“Sapeur: A grande burla”, primeira longa-metragem de Dénis Miala, inaugura a 8.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Luanda a 28 de Outubro, no Cine Alfa. A escolha coloca uma produção nacional na sessão de abertura de um festival que regressa onze anos depois da última edição, com mais de 100 filmes de mais de 20 países.
A sessão inaugural do Festival Internacional de Cinema de Luanda (FIC Luanda) será entregue a uma produção angolana. “Sapeur: A grande burla”, primeira longa-metragem do realizador Dénis Miala, abre a 8.ª edição do festival na quarta-feira, 28 de Outubro, no Cine Alfa, segundo o comunicado divulgado hoje pela produção do filme.
Ambientada no Palanca, em Luanda, a tragicomédia acompanha Jacob, mecânico de 50 anos e sapeur orgulhoso, que promete oferecer uma casa ao filho como presente de casamento. A casa não existe. Sem dinheiro e com a verdade prestes a vir à tona, Jacob junta-se ao amigo Lunda e envolve-se num plano para se fazer passar por um político rico e vender um terreno a investidores franceses.
Documentos falsos, fatos feitos à medida, um carro de luxo e o apoio de um agiota local dão forma ao esquema. O elenco reúne David Enoque Caracol, Fernando Mailoje, Valercya Nzollani e Cláudia Pucuta.
Uma história de origem
Miala situa o filme numa observação pessoal. “Com ‘Sapeur: A grande burla’, quis contar uma história nossa, ligada às minhas origens Bakongo e aos homens que observei enquanto crescia”, afirma o realizador no comunicado. “Estes homens procuravam sustentar a família, conquistar respeito e construir uma vida melhor, mas esses esforços nem sempre resultavam. Jacob nasce desse olhar. Interessa-me a distância entre esse desejo e a realidade: o afecto, o orgulho e a dificuldade de admitir que não se conseguiu.”
Para o realizador, a cultura sapeur representa “uma forma de resiliência perante as dificuldades da vida e uma afirmação simples: ser pobre não significa ter de se vestir mal”. A elegância, acrescenta, “torna-se uma maneira de afirmar a identidade e preservar a dignidade, recusando que a condição económica determine o valor de um homem”.
A fotografia é de Carlos Missange, a direcção de produção de Marcos Ndombele e o guarda-roupa de Massaki Kennu. A produção executiva está a cargo de Dénis Miala, Alberto Mendes e Lourenço M. de Carvalho.
A escolha do tema inscreve o filme numa tradição cultural com raízes na região. A Société des Ambianceurs et des Personnes Élégantes, abreviada como La Sape, formou-se entre as comunidades congolesas de Kinshasa, então Léopoldville, e de Brazzaville, e um dos seus mitos fundadores remete ao Reino do Congo e à adopção do vestuário português na corte, no século XVI. O movimento está associado aos povos Kongo e Lari, e as suas regras de conduta — dez mandamentos — incluem padrões rigorosos de indumentária e a recusa do tribalismo e da violência.
O festival e as suas contas
O FIC Luanda 2026 decorre de 28 de Outubro a 2 de Novembro, seis dias, e é uma iniciativa da Agência Nacional das Indústrias Culturais e Criativas (ANICC), tutelada pelo Ministério da Cultura, com a produtora Geração 80 como entidade executora. A direcção da edição está a cargo de Jorge Cohen, a ANICC é dirigida por Asdrúbal Rebelo e a programação é assinada por Lara Sousa.
A estrutura compreende seis competições oficiais — longa-metragem de ficção, documentário e curta-metragem, cada uma em versão nacional e internacional — e cinco mostras paralelas. Os prémios vão até 5 milhões de kwanzas para a melhor longa-metragem, 3 milhões para o melhor documentário e 1,5 milhões para a melhor curta, segundo a Forbes África Lusófona. Somados nas duas competições, os seis galardões totalizam 19 milhões de kwanzas, o equivalente a cerca de 12% do orçamento do festival, apontado pelo Mercado em 160 milhões de kwanzas.
