O antigo vice-presidente da República propõe inverter a ordem da política económica externa angolana: aprofundar o comércio dentro do continente antes de negociar com as grandes potências. Os dados do Instituto Nacional de Estatística e da UNCTAD mostram que Angola é dos países que menos comercia com África — e que, em 2025, voltou a exigir visto a um país africano.
Manuel Vicente foi vice-presidente da República de Angola entre 2012 e 2017 e, antes disso, presidiu ao conselho de administração da Sonangol durante treze anos, de 1999 a 2012. É, portanto, alguém que passou duas décadas a negociar em nome do país — primeiro petróleo, depois política externa.
Numa entrevista conduzida pelo Asia Pacific Research Circle (APRC), organização de investigação liderada por estudantes e dedicada à análise de política sobre a região Ásia-Pacífico, publicada a 9 de Setembro de 2026 no YouTube, Vicente foi questionado sobre o papel de Angola em África. A resposta inverte a ordem habitual do discurso oficial. Não fala de parcerias com Pequim, Washington ou Bruxelas. Fala do que está imediatamente do outro lado da fronteira.
«Antes de nos aproximarmos e pensarmos em aumentar a cooperação com o Ocidente e com todos estes gigantes, devíamos aumentar o nosso comércio interno em África», afirma. E nomeia os vizinhos: «devemos levantar todas estas barreiras entre Angola e a Namíbia, entre Angola e o Congo. Comercialmente, devemos pensar como continente. É o primeiro passo.»
É uma proposta de sequenciamento, não de retórica pan-africana. Primeiro o mercado regional, depois o mundo. E é precisamente por ser uma sequência verificável que merece ser confrontada com números.
O continente que não comercia consigo
O diagnóstico geral dá razão a Vicente. Segundo dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), em 2024 apenas 16,9 por cento das exportações africanas de mercadorias tiveram como destino outro país africano. Na Europa, a percentagem equivalente foi de 65,6 por cento; na Ásia, 58,4; nas Américas, 54. África tem a segunda taxa mais baixa do mundo, à frente apenas da Oceânia.
A mesma série da UNCTAD mostra que o indicador não está a melhorar de forma consistente. Subiu de 12,1 por cento em 1995 para os actuais 16,9, mas continua abaixo do pico de 18,8 por cento registado em 2015. Em três décadas, o continente nunca ultrapassou a fasquia dos 20 por cento.
Em valor absoluto, o relatório de comércio do Banco Africano de Exportação e Importação (Afreximbank) calcula que o comércio intra-africano tenha atingido 213,8 mil milhões de dólares em 2025, um crescimento de 5,47 por cento face aos 202,7 mil milhões de 2024. É uma progressão real, mas concentrada: segundo o mesmo relatório, a África do Sul respondeu sozinha por 19,2 por cento de todo o comércio dentro do continente.
Angola é o caso extremo
Aqui a tese de Vicente encontra o seu problema mais incómodo, e ele é doméstico.
Nas contas da UNCTAD, Angola figura entre os dez países africanos com a menor quota de exportações destinadas ao próprio continente: 3,9 por cento. Estão abaixo apenas o Chade, a Guiné, a Eritreia e a Guiné Equatorial. A Namíbia, o vizinho que Vicente refere pelo nome, exporta 52,9 por cento para África.
Os números nacionais confirmam o retrato. Segundo as Estatísticas de Comércio Externo do Instituto Nacional de Estatística (INE) relativas ao quarto trimestre de 2025, os principais destinos das exportações angolanas foram a Ásia, com 76,63 por cento, a Europa, com 15,02, e a América do Norte, com 2,95. África não entra sequer no pódio. Do lado das importações, o continente africano representou 7,30 por cento do valor total.
Ao longo de 2025, e ainda segundo o INE, Angola vendeu ao conjunto do continente africano 1.494 milhões de dólares em mercadorias. Desse total, cerca de 604 milhões foram para a África do Sul, 334 milhões para a República Democrática do Congo e 253 milhões para o Togo. Somados, os três absorvem quase 80 por cento de tudo o que Angola coloca em África.
E o que Angola vende continua a ser essencialmente uma coisa só. O Anuário de Estatísticas de Comércio Externo do INE relativo a 2024 indica que os combustíveis minerais representaram 94,2 por cento das exportações totais do país, e as pedras e metais preciosos outros 4,2.
O QUE OS NÚMEROS DIZEM
| 16,9% | das exportações africanas ficam em África (2024). Europa: 65,6%. Ásia: 58,4%. | UNCTAD |
| 3,9% | quota das exportações angolanas destinada a países africanos — das mais baixas do continente. | UNCTAD |
| 76,63% | das exportações angolanas foram para a Ásia no 4.º trimestre de 2025. | INE |
| 1.494 M USD | total das vendas angolanas a África em 2025. | INE |
| 94,2% | peso dos combustíveis minerais nas exportações angolanas (2024). | INE |
| 213,8 mil M USD | comércio intra-africano em 2025, mais 5,47% que em 2024. | Afreximbank |
| 28,2% | dos trajectos intra-africanos já dispensam visto — o valor mais alto desde 2016. | BAD / União Africana |
As quatro barreiras que Vicente nomeia
Questionado sobre o que trava a integração, Vicente é específico: «o problema da imigração, das fronteiras, dos vistos, da tributação. Temos de atacar e resolver estes pontos. Uma vez resolvidos, podemos ter condições para o comércio livre entre nós.»
A lista é correcta. A execução angolana é que é desigual.
Vistos. O Índice de Abertura de Vistos em África, publicado anualmente pelo Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) e pela Comissão da União Africana, vai na décima edição e mostra progresso continental: na edição de 2025, os cenários de viagem sem visto passaram de 803 em 2024 para 814, ou 28,2 por cento do total — o valor mais alto desde que o índice existe. Sessenta e um por cento dos destinos africanos são hoje acessíveis a africanos sem visto ou com visto à chegada.
Mas o índice combinado caiu para 0,445, abaixo dos três anos anteriores e ao nível de 2021. Segundo o mesmo relatório, vinte países alteraram a política de vistos em 2025: onze melhoraram a pontuação, nove pioraram. E Angola está entre os cinco países que voltaram a exigir visto prévio a cidadãos de um país africano que antes entravam sem ele. É um recuo, e ocorre no mesmo ano em que Luanda deu o seu maior passo de integração comercial.
O contraste com o período anterior é notório. Em finais de 2023, através do Decreto 189/23, Angola isentou de visto turístico os cidadãos de 98 países, nove deles africanos, e simplificou os procedimentos consulares. O BAD registou então uma subida de dez lugares no índice, do 41.º para o 31.º posto. Esse impulso não teve continuidade.
Fronteiras e alfândegas. Um relatório do Comité de Gestão Coordenada de Fronteiras da República de Angola indica que o país dispõe de 99 pontos de controlo aduaneiro em todo o território, entre fronteiras aéreas, terrestres, marítimas, fluviais e lacustres. Mas o fluxo é esmagadoramente marítimo e aéreo, e concentrado: segundo o mesmo documento, a delegação aduaneira do Porto de Luanda processa 77 por cento das importações, o aeroporto de Luanda 11 e o Porto do Lobito 5. Três pontos absorvem 94 por cento. As fronteiras terrestres com a Namíbia e com a RDC — exactamente as que Vicente invoca — são residuais no comércio formal.
A tese das infra-estruturas, e o seu limite
Sobre a rede rodoviária transafricana, Vicente é categórico: «a experiência mostra-nos que, se construírem os caminhos-de-ferro, se construírem as estradas e garantirem a circulação das pessoas, todo o resto acontece. Criem a infra-estrutura certa e as condições para o empreendedorismo, e as pessoas farão o resto.»
Angola integra três corredores do Plano Director de Desenvolvimento de Infra-estruturas Regionais da SADC: o Corredor Norte-Sul, que liga a Namíbia à RDC atravessando o país de Santa Clara a Maquela do Zombo; o corredor Luanda–Soyo–Cabinda; e o Corredor do Lobito, que liga