A acção da UNITEL cotava a Kz 28.190 em 8 de Outubro, 29,6% abaixo do preço da oferta pública e 40,2% abaixo do fecho do dia de estreia. Em paralelo, a inflação desceu para 8,43% em Setembro e o BNA acumula 275 pontos base de cortes em 2026 — mas a LUIBOR a 12 meses mantém-se 320 pontos base acima da taxa directora.
Setenta e um dias separam a estreia da UNITEL na BODIVA, a 29 de Julho, da cotação de Kz 28.190 registada a 8 de Outubro e divulgada pelo analista Salvador Rodrigues. Nesse intervalo, o título perdeu 40,2% face ao fecho do primeiro dia de negociação e situa-se 29,6% abaixo dos Kz 40.040 da oferta pública de venda.
A conta que decorre destes números é directa. A operação colocou 7,5 milhões de acções, correspondentes a 15% do capital, e rendeu ao Estado Kz 300,3 mil milhões — o produto exacto de 7,5 milhões de títulos pelo preço de Kz 40.040. Ao preço de 8 de Outubro, esse mesmo lote vale Kz 211,4 mil milhões. A diferença, Kz 88,9 mil milhões, é a menos-valia potencial dos 11.264 investidores que se tornaram accionistas da operadora em Julho.
É menos-valia potencial, não perda realizada: só se concretiza para quem vender. Mas é a medida da distância entre o preço a que o Estado alienou a participação e o preço a que o mercado a avalia dez semanas depois.
A trajectória do título
O percurso da cotação ajuda a situar o momento actual. Na estreia, a 29 de Julho, a acção tocou Kz 50.050 em máximo intradiário e fechou a Kz 47.100, acima do preço da oferta. A 6 de Agosto caiu a Kz 30.500. Recuperou para Kz 36.500 no fecho de Agosto e cotava Kz 36.000 a 1 de Setembro, segundo o Expansão. O valor de 8 de Outubro fica 21,7% abaixo desse nível.
Com 50 milhões de acções representativas da totalidade do capital, a capitalização bolsista da operadora passou de cerca de Kz 2 biliões, ao preço da oferta, para Kz 1,41 biliões. O Expansão calculara, a 4 de Setembro, que ao preço de Kz 36.000 a capitalização estava cerca de Kz 202 mil milhões abaixo do valor implícito dos activos ajustados da empresa — estimados em torno de Kz 2 biliões, incluindo a participação de 36,9% no BFA avaliada a preço de mercado. Ao preço de 8 de Outubro, esse desconto amplia-se para cerca de Kz 592 mil milhões, ou 29,6%.
Importa um esclarecimento sobre a procura registada na oferta. Foram apresentadas ordens para 9.054.299 acções contra 7,5 milhões disponíveis, o que corresponde a uma procura 20,7% superior à oferta, e não a 120% como circulou em alguns títulos — 9.054.299 representam 120,7% da oferta, não um excesso de 120%. O preço final foi fixado no topo do intervalo indicativo, que ia de Kz 36.036 a Kz 40.040.
Salvador Rodrigues refere ainda um máximo recente de Kz 31.071, face ao qual o recuo é de 9,27%, e uma cotação anterior de Kz 29.500, com queda de 4,44%. Os três cálculos de variação apresentados na coluna foram verificados e estão exactos. As referências de preço intermédias, porém, não constam de fonte oficial consultável e são as que o próprio analista acompanha.
Inflação no nível mais baixo do ciclo
O Instituto Nacional de Estatística divulgou a 8 de Outubro a inflação de Setembro: 8,43%, contra 8,78% em Agosto, uma redução de 0,35 pontos percentuais. É o segundo mês consecutivo em terreno de um dígito, patamar que a meta do banco central persegue há anos sem o consolidar.
A desaceleração dos preços acompanha um ciclo de alívio monetário sustentado. A taxa básica de juro do Banco Nacional de Angola está em 14,75% desde 15 de Setembro, depois de três cortes em 2026: 50 pontos base a 14 de Maio, levando a taxa de 17,5% para 17%; 125 pontos base a 14 de Julho, para 15,75%; e 100 pontos base em Setembro. No conjunto do ano, são 275 pontos base de redução. A próxima reunião do Comité de Política Monetária está marcada para 17 de Novembro.
Com inflação a 8,43%, a taxa directora traduz-se numa remuneração real de aproximadamente 5,83% — cálculo da Outside pela relação de Fisher. É um nível elevado para um banco central em ciclo de descida, e é o argumento que sustenta a expectativa de novos cortes.
