados divulgado a 27 de Julho pela Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA), a procura pelas 7.500.000 acções colocadas ascendeu a 9.054.299 títulos, o que corresponde a um rácio de cobertura de 120,7 por cento. O preço final foi fixado em 40.040 kwanzas por acção, o máximo do intervalo previsto no prospecto, e a operação gerou um encaixe de 300,3 mil milhões de kwanzas para o Estado.

A leitura comparada situa a operação num patamar distinto das anteriores. As ofertas da seguradora ENSA e da própria BODIVA, realizadas em 2024, registaram rácios de 174,5 e 778,9 por cento, respectivamente. A oferta do Banco de Fomento Angola, concluída em Setembro de 2025 e até agora a maior alguma vez realizada no país, atingiu 506,4 por cento e captou 242 milhões de dólares. A UNITEL, que retirou esse recorde ao banco, é assim a operação com maior montante e menor sobre-subscrição relativa do conjunto.

A diferença de escala é, contudo, determinante para interpretar os números, e foi antecipada pela própria gestora do mercado. No discurso de abertura da sessão de admissão à negociação, realizada a 29 de Julho em Luanda, a presidente da Comissão Executiva da BODIVA, Cristina Lourenço, argumentou que os cerca de 120 por cento não se referiam a uma operação de pequena dimensão, mas a uma operação de 300 mil milhões de kwanzas. Um rácio de cobertura elevado numa colocação reduzida exige um volume de procura absoluto muito inferior ao necessário para cobrir uma oferta desta grandeza.

Há indícios de que o limite testado tenha sido o da capacidade de absorção do mercado, e não o do interesse dos investidores. Entre 23 de Junho e 13 de Julho, período que coincidiu com a preparação e o arranque da subscrição, praticamente todas as empresas cotadas na BODIVA registaram desvalorizações. A ENSA perdeu 18 por cento, o Banco Caixa Geral Angola 14,5 por cento e o Banco Angolano de Investimentos 6,9 por cento, enquanto o Banco de Fomento Angola e a própria BODIVA recuaram 2,7 e 3 por cento. Analistas citados pela imprensa especializada associaram o movimento à realocação de liquidez e não a perda de confiança, sublinhando que, na ausência de injecções de capital novo no sistema, tanto investidores institucionais como retalhistas foram levados a vender posições existentes para financiar a subscrição.

Somadas, as duas maiores operações do mercado angolano absorveram cerca de 560 milhões de dólares em pouco mais de dez meses. No painel que se seguiu à cerimónia de admissão, o representante da Deloitte, Bruno Alves, que assessorou financeiramente a operação, considerou tratar-se de “um volume excepcional para o contexto do continente africano” e defendeu que o mercado angolano deixou de se comparar apenas consigo próprio.

O preço fixado no topo do intervalo não contradiz o rácio de cobertura mais baixo. Nos termos do prospecto, o preço final é determinado pelo nível ao qual a procura dirigida ao público em geral iguala ou excede a oferta disponível, e a procura registada a 40.040 kwanzas era já suficiente para colocar a totalidade dos títulos. Por esse motivo, os investidores que apresentaram ordens abaixo desse valor ficaram automaticamente excluídos. O preço foi, ainda assim, o tema mais debatido durante o período de subscrição. O presidente da Comissão Executiva da BFA Capital Markets, entidade que liderou a estruturação e a colocação, afirmou no mesmo painel que “o investidor, principalmente o investidor de retalho, olha para o preço e pergunta porquê”.

A questão tem consequências para o Programa de Privatizações. Responsáveis presentes na cerimónia anteciparam a entrada de pelo menos mais uma empresa em bolsa e a possibilidade de uma emissão do sector privado em 2027, previsivelmente em dívida. Se a leitura da absorção estiver correcta, a variável crítica das próximas operações deixa de ser o apetite dos investidores e passa a ser a entrada de capital novo no sistema.

O que é Rácio de Cobertura?

O rácio de cobertura mede a relação entre a procura registada e o volume de títulos colocados à venda. Um rácio de 120,7 por cento significa que foram pedidas 1,2 acções por cada acção disponível. É um indicador de excesso de procura, não uma medida de qualidade do activo nem de valorização futura: um rácio elevado pode reflectir simplesmente uma oferta pequena face à dimensão do mercado.

As comparações entre operações exigem cautela. A oferta da UNITEL foi várias vezes superior às anteriores em montante, usou um método de alocação diferente e decorreu num momento distinto do ciclo de liquidez. Os rácios das ofertas anteriores foram apurados sob regras de subscrição que não são inteiramente equivalentes.

O Mercado de Bolsa de Acções foi inaugurado em 2022 com a admissão do Banco Angolano de Investimentos e do Banco Caixa Geral Angola, através de dispersões em bolsa. As ofertas públicas de venda no âmbito do Programa de Privatizações começaram em 2024, com a ENSA e a BODIVA, e prosseguiram em 2025 com o Banco de Fomento Angola. A UNITEL é a sexta empresa admitida e a primeira fora do sector financeiro.

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