Por: Salvador Rodrigues
Temos hoje dois movimentos relevantes no nosso radar. Na sessão de 23 de Setembro, a UNITEL recuperou 1,08%, de Kz 27.700 para Kz 28.000. Continua, porém, cerca de 30,1% abaixo dos Kz 40.040 da OPV. O livro de ordens mostra compra a Kz 27.100 e venda a Kz 28.000, sinal de que a liquidez continua relativamente estreita.
A principal novidade, porém, está nas obrigações sustentáveis do BAI. Depois da admissão à negociação, o BAI 17% 2029 fechou a primeira referência secundária em 106% do valor nominal — aproximadamente Kz 10.600 por obrigação de Kz 10.000.
Isto altera significativamente a leitura dos 17%. Quem subscreveu ao par ganhou uma valorização potencial de 6% no preço, além do direito aos cupões. Mas quem comprar agora a 106% já não está a obter uma yield de 17%: numa aproximação financeira, mantendo o título até Setembro de 2029 e considerando os cupões semestrais, calculamos uma yield nominal próxima de 14,5% a.a. — cerca de 15,0% efectiva anual, antes de impostos, comissões e eventuais diferenças entre preço limpo e sujo “clean price e dirty price”.
Ou seja: o mercado comprimiu rapidamente o prémio do BAI.
No Tesouro, encontramos igualmente sinais importantes no secundário: uma OT com cupão de 17%, vencimento em Janeiro de 2030, está a 99,50% do nominal; outra OT de 17,25%, vencimento em Julho de 2031, está ao par — 100%. Não devemos transformar estes preços directamente em yields sem considerar juros corridos, datas exactas dos fluxos e custos da operação.
Nos depósitos, o BFA mantém 15,0% e 15,5% a 90 dias. Portanto, ao preço de 106%, o BAI deixou de oferecer claramente um prémio de rentabilidade sobre um depósito a 15,5%; oferece, em contrapartida, cupões fixos por três anos e possibilidade de negociação, enquanto o depósito de 90 dias enfrenta risco de reinvestimento quando vencer.
O sinal económico é relevante. O mercado secundário está a dizer que investidores aceitaram pagar 6% acima do nominal por um activo que nasceu a 17%. Isso aproxima a rentabilidade efectiva do BAI das novas taxas soberanas e dos depósitos. Se esta compressão continuar, teremos evidência adicional de queda do preço marginal do dinheiro em Angola.
Para a banca, surge uma tensão interessante: baixar demasiado as taxas dos depósitos pode deslocar poupança para obrigações e fundos; mantê-las perto de 15%–15,5% encarece a captação e dificulta uma descida rápida das taxas activas. Ao mesmo tempo, yields menores nas OT reduzem gradualmente a atractividade relativa de simplesmente financiar o Estado, podendo melhorar o incentivo económico para direccionar recursos ao crédito empresarial.
Radar de hoje: UNITEL Kz 28.000 ↑1,08% | BAI 2029 106% do nominal | cupão BAI 17% | yield BAI estimada ≈15,0% efectiva | depósitos especiais até 15,5% | Taxa BNA 14,75%.
O movimento mais importante do dia não é, portanto, o cupão de 17%. É o mercado ter pago 106 por aquilo que há dois dias valia 100.
Nota: Análise do mercado feito em 24 de Setembro de 2026. As opiniões expressas pelo articulista não engajam a revista.





