Discussão sobre um segundo mandato do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos provoca troca pública de acusações entre Washington e Paris
Delegação norte-americana abandona reunião da ONU e ameaça repetir gesto sempre que França mantiver o actual discurso
Os Estados Unidos e a França protagonizaram um raro confronto diplomático nas Nações Unidas, depois de divergências sobre a renovação do mandato do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, escalarem para uma troca pública de acusações.
O incidente ocorreu durante uma reunião do Conselho de Segurança da ONU sobre a guerra na Ucrânia. A delegação norte-americana abandonou a sala enquanto o representante francês discursava, em protesto contra críticas feitas por Paris à posição de Washington relativamente à recondução de Volker Türk.
A tensão começou dias antes, quando a missão francesa junto da ONU criticou os Estados Unidos por terem votado contra um segundo mandato de Türk, colocando Washington ao lado de países como a Rússia e a Coreia do Norte. A publicação gerou uma resposta dura por parte da Administração norte-americana.
O embaixador norte-americano Mike Waltz acusou a França de fazer “teatro político” e afirmou que Volker Türk tem dirigido críticas excessivas a democracias como os Estados Unidos e Israel, enquanto adopta uma postura mais branda perante regimes autoritários. O diplomata Dan Negrea advertiu ainda que a delegação norte-americana continuará a abandonar reuniões sempre que a França mantiver o mesmo tom.
Apesar da oposição dos Estados Unidos, a Assembleia-Geral das Nações Unidas aprovou a renovação do mandato de Volker Türk por mais quatro anos. A proposta recebeu 144 votos a favor, 10 contra e 13 abstenções, demonstrando um amplo apoio internacional ao responsável austríaco.
Volker Türk, que lidera o Alto Comissariado desde 2022, tem sido uma voz crítica relativamente à guerra na Ucrânia, ao conflito em Gaza e a diversas violações de direitos humanos em diferentes regiões do mundo. As suas posições têm sido contestadas por países como os Estados Unidos, Israel e Rússia, que o acusam de parcialidade.
O episódio evidencia o agravamento das divergências entre Washington e alguns dos seus aliados europeus em matérias relacionadas com os direitos humanos e o papel das Nações Unidas. A Administração Trump tem reduzido o apoio a várias instituições multilaterais e questionado a imparcialidade de organismos internacionais.
O confronto entre dois dos principais aliados da NATO mostra que as divergências já não se limitam à política externa: chegaram também ao debate sobre quem deve liderar a defesa dos direitos humanos nas Nações Unidas.





