“O cinema é tão importante como produzir pão”, diz cineasta Mariano Bartolomeu em Luanda

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Realizador regressou a Angola pela primeira vez desde 2017 para uma mostra dedicada à sua obra, que a organização diz ser a primeira. Sessão no Hotel Globo exibiu três das quatro curtas-metragens programadas

O realizador Mariano Bartolomeu regressou a Angola pela primeira vez desde 2017 para uma mostra dedicada à sua obra, realizada a 16 de Setembro, em Luanda.

A sessão decorreu no Hotel Globo e foi organizada pela associação Kinoyetu em parceria com a Cinéfilos & Literatus. Estavam programadas quatro curtas-metragens e foram exibidas três: “Um Lugar Limpo e Bem Iluminado”, inspirado numa história de Ernest Hemingway e realizado e produzido em Cuba; “Quem Faz Correr o Quim”, feito em Angola em 1991 como filme de tese da escola de cinema cubana; e “O Contador de Histórias”. O quarto filme programado, uma obra experimental rodada nos Estados Unidos em 2001, não chegou a ser exibido. Também não foi mostrado o único documentário do realizador, de 1995, sobre a guerra civil, que segundo Mariano Bartolomeu ficou de fora por falta de tempo.

Questionado sobre a mensagem que gostaria de deixar ao público, o realizador defendeu que fazer cinema é importante para o desenvolvimento do país, porque gera trabalho e economia, e afirmou que “o cinema é importante, tão importante como produzir pão”.

Esse argumento económico convive, no seu percurso, com um dilema que descreveu no debate que se seguiu às projecções. Segundo Mariano Bartolomeu, “Quem Faz Correr o Quim” custou cerca de 30 mil dólares, um valor que considerou elevado num país em guerra civil e com pessoas a morrer de fome, o que o levou a entrar em crise. O realizador contou que lhe doía “meter aquele dinheiro” no cinema e que daí retirou a convicção de que, dispondo desses meios, teria de fazer obras que fizessem sentido. Foi também essa exigência, disse, que o levou a não se apressar a realizar uma longa-metragem.

O afastamento de Angola tem duas explicações dadas pelo próprio. A primeira é um projecto de longa-metragem entre Itália e Angola, que o levou a viver em Itália e que nunca se concretizou. A segunda é a mudança para os Estados Unidos, nos anos 2000, por razões familiares, para estar junto dos filhos. Aí, afirmou, era preciso trabalhar sempre, o que é difícil no cinema. O realizador disse viver no estrangeiro há cerca de duas décadas e ter visitado Angola quase todos os anos até 2017. Rejeitou que o afastamento tenha resultado de rancor ou ressentimento.

Em nome da organização, o actor Orlando Sérgio afirmou que a Kinoyetu convidou o realizador por o considerar singular no percurso do cinema angolano e por este nunca ter feito uma retrospectiva da sua obra. Destacou o facto de os argumentos partirem de escritores universais, como Ernest Hemingway, e o rigor na direcção de actores. Acrescentou que o objectivo da mostra é dar a conhecer os filmes ao público, sobretudo às novas gerações, e que as imagens permitem ver a Luanda dos anos 90, incluindo a Marginal.

No debate, o cineasta Jorge António considerou Mariano Bartolomeu um caso único e raro no cinema angolano e afirmou não conhecer nenhum filme angolano com a mise-en-scène do primeiro filme do realizador, rodado a preto e branco em película. Participaram ainda o realizador Ery Claver e o actor Miguel Hurst.

Questionado sobre a nova geração de realizadores, Mariano Bartolomeu afirmou que a tecnologia tornou fácil fazer imagens, ao contrário do que sucedia há três décadas, mas alertou que registar a realidade não basta. Defendeu que os mais jovens estudem a linguagem cinematográfica e façam pesquisa para contar as suas histórias de forma mais eficaz. Sobre a preservação da cultura, sustentou que o cinema a garante filmando e que prefere a pluralidade de vozes à concentração em poucos autores, por a cultura angolana ser múltipla.

Mariano Bartolomeu disse ter estudado cinema em Cuba como bolseiro da Fundação do Novo Cinema Latino-Americano. A escola é identificada por fontes externas como a Escola Internacional de Cinema e Televisão. Antes disso, trabalhou como arquivista de documentação na Cinemateca Nacional, onde diz ter iniciado a sua formação cinematográfica, tendo frequentado um curso de história do cinema ministrado por uma professora argentina.

Fez o mestrado em cinema nos Estados Unidos, com uma bolsa Fulbright. Nasceu em Malanje, em 1967, e concluiu o mestrado em realização na Universidade de Ohio.

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