O antigo vice-presidente da República defende que Angola deve retirar proveito da rivalidade entre Washington, Pequim e Moscovo e converter os seus minerais em capacidade interna. No terreno onde essa disputa é hoje mais intensa, a fatia angolana do activo mais estratégico do país é minoritária.
Manuel Vicente foi vice-presidente da República entre 2012 e 2017 e, antes disso, presidiu ao conselho de administração da Sonangol entre 1999 e 2012. Numa entrevista conduzida pelo Asia Pacific Research Circle (APRC), organização de investigação liderada por estudantes e dedicada à análise de política sobre a região Ásia-Pacífico, publicada a 9 de Setembro de 2026 no YouTube, formulou aquilo que é, de longe, a sua tese mais crua sobre política externa.
«Devíamos tirar proveito disso. É bom quando os gigantes estão a lutar. Enquanto estão distraídos, se conseguirmos obter alguma coisa, será bom para nós.»
Vicente não apresenta isto como cinismo. Apresenta-o como aritmética de país pequeno. «Os Estados Unidos querem ser líderes, a China quer ser líder, os russos querem ser líderes, e vão continuar a lutar por isso para sempre. Como país pequeno ou médio, o melhor que se tem a fazer é ver quais são os meus principais interesses, como me posiciono dentro deste puzzle e como me preparo para desempenhar um papel dentro deste xadrez.»
E identifica o trunfo: «temos recursos minerais de que todos estes gigantes precisam. Devíamos tirar partido disto para aumentar as nossas capacidades internas.»
A frase é testável. Há hoje um lugar em Angola onde os gigantes estão efectivamente a lutar, com dinheiro em cima da mesa, e onde é possível medir quanto do valor fica no país.
Seis mil milhões de dólares numa linha férrea
O Corredor do Lobito é operado pelo consórcio Lobito Atlantic Railway, formado pela portuguesa Mota-Engil, pela Trafigura e pela belga Vecturis, responsável por cerca de 1.300 quilómetros do Caminho-de-Ferro de Benguela, entre o Porto do Lobito e o Luau, na fronteira com a República Democrática do Congo.
O volume de capital mobilizado é hoje considerável. Uma ficha informativa da Casa Branca de Dezembro de 2024 apontava para mais de 4 mil milhões de dólares comprometidos ou mobilizados do lado norte-americano e mais de 2 mil milhões de euros do lado europeu. Em Dezembro de 2025 concretizou-se um empréstimo de 553 milhões de dólares da International Development Finance Corporation (DFC) dos Estados Unidos, ao qual o Development Bank of Southern Africa acrescentou 200 milhões, num pacote de 753 milhões. O Banco Africano de Desenvolvimento aprovou depois 265 milhões de dólares para a ligação zambiana, com intenção declarada de mobilizar até 500 milhões nas fases seguintes.
A União Europeia, os Estados Unidos, a Itália, os três países de acolhimento, o BAD e a Africa Finance Corporation assinaram um memorando de entendimento que enquadra a cooperação. Os totais citados na cobertura internacional do projecto em 2026 ultrapassam os 6 mil milhões de dólares.
Do outro lado do tabuleiro, a resposta chinesa foi imediata. Pequim comprometeu cerca de 1,4 mil milhões de dólares na reabilitação da TAZARA, a linha que liga o Copperbelt zambiano ao porto de Dar es Salaam, no Índico, ao abrigo de uma concessão de trinta anos. O cobre e o cobalto da região passaram a ter duas saídas concorrentes: uma atlântica, financiada pelo Ocidente, e outra índica, financiada pela China.
É exactamente o cenário que Vicente descreve. Os gigantes estão a lutar. A pergunta é o que Angola está a retirar disso.
O que a briga não resolve
Há uma objecção séria à leitura optimista, e vem de dentro. Numa análise publicada pelo Centro de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social de África (CEDESA), o investigador Rui Verde argumenta que o Ocidente hesita enquanto a China observa, investe e consolida posições, beneficiando de infra-estrutura que outros financiam.
O argumento assenta num dado difícil de contornar: segundo a mesma análise, a China controla entre 70 e 80 por cento da produção industrial de cobre e cobalto da RDC, através de participações maioritárias em quinze das maiores minas congolesas. Ou seja, a carga que circulará na linha financiada por Washington e Bruxelas é, em larga medida, propriedade de empresas chinesas.
A hesitação também é documentada. Em Junho de 2025, o Jornal de Negócios noticiava que a decisão da DFC de injectar 500 milhões de dólares estava longe de ser certa, e que a União Europeia e a própria China surgiam como alternativas caso Washington continuasse a adiar. O financiamento acabou por sair em Dezembro, mas o episódio ilustra o risco de uma estratégia que depende da constância de terceiros.
E há um pormenor revelador da complexidade do tabuleiro: o Programa de Apoio ao Sector Ferroviário da União Europeia, dotado de 50 milhões de euros para a Zambia Railways, destina-se, segundo a Comissão Europeia, a ligar a futura linha do Lobito à TAZARA. O dinheiro europeu está, na prática, a costurar o corredor ocidental ao corredor chinês.
