Cristina Lourenço invocou a teoria da eficiência do mercado e apelou à racionalidade dos investidores na sessão de admissão à negociação, realizada com os serviços da operadora ainda interrompidos. Amílcar Safeca reconheceu que as equipas estão a aprender a comunicar com o mercado e anunciou a passagem do reporte anual a trimestral e semestral
A BODIVA considerou correcta a comunicação da UNITEL sobre o ciberataque. A própria operadora admitiu que o incidente foi o primeiro teste ao seu dever de informação enquanto cotada.
A avaliação foi feita por Cristina Lourenço, presidente da Comissão Executiva da Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA), no discurso de abertura da sessão de admissão à negociação das acções da UNITEL, realizada a 29 de Julho em Luanda. Na mesma cerimónia, o presidente do Conselho de Administração da operadora, Aguinaldo Jaime, dedicou parte da intervenção ao incidente, enquadrando-a no cumprimento do dever de informação perante accionistas e público em geral.
Cristina Lourenço afirmou não poder excluir-se de fazer menção ao incidente da véspera e realçou o que descreveu como “a postura correcta da Unitel enquanto emitente”, uma conduta que, segundo disse, demonstra de forma inequívoca a responsabilidade da empresa perante o dever de informação. A responsável invocou em seguida a teoria da eficiência do mercado, segundo a qual os preços dos activos reflectem de forma rápida e correcta toda a informação disponível aos investidores, e apelou à racionalidade na tomada de decisões por parte de investidores retalhistas e institucionais. Lembrou que as acções são instrumentos de rendibilidade variável, que comportam riscos, e assumiu em nome da sociedade gestora o compromisso de reforçar a educação financeira do mercado.
O apelo foi feito com a rede da operadora ainda inoperacional. A UNITEL comunicou a 28 de Julho ter sido alvo de um ataque cibernético à sua infra-estrutura tecnológica, registado por volta das 02h20, com impacto nos serviços de voz, dados móveis e acesso à Internet em todo o território nacional. Na manhã de 29 de Julho, hora prevista para a sessão de admissão, os serviços mantinham-se condicionados.
No discurso de estreia, Aguinaldo Jaime descreveu o sucedido como um incidente de cibersegurança que afectou parte da infra-estrutura tecnológica da empresa, referiu a mobilização de equipas internas e de parceiros internacionais e indicou que a operadora colabora com as autoridades competentes na investigação em curso e na identificação dos autores do ataque. Sustentou ainda que as empresas líderes se distinguem não por nunca terem sido alvo de ataques, mas pela capacidade de resposta.
A apreciação mais directa sobre o significado do episódio para a UNITEL enquanto sociedade aberta foi feita, contudo, no painel que se seguiu ao toque do sino. Amílcar Safeca, presidente da Comissão Executiva da operadora, afirmou que o incidente da véspera “foi um primeiro teste” e reconheceu que as equipas da empresa estão em processo de aprendizagem, numa transição de uma situação em que não existia obrigação de comunicar ao mercado para outra em que essa comunicação passa a ser regular e sujeita a exigências de transparência. Acrescentou que essa mudança exige formação dos quadros, já iniciada, e acompanhamento permanente por parte da administração.
Safeca indicou que a UNITEL criou uma área de relação com o accionista e que passará a divulgar informação trimestral e semestral. Até agora, a operadora publicava apenas contas anuais, por força das regras aplicáveis ao sector empresarial público. O responsável referiu ainda que a empresa passa a estar sujeita a três reguladores em simultâneo: a Comissão do Mercado de Capitais (CMC), enquanto emitente cotado; o Instituto Angolano das Comunicações (INACOM), enquanto operadora de telecomunicações; e o Banco Nacional de Angola (BNA), por via da Unitel Money.
No mesmo painel, o presidente da Comissão Executiva da BFA Capital Markets, entidade que liderou a estruturação e a colocação da oferta, considerou que a operadora comunicou de forma correcta ao mercado, retirando espaço para incertezas, e classificou esse como um dos desafios superados da operação.
A apreciação do cumprimento dos deveres de informação por parte dos emitentes compete à CMC, enquanto autoridade de supervisão do mercado de valores mobiliários, e não à sociedade gestora do mercado regulamentado. O regulador esteve representado na cerimónia, mas não produziu declaração pública sobre o incidente.
A admissão à negociação decorreu dois dias após o apuramento dos resultados da oferta pública de venda de 15 por cento do capital da UNITEL, detido pelo Estado através do Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado (IGAPE). O preço final foi fixado em 40.040 kwanzas por acção, o máximo do intervalo previsto no prospecto, para um rácio de cobertura de 120,7 por cento. A operação gerou um encaixe de 300,3 mil milhões de kwanzas e criou 11.264 novos accionistas.
A UNITEL torna-se a sexta empresa admitida no Mercado de Bolsa de Acções e a primeira fora do sector financeiro. Passa igualmente a estar sujeita ao regime de divulgação aplicável às sociedades abertas, que inclui o dever de comunicar ao mercado factos susceptíveis de influenciar a cotação dos seus títulos.