Para além de “Sapeur: A grande burla”, a programação inclui as estreias de “The Odds”, da Nigéria, e de “Congo Boy”, da República Democrática do Congo, em estreia africana em Luanda. A Nigéria é o país convidado, com um painel de dez filmes curado pelo colectivo Surreal16, e há uma mostra dedicada ao cinema brasileiro. Uma secção não competitiva para crianças e jovens reúne as animações “Capitão Angola”, “Super Moçambique”, “O Meu Guerreiro Favorito” e “Tchepa”.
O júri anunciado integra Zezé Gamboa, Janaína Oliveira e Mariano Bartolomeu. Gamboa assina “O Herói”, de 2004, que conquistou o Grande Prémio da Competição Internacional de Ficção no Festival de Sundance de 2005 e recebeu distinções em mais de vinte e cinco outros festivais — o reconhecimento internacional mais consequente alcançado por uma longa-metragem angolana.
As sessões distribuem-se pelo Cine-Teatro Nacional, Cinemax do Fortaleza, Instituto Guimarães Rosa, Centro Cultural Camões, Centro de Ciência de Luanda e Cine Alfa, com sessões itinerantes do Cine Zunga no Largo do Kinaxixi. A programação completa será anunciada a 15 de Outubro. Os promotores esperam cerca de 6.000 espectadores e a participação de cerca de 160 profissionais do cinema e do audiovisual.
Onze anos de interregno
O regresso do festival depois de onze anos sem edições é o enquadramento que dá peso à escolha do filme de abertura. Para a competição nacional, a organização recebeu 37 candidaturas, segundo o Mercado, podendo concorrer obras concluídas a partir de 2023; a Forbes África Lusófona refere cerca de 90 produções submetidas e aproximadamente 30 selecionadas. A divergência entre as duas contagens não foi esclarecida publicamente.
Os promotores do festival consideram a recuperação de infra-estruturas decisiva para relançar o sector e criar hábitos regulares de ida ao cinema — um diagnóstico que a própria lista de salas ilustra, ao combinar cinemas comerciais, institutos culturais estrangeiros, um centro de ciência e uma unidade de projecção ambulante.
Para uma primeira longa-metragem, abrir um festival nestas condições representa exposição difícil de obter de outro modo no circuito angolano. A escolha também define um tom: em vez de uma obra internacional de prestígio, a sessão inaugural entrega-se a uma história de bairro, sobre dívida, aparência e o custo de manter as duas.
O que é um sapeur
A palavra vem de La Sape, abreviatura de Société des Ambianceurs et des Personnes Élégantes — sociedade dos criadores de ambiente e das pessoas elegantes. O nome joga com o francês sapé, vestido com apuro, e com o termo militar sape, enfraquecer por baixo.
O movimento formou-se entre as comunidades congolesas de Kinshasa e Brazzaville, consolidando-se depois das independências de 1960, quando o colapso económico levou muitos à emigração para Paris e Londres. Os sapeurs reivindicam três mitos fundadores: o Reino do Congo, com relatos do século XVI sobre a adopção de vestuário português na corte; a figura de André Matsoua e da associação anticolonial L’Amicale, criada em Paris em 1926; e Christian Loubaki, operário de Brazzaville em Paris.
A prática tem vocabulário próprio — sapelogie para a filosofia, sapelogue para quem a pratica — e rituais, entre os quais a danse des griffes, a dança das etiquetas, popularizada em Paris nos anos 80. Os dez mandamentos do movimento exigem padrões rigorosos de vestuário e higiene, civilidade, respeito pelos mais velhos e a recusa expressa do tribalismo, do nacionalismo, do racismo e da violência.
Nos anos 70, Papa Wemba contribuiu para o renascimento do movimento em Kinshasa, depois de Mobutu ter promovido, em 1971, o abacost — contracção de “à bas le costume”, abaixo o fato — como vestuário nacional. Desde então, a estética sapeur chegou às passerelles e aos videoclipes internacionais.









