Quatro entidades assinaram em Kinshasa um Acordo-Quadro Estratégico para financiar, construir e operar 200 quilómetros de linha de alta tensão entre Kalumbila, na Zâmbia, e Kolwezi, na República Democrática do Congo. O custo de construção está estimado em USD 300 milhões, valor 20% superior ao orçamento divulgado em Dezembro de 2024.
O Fundo de Investimento Estratégico da República Democrática do Congo (FIS-RDC), a Enterprise Power DRC SARL (EnPower), a Trafigura e a Gridworks Development Partners anunciaram na quarta-feira, em Kinshasa, a assinatura de um Acordo-Quadro Estratégico para o Projecto de Interligação Kalumbila–Kolwezi (KKIP).
A linha terá 200 quilómetros e capacidade térmica de 700 MW, permitindo a importação de até 550 MW para a região mineira do Copperbelt congolês, com um desenho que admite ampliação futura para mais de 1 GW. Segundo o comunicado das partes, o projecto “atingiu a fase final de desenvolvimento, com todas as concessões, licenças e autorizações necessárias já garantidas”. A tensão foi indicada em 330 kV em documentação do projecto divulgada em Dezembro de 2024.
A Gridworks assume o papel de principal investidora em capital e accionista maioritária. A promotora é detida e financiada a 100% pela British International Investment, a instituição de financiamento ao desenvolvimento do Governo do Reino Unido. A Trafigura acordou organizar “uma parcela significativa do financiamento por dívida”, sem que o comunicado especifique montante ou estrutura. A FIS-RDC confirmou intenção de investir capital próprio: criado pelo Decreto n.º 25/031, de 2 de Outubro de 2025, sob supervisão do Ministério das Finanças congolês, o fundo tem no KKIP o seu primeiro investimento anunciado.
“O KKIP é a transacção inaugural do Fundo e reflecte precisamente o mandato que nos foi confiado pelo Governo”, afirmou Emile Osumba, CEO da FIS-RDC, citado no comunicado.
A EnPower é a promotora original do projecto — comercializadora de energia congolesa licenciada, membro do Southern African Power Pool (SAPP), que importa electricidade para a RDC desde 2023. A sua subsidiária Enterprise Power Zambia tem um acordo de fornecimento de 350 MW assinado com a ZESCO, a empresa pública de electricidade zambiana, segundo documentação do projecto de Dezembro de 2024. Esse volume corresponde a 64% da capacidade de importação da linha, o que deixa 200 MW sem comprador publicamente identificado. No lado zambiano, a linha liga a uma subestação na mina de cobre Sentinel, operada pela canadiana First Quantum Minerals.
O comunicado situa o problema que o projecto pretende resolver: um défice estrutural de energia na RDC superior a 1 GW. Os 350 MW contratados cobrem cerca de 35% dessa lacuna. As partes antecipam que a linha permitirá “o desenvolvimento de projectos de mineração e refinação actualmente suspensos devido à falta de energia de base disponível e a custos competitivos”, sem os identificar. Estão em curso conversações com entidades zambianas sobre um potencial coinvestimento.
Orçamento e calendário
O custo do KKIP foi orçado em USD 250 milhões em Dezembro de 2024 e em cerca de USD 270 milhões em Maio de 2025, quando o Conselho Regulador da Energia da Zâmbia aprovou o projecto. Os USD 300 milhões agora anunciados representam um agravamento de 20% em menos de dois anos.
O fecho financeiro estava inicialmente apontado para meados de 2025 e não se concretizou. A construção está prevista em 30 meses após esse fecho. O comunicado desta semana não indica data de início de obra nem de entrada em serviço.
O projecto tem percurso longo: memorandos intergovernamentais entre a RDC e a Zâmbia em Junho de 2022, acordo de colaboração com a International Finance Corporation no mesmo ano, mandato de organização da dívida atribuído à IFC no final de 2024 e concurso internacional de engenharia, aprovisionamento e construção concluído em Fevereiro de 2025.
A ligação a Angola
Há um elemento que liga o anúncio a Luanda. Em Julho de 2024, a Trafigura e a ProMarks assinaram um memorando de entendimento não vinculativo com o Governo angolano para estudar a viabilidade técnica e económica de uma linha de alta tensão de 2.000 MW, do norte de Angola até ao Copperbelt da RDC e da Zâmbia.
Em 15 de Julho de 2026, a Ecofin Agency noticiou, citando a Reuters, que a Trafigura se retirou desse projecto. Um responsável governamental angolano confirmou a saída e indicou que as negociações prosseguiriam com um consórcio de composição alterada, sem identificar os novos membros. Nem a Trafigura nem a ProMarks comentaram publicamente. O comunicado do KKIP não faz qualquer referência a Angola.