O preço do dinheiro não desceu com a taxa
Há, no entanto, um desalinhamento que a descida da taxa directora não resolveu. A LUIBOR a 12 meses fixou em 17,95%, na última fixação disponível de 5 de Outubro, e a LUIBOR a 6 meses em 15,41%, a 7 de Outubro, segundo os valores compilados por Salvador Rodrigues.
A taxa a 12 meses está, assim, 320 pontos base acima da taxa directora. A de 6 meses, 66 pontos base acima. O mercado monetário interbancário continua a avaliar o custo do dinheiro bem acima do preço que o banco central sinaliza — o que indica que o alívio da política monetária não se transmitiu ao custo de captação dos bancos.
A remuneração dos depósitos reforça essa leitura. O Banco BIC anuncia 16,5% no produto Bankita a Crescer, ainda que limitado a aplicações de Kz 250 mil, e 14,5% a 90 dias e 15,5% a 180 dias no BIC Cresce+. O Banco de Fomento Angola publica depósitos especiais a 15% e 15,5% a 90 dias. Com a taxa directora a 14,75%, há bancos a pagar pelos recursos acima do que o banco central cobra — situação que comprime margens e pressiona as taxas a cobrar no crédito.
Quatro instrumentos a competir pelo mesmo kwanza
O quadro de alternativas disponíveis ao aplicador em kwanzas está hoje mais concorrido do que em qualquer momento recente, e a hierarquia de remuneração nominal inverte-se em relação à hierarquia de risco.
As obrigações do BAI são o instrumento com rendimento estimado mais alto. A emissão de 2029, com cupão de 17%, negociou a 98% do valor nominal a 6 de Outubro, o que corresponde a uma yield estimada de aproximadamente 17,9%. A de 2031, com cupão de 20%, negociou a 110% a 7 de Outubro, com yield estimada de 16,7%. Os cálculos de verificação da Outside confirmam a consistência interna destas estimativas para maturidades de cerca de três anos e de quatro a cinco anos, respectivamente. São, como o próprio analista assinala, estimativas antes de impostos e encargos, e não taxas oficialmente confirmadas.
Para as Obrigações do Tesouro, a referência mantida é o intervalo de 14,25% a 15,25% de emissões anteriores. Salvador Rodrigues registou não ter identificado uma curva oficial de yields suficientemente recente para confirmar alteração generalizada no mercado secundário — uma lacuna de informação que, por si só, merece registo num mercado que depende da dívida pública para formar a sua referência de preço.
Convertidas em remuneração real face à inflação de Setembro, as aplicações em kwanzas rendem hoje entre 5,37% e 8,78%, por cálculo da Outside. O topo pertence à LUIBOR a 12 meses e às obrigações do BAI; a base, às Obrigações do Tesouro na extremidade inferior do intervalo histórico. O produto de retalho do BIC, a 16,5%, rende 7,44% reais — mas o limite de Kz 250 mil impede-o de funcionar como alternativa para capital de dimensão relevante.
A inversão é o dado analítico central: o Estado remunera a sua dívida abaixo do que um banco privado paga por depósitos e abaixo do que as obrigações de um banco rendem no secundário. Num mercado com formação de preço madura, o risco soberano seria o mais barato da curva.
O que observar
Três variáveis determinam a evolução dos próximos meses.
A primeira é a reunião do Comité de Política Monetária de 17 de Novembro. Com inflação a 8,43% e taxa real na ordem dos 5,8%, existe margem técnica para novo corte, mas a persistência da LUIBOR acima de 17% sugere que o mercado não antecipa transmissão rápida.
A segunda é a convergência — ou não — entre a descida da taxa directora e as taxas efectivamente cobradas no crédito. É esse o ponto em que o alívio monetário deixa de ser um indicador e passa a afectar o investimento empresarial. Enquanto os bancos pagarem 15% a 16,5% pelos depósitos, o custo do crédito à economia produtiva não acompanhará a taxa directora.
A terceira é a liquidez do mercado accionista. A entrada da UNITEL na BODIVA foi acompanhada de quedas generalizadas nas acções já cotadas, e vários meios associaram esse movimento à concentração de procura na nova emissão. A questão em aberto é se o mercado tem profundidade para absorver pressão vendedora num título desta dimensão sem amplificar movimentos de preço — matéria que cabe à Comissão do Mercado de Capitais e à BODIVA documentar.