O TABULEIRO EM NÚMEROS
| > 6 mil M USD | total mobilizado para o Corredor do Lobito (2026) | cobertura internacional do projecto |
| 753 M USD | pacote de Dezembro de 2025: 553 M da DFC + 200 M do DBSA | DFC / DBSA |
| 265 M USD | aprovados para a ligação zambiana | Banco Africano de Desenvolvimento |
| 1,4 mil M USD | compromisso chinês na reabilitação da TAZARA | concessão a 30 anos |
| 70–80% | quota chinesa na produção industrial de cobre e cobalto da RDC | CEDESA |
| 84% | participação da Pensana Plc na Ozango Minerais, titular do Longonjo | Pensana / MIREMPET |
| 36 | minerais críticos identificados em Angola | MIREMPET |
Longonjo, o teste decisivo
Se o corredor é sobretudo trânsito de riqueza alheia, o projecto de Longonjo, no Huambo, é riqueza angolana. E é aí que a tese de Vicente enfrenta o seu exame mais duro.
Longonjo é um dos maiores depósitos africanos de neodímio e praseodímio, os elementos mais valiosos das terras raras leves, indispensáveis a ímanes para veículos eléctricos, turbinas eólicas e indústria de defesa. As reservas apontadas são de 21,54 milhões de toneladas com teor de 3,04 por cento em óxidos totais de terras raras, incluindo 139.457 toneladas de neodímio-praseodímio. A primeira produção está prevista para 2027.
O projecto é desenvolvido pela Ozango Minerais, detida em 84 por cento pela Pensana Plc, cotada em Londres. Os restantes 16 por cento estão repartidos entre o Fundo Soberano de Angola e outros parceiros nacionais. O Estado angolano é, portanto, accionista minoritário do activo mineral mais estratégico do país.
O financiamento ilustra bem o alinhamento geopolítico. Em Março de 2026, a Cascade Natural Resources elevou o seu investimento estratégico para 165 milhões de dólares, desbloqueando um pacote de dívida de cerca de 160 milhões do sul-africano ABSA Bank, garantido pelo US EXIM Bank. E o carbonato misto de terras raras produzido em Longonjo está contratado para a fábrica de ímanes da eVAC Magnetics, da Vacuumschmelze, na Carolina do Sul — precisamente para contornar o processamento chinês.
A cadeia é clara: minério angolano, capital britânico e australiano, garantia norte-americana, escoamento por uma linha férrea financiada pelo Ocidente, transformação nos Estados Unidos. Angola entra com o subsolo, com a energia da barragem de Laúca e com 273 quilómetros de caminho-de-ferro até ao Lobito.
Onde a doutrina de Vicente encalha
Vicente não diz apenas que Angola deve aproveitar a rivalidade. Diz que deve aproveitá-la «para aumentar as nossas capacidades internas». É a segunda metade da frase que fica por cumprir.
Estudos internacionais sobre cadeias de valor mineiras indicam que a extracção representa menos de um quinto do valor total gerado. O resto está no processamento, na separação química e no fabrico do produto final — etapas que, no caso de Longonjo, ocorrem fora do país.
Há sinais de correcção. O ministro dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, Diamantino Azevedo, afirmou que Angola tem 36 minerais críticos identificados e que o esforço inicial se concentra em lítio, minério de ferro, níquel, chumbo, cobalto, cobre e terras raras, «visando toda a cadeia de valor». A Sonangol anunciou a 25 de Fevereiro de 2026 sete concessões de minerais críticos, entre as quais três de quartzo, uma de lítio e três de urânio. A mina de cobre de Mavoio-Tetelo, no Uíge, realizou as primeiras exportações significativas de concentrados em Janeiro de 2026. E em Fevereiro de 2026, os Estados Unidos avançaram com um acordo-quadro sobre minerais críticos que colocou Angola no radar estratégico de Washington.
Mas concessões e memorandos não são capacidade instalada. A diferença entre aproveitar a briga dos gigantes e ser o terreno onde ela se trava mede-se numa coisa só: que percentagem do valor fica no país.
O xadrez de Vicente, jogado a sério
Vale a pena não descartar a doutrina. Angola fez, durante duas décadas, exactamente o que Vicente descreve: financiou-se em Pequim quando o Ocidente impôs condições, e financia-se hoje em Washington e Bruxelas quando ambos disputam o acesso aos minerais críticos. Isso é alternância deliberada, não deriva.
O que a entrevista não aborda é o passo seguinte. Num tabuleiro em que a China detém a maioria das minas congolesas, o Ocidente detém os carris e uma cotada de Londres detém 84 por cento das terras raras do Huambo, a posição angolana continua a ser sobretudo geográfica. Ser corredor é uma vantagem real, com receita de trânsito, emprego e abertura do Planalto Central. Mas é uma vantagem que se aluga, não uma capacidade que se acumula.
A frase de Vicente resiste. Só que, no xadrez que ele próprio invoca, quem controla o centro do tabuleiro não é quem o atravessa.





