Cineasta afirma que a televisão pública gravou por cima de cassetes durante a guerra civil e estima que 80% do cinema angolano em película está perdido. Declarações foram feitas no debate da retrospectiva dedicada a Mariano Bartolomeu, em Luanda
O cineasta Jorge António afirmou em Luanda que a Televisão Pública de Angola (TPA) gravou por cima de cassetes durante a guerra civil por falta de dinheiro para comprar novas.
As declarações foram feitas ontem, 16 de Setembro, no Hotel Globo, durante o debate que acompanhou a mostra dedicada ao realizador Mariano Bartolomeu, organizada pela associação Kinoyetu em parceria com a Cinéfilos & Literatus. Segundo Jorge António, a estação reutilizou cassetes Betacam porque não dispunha de verba nem de reservas de material, e as equipas “não tinham dinheiro, não tinham estoque de cassetes, então gravavam por cima”. O cineasta acrescentou que é possível imaginar quantas imagens da história do país desapareceram por essa razão.
Jorge António não indicou o período em que a prática ocorreu nem o volume de material afectado. Apresentou o caso como parte da história do audiovisual angolano e da relação entre a televisão e a guerra civil, afirmando tratar-se de uma situação conhecida no meio.
O cineasta estendeu a avaliação ao cinema produzido em película, em formatos de 16 e 35 milímetros. Declarou que “80% do cinema angolano em película está perdido” e contestou versões em sentido contrário, sem as identificar nem indicar a base do cálculo. Como exemplo, referiu o envio para Portugal, para o laboratório Tobis e para o arquivo da Cinemateca Portuguesa, das latas de filme que se encontravam nas instalações da antiga Cinemateca, e afirmou que parte desses filmes não voltará a ser vista, dadas as características irreversíveis da degradação da película.
Para Jorge António, a situação resulta da forma como as instituições do sector, entre as quais a Cinemateca e o Instituto de Cinema, lidaram com os arquivos ao longo das últimas décadas. O cineasta afirmou que nunca existiu uma atenção específica nem uma política de Estado para a protecção da história do cinema e do audiovisual angolano. Neste contexto, considerou uma sorte a preservação em película dos primeiros filmes de Mariano Bartolomeu, realizados no âmbito da sua formação na escola de cinema em Cuba.
A afirmação sobre a inexistência de uma política de Estado contrasta com o registo académico sobre o sector. Segundo um estudo publicado em 2020 sobre a história do cinema angolano, o Instituto Angolano de Cinema, Audiovisuais e Multimédia (IACAM), criado em 2003, traçou um plano para a recuperação, restauro e conservação do acervo fílmico do país, através da redinamização da Cinemateca Nacional. O mesmo estudo refere que o I Encontro Nacional de Cinema, Audiovisual e Multimédia, realizado em Julho de 2005, reconheceu o colapso do sector, incluindo na área da conservação. O grau de execução desse plano não é conhecido.
A retrospectiva exibiu três curtas-metragens de Mariano Bartolomeu: “Um Lugar Limpo e Bem Iluminado”, “Quem Faz Correr o Quim” e “O Contador de Histórias”, esta última gravada em Betacam para televisão. O debate contou ainda com a participação do realizador Ery Claver, do actor Miguel Hurst e de Orlando Sérgio, em representação da organização.
A guerra civil angolana decorreu entre 1975 e 2002. Durante esse período, a produção audiovisual do país dependeu em grande medida da televisão pública e das estruturas estatais de cinema.
O Betacam é um formato profissional de vídeo em cassete, utilizado durante décadas por estações de televisão. As cassetes podiam ser regravadas, o que apagava o conteúdo anterior.
O cinema em película exige condições controladas de temperatura e humidade para não se degradar. O Arquivo Nacional das Imagens em Movimento (ANIM) é o arquivo de conservação da Cinemateca Portuguesa.
O Instituto Angolano do Cinema e do Audiovisual (IACA) é actualmente a entidade pública responsável por conceber e executar a política do sector.





