Cimeira de Durban elegeu infra-estruturas, transformação agrícola e minerais críticos como eixos da industrialização regional. Daniel Sapateiro sustenta que aproveitar essa agenda exige estratégia económica que ultrapasse a exportação de matéria-prima em bruto
A dimensão territorial, os recursos minerais e os corredores de transporte podem dar a Angola papel mais activo na integração da África Austral, defende o economista Daniel Sapateiro.
A posição consta de um artigo de análise divulgado a propósito da 46.ª Cimeira Ordinária de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), realizada a 17 de Agosto, no Centro Internacional de Conferências de Durban, na África do Sul. O encontro reuniu os 16 Estados-membros da organização em torno de uma agenda centrada na industrialização resiliente, sustentável e inclusiva, assente no desenvolvimento de infra-estruturas e na transformação dos produtos agrícolas e dos minerais críticos.
Para o autor, a escolha desses eixos coloca Angola numa posição de partida favorável. A posição geográfica, o potencial agrícola, a capacidade energética e a existência de infra-estruturas portuárias e ferroviárias são identificadas como activos que permitem ao país desempenhar função mais relevante na integração económica regional, sobretudo através dos corredores de transporte que ligam o território angolano ao interior do continente. Esses corredores são apresentados como instrumentos de integração e não apenas como projectos nacionais, enquanto os recursos minerais e energéticos são perspectivados como contributo para cadeias de valor partilhadas entre países da região.
O economista condiciona, porém, esse aproveitamento a uma mudança de orientação da política económica. Angola só retirará benefício da agenda regional, argumenta, se privilegiar a transformação local, a competitividade empresarial e a ligação das empresas nacionais aos mercados vizinhos, o que exigirá uma estratégia económica que vá “além da exportação de matérias-primas”.
O raciocínio é extensivo ao conjunto da região. Durante décadas, sustenta o autor, as economias da África Austral mantiveram-se dependentes da exportação de matérias-primas e da importação de bens manufacturados, e a nova agenda da SADC procura inverter essa lógica através da criação de cadeias de valor regionais. O objectivo apontado é que o cobre, o lítio, o cobalto, o manganês e outros recursos estratégicos deixem de sair da região predominantemente em bruto e passem a alimentar processos de transformação industrial geradores de emprego, conhecimento tecnológico e receita fiscal dentro das próprias economias.
A tese estende-se ainda ao comércio intra-regional, que o autor considera dever aumentar significativamente, e à complementaridade entre países — um a produzir a matéria-prima, outro a fornecer energia ou componentes, outro a assegurar a transformação industrial e outro a funcionar como plataforma logística e de exportação. O artigo não quantifica, contudo, o peso actual do comércio intra-regional nem apresenta valores para qualquer dos fluxos referidos.
O texto identifica como principal obstáculo a distância entre planeamento e execução. A SADC dispõe de instrumentos estratégicos sucessivos, entre os quais o Plano Estratégico Indicativo de Desenvolvimento Regional 2020–2030, a Estratégia e Roteiro de Industrialização 2015–2063, o Plano Director Regional de Desenvolvimento de Infra-estruturas e a Vision 2050, aprovada pelos Chefes de Estado e de Governo em Agosto de 2020. Para o economista, a questão está em saber se a organização consegue converter protocolos e declarações em resultados económicos, num quadro ainda marcado por barreiras comerciais, fraca conectividade, défices de infra-estruturas e limitações energéticas. A ambição está definida, conclui, faltando os meios para a concretizar, uma vez que “a Vision 2050 oferece a ambição; a Cimeira de Durban deve ajudar a definir os instrumentos para a concretizar”.
A Cimeira de Durban marcou o início do mandato da África do Sul à frente da organização. A presidência já era exercida por Pretória desde Novembro de 2025, na sequência da renúncia de Madagáscar ao cargo, decidida em cimeira extraordinária virtual realizada a 7 de Novembro desse ano. A reunião do Conselho de Ministros que antecedeu o encontro, e na qual Angola participou, registou igualmente a passagem da presidência daquele órgão do Zimbabwe para a África do Sul.





