A norte-americana fez da rádio uma lente para ler a história angolana — primeiro a música, depois as ondas. Investigadora paciente, que se diz lenta e que escreve para pensar, construiu a sua obra a partir dos arquivos da polícia política e de memórias de quem ouvia às escondidas.
Marissa Moorman dedicou cerca de dez anos a investigar a rádio em Angola. O resultado, Frequências Poderosas, chega agora a Luanda em português, pela Kacimbo.
A obra foi apresentada a 19 de Junho, e por detrás dela está uma trajectória que há quase duas décadas tem Angola por objecto. Professora de Estudos Culturais Africanos na Universidade de Wisconsin-Madison, Moorman pertence a uma linhagem de historiadores que olham para a cultura e os meios de comunicação não como pano de fundo, mas como matéria de que se faz a própria história política de um país.
O seu percurso desenha um arco coerente. Em Intonations, debruçou-se sobre a música urbana de Luanda e o modo como ela ajudou a formar uma ideia moderna de nação angolana. Em Frequências Poderosas, mudou de instrumento sem mudar de pergunta: continuou a interrogar como os angolanos produziram sentido e pertença através das formas culturais — desta vez, seguindo o sinal da rádio dos clubes dos colonos às emissões clandestinas da guerrilha e à voz do Estado independente.
O método é o de quem não tem pressa. A autora admite ser lenta e confessa que precisa de escrever para pensar, e cada livro lhe custa, por norma, cerca de uma década entre a pesquisa e a escrita. Esse tempo longo alimenta-se de entrevistas e de horas passadas em arquivo, sobretudo nos da antiga polícia política portuguesa, onde encontrou as transcrições com que reconstituiu a Angola que ouvia rádio às escondidas. O próprio título do livro, contou, não foi ideia sua: surgiu de uma conversa com dois colegas da faculdade, já com a investigação em curso.
O seu olhar não se fecha nas fronteiras angolanas. Moorman integra um grupo de historiadores que estuda a rádio na África austral, com investigadores da África do Sul, de Moçambique e da Namíbia, e foi por essa via comparativa que reparou numa singularidade angolana: ao contrário de Moçambique, onde os quadros da rádio dos movimentos passaram a dirigir a rádio nacional, em Angola, em 1975, esses quadros não assumiram a direcção da emissora oficial. É também a partir dessa atenção ao detalhe que situa o 27 de Maio de 1977 como momento de viragem na relação entre o Estado e a rádio.
Para além dos livros, Moorman escreve regularmente sobre política e cultura na plataforma Africa Is a Country, onde integra o conselho editorial. É nesse cruzamento — entre o rigor do arquivo e a escrita para um público amplo — que se reconhece a sua marca: a de uma historiadora que transforma o ruído de fundo da história em algo que se ouve com nitidez.

Intonations: o primeiro livro
Antes de Frequências Poderosas, Marissa Moorman publicou Intonations: A Social History of Music and Nation in Luanda, Angola, sobre a música urbana luandense e o seu papel na construção de uma identidade nacional moderna, sobretudo nos anos 60 e 70. É a obra que a tornou uma referência internacional nos estudos sobre Angola e que abriu caminho à investigação posterior sobre a rádio. As duas obras formam um díptico: uma centrada no que se cantava, a outra no que se ouvia.





