Cristina Lourenço lembrou que as acções são instrumentos de rendibilidade variável e assumiu o compromisso de reforçar a educação financeira do mercado. Método de alocação aplicado pela primeira vez em Angola serviu integralmente os pequenos investidores e concentrou o rateio no escalão dos institucionais
A BODIVA apelou à racionalidade dos investidores na sessão de admissão das acções da UNITEL, que criou 11.264 novos accionistas com direito a transaccionar desde essa data.
O apelo foi feito por Cristina Lourenço, presidente da Comissão Executiva da Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA), no discurso de abertura da sessão realizada a 29 de Julho em Luanda. Dirigindo-se a investidores retalhistas, institucionais e ao público em geral, a responsável afirmou que “apelamos também à racionalidade na tomada de decisões” e lembrou que quem investe em acções o faz num instrumento que, pela sua natureza, é de rendibilidade variável.
Cristina Lourenço sublinhou que no mercado de acções existem ganhos potenciais mas também riscos, que devem ser informados pelos emitentes e absorvidos pelo mercado, e assumiu, em nome da sociedade gestora e dos seus membros, o compromisso de exercer continuamente o papel de educação financeira. Um mercado mais participativo, argumentou, exige investidores mais informados, mais preparados e mais conscientes das suas decisões de investimento. O apelo surgiu na sequência da menção ao ataque cibernético que atingiu a operadora na véspera e da invocação da teoria da eficiência do mercado, segundo a qual os preços dos activos reflectem rapidamente a informação disponível.
A composição da base accionista ajuda a explicar a insistência no tema. A oferta pública de venda gerou 17.549 ordens de subscrição, das quais 16.571 foram contempladas, correspondentes a 11.264 investidores. No painel que se seguiu à cerimónia, o presidente da Comissão Executiva da BFA Capital Markets, entidade que liderou a estruturação e a colocação, indicou que cerca de 60 por cento da operação foi adquirida por entidades particulares. O presidente da Comissão Executiva da UNITEL, Amílcar Safeca, adiantou por sua vez que cerca de metade dos trabalhadores da operadora aderiu à oferta, com a ressalva de que os números ainda não estavam contabilizados.
Este perfil não é acidental. A operação abandonou o rateio proporcional utilizado na oferta do Banco de Fomento Angola e aplicou pela primeira vez em Angola um mecanismo de alocação por escalões sucessivos, que distribui as acções a partir do patamar mais baixo. O responsável da BFA Capital Markets explicou que, nos quatro escalões inferiores, não houve rateio, e resumiu o resultado ao afirmar que “quem pediu 100 acções recebeu 100 acções, quem pediu mil acções recebeu mil acções”. O rateio ficou confinado ao último escalão, o dos investidores de maior dimensão e institucionais.
O objectivo declarado foi ampliar a dispersão do capital, num processo que transfere para a esfera privada activos que pertenciam ao conjunto dos cidadãos. O mesmo responsável reconheceu, contudo, uma tensão inerente ao desenho: uma base excessivamente concentrada em pequenos investidores, tipicamente detentores de médio e longo prazo, pode reduzir a actividade do mercado secundário.
Cerca de mil ordens ficaram por contemplar. Segundo a explicação dada no painel, foram excluídos os investidores que colocaram ordens abaixo do preço final de 40.040 kwanzas por acção, uma vez que a procura ao nível máximo do intervalo era já suficiente para colocar a totalidade da oferta.
O mercado angolano tem, aliás, precedentes recentes de movimentos bruscos. Entre 23 de Junho e 13 de Julho, período que coincidiu com a preparação da oferta da UNITEL, praticamente todas as empresas cotadas registaram desvalorizações: a seguradora ENSA perdeu 18 por cento, o Banco Caixa Geral Angola 14,5 por cento, o Banco Angolano de Investimentos 6,9 por cento, enquanto o Banco de Fomento Angola e a própria BODIVA recuaram 2,7 e 3 por cento, respectivamente. O movimento foi associado por analistas à realocação de liquidez para financiar a subscrição da nova oferta, e não a perda de confiança no mercado.
Com a admissão à negociação, a UNITEL torna-se, segundo os responsáveis da operação, simultaneamente a empresa com maior capitalização e aquela com maior número de accionistas do mercado accionista angolano. A partir dessa data, os títulos passam a ser livremente transaccionáveis através de qualquer intermediário financeiro membro da BODIVA.





