Rui Catalo descreve ciclos em que a entrada de novos produtores derruba as vendas dos anteriores e os leva a reduzir área plantada, repondo a escassez.
Vários produtos hortícolas produzidos em Angola já igualam ou superam os importados em qualidade, mas a oferta continua sem equilíbrio, afirmou o responsável máximo da Casa dos Frescos.
Em entrevista à Revista Outside, Rui Catalo sustentou existirem hoje produtos hortícolas nacionais equivalentes ou superiores aos de qualquer mercado internacional, e identificou igualmente alguns segmentos industriais, com destaque para algumas variedades de bolachas, onde considera a produção local equiparável. Ressalvou que a indústria nacional continua maioritariamente orientada para o mercado informal e para segmentos de menor poder de compra. Quanto à produção industrial do próprio grupo, afirmou que os artigos fabricados em Angola replicam formulações, capacidades e texturas equivalentes às de qualquer país europeu, e argumentou que o produto local parte com vantagem por não sofrer a degradação associada ao tempo de contentor e às variações de temperatura no transporte.
As afirmações são de um operador que é simultaneamente comprador de produção nacional e produtor industrial, pelo que devem ser lidas à luz dessa exposição.
O diagnóstico sobre o fornecimento é menos favorável. O entrevistado afirmou manter parceiros com duas décadas de relação, mas descreveu as fileiras de hortícolas e frutas como as mais instáveis, com períodos em que a quantidade disponível não cobre a procura e outros em que sobra, sem que se tenha alcançado um ponto de equilíbrio entre o que é necessário produzir e o que efectivamente se produz.
O mecanismo que descreve é de coordenação, não de capacidade. Segundo o entrevistado, um produtor com escoamento médio estabelecido vê as suas vendas recuar quando entra um novo concorrente na mesma janela de produção; reduz então a área plantada; o novo entrante, ao concluir que o negócio não compensa, abandona a fileira; e o mercado regressa à escassez, com nova subida de preços. Apontou o tomate como o caso mais recorrente e estabeleceu paralelo com o comportamento das importações de farinha de trigo há cerca de quinze anos, quando, na sua descrição, a entrada simultânea de vários importadores saturou o mercado, forçou vendas abaixo do custo e conduziu ao desaparecimento subsequente do produto.





