África cresce mais que a Ásia, mas Carlos Lopes alerta para um crescimento sem transformação

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O continente africano deverá crescer mais do que a Ásia em 2026, pela primeira vez, mas Carlos Lopes adverte que esse avanço esconde uma economia que não se transforma.

A previsão foi recordada em Luanda por Carlos Lopes, professor na Mandela School of Public Governance da Universidade da Cidade do Cabo e antigo secretário-geral adjunto da Organização das Nações Unidas (ONU), durante o encontro Pensar Global — África e o Mundo, realizado no Hotel Epic Sana a 15 de Junho.

Segundo as projecções do Fundo Monetário Internacional (FMI) que o orador invocou, o continente deverá expandir-se cerca de 4,6% em 2026, acima dos cerca de 4,4% da Ásia no seu conjunto, numa tendência que as mesmas projecções prolongam até 2030.

Para o orador, o dado é tanto mais assinalável quanto sucede a quatro choques consecutivos sobre a estabilidade económica mundial: a crise financeira de 2008-2009, a pandemia, a guerra na Ucrânia e a guerra no Golfo. A explicação corrente para essa robustez — a resiliência africana — é, no seu entender, insuficiente para compreender o fenómeno.

Recordou que as economias africanas se financiam a um dos custos de capital mais elevados do mundo, entre 8 e 11%, contra os 0 a 1% pagos por uma empresa na Alemanha, e que a própria ajuda ao desenvolvimento recuou 23% nos últimos dois anos, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Não é, portanto, o financiamento externo que sustenta o crescimento.

Crescimento sem qualidade

Carlos Lopes distingue o crescimento do produto interno bruto (PIB) da transformação real das economias. Mede-se uma coisa, sustentou, sem se medir a outra. Para ilustrar a diferença entre crescer e transformar, recorreu a uma imagem que diz usar com os seus alunos.

«Se nós cortarmos todas as árvores de um país, o PIB cresce, mas o país fica sem árvores.»

O problema, no seu diagnóstico, está na estrutura produtiva. Cerca de 80% das exportações africanas são matérias-primas, das quais 60% produtos fósseis, num modelo que extrai e exporta valor sem o transformar. A actividade mineira, exemplificou, representa apenas cerca de 1% do emprego formal do continente, o que a torna um terreno propício à apropriação de capital sem criação de emprego nem cadeias de valor locais.

A consequência mais dura dessa estrutura, afirmou, é que o continente menos desenvolvido do mundo se comporta como exportador líquido de capital — sai mais capital do que entra —, por força das regras que prevalecem no sistema financeiro internacional.

Uma questão de políticas

A transformação estrutural, defendeu Carlos Lopes, faz-se deslocando a actividade económica dos sectores menos produtivos para os mais produtivos, através de políticas deliberadas. Em África, porém, cerca de 60% da população continua dependente do sector primário — agricultura e pescas, sobretudo —, com níveis de produtividade entre os mais baixos do mundo.

Esse atraso, argumentou, não é intrínseco ao continente, mas resultado de opções políticas. Apontou o caso do Vietname, que há cerca de 15 anos não produzia café e hoje produz mais do que toda a África, apesar de o café ser originário do continente africano.

Apesar do diagnóstico, o orador considera que o crescimento africano se manterá acima do asiático, sustentado por três grandes tendências — demográfica, climática e tecnológica — e pela deslocação geográfica da indústria mundial, que aponta agora para o continente. O receio que deixou em aberto é o de essa industrialização chegar tarde e em condições desfavoráveis.

Carlos Lopes advertiu que a indústria africana está estagnada há mais de duas décadas, em torno de 11% do PIB, e que poderá receber uma industrialização já desvalorizada noutras geografias.

«Podemos, inclusive, ter uma industrialização de pobres. Uma industrialização precária. Uma industrialização que fica com os restos do que os outros já não querem.»

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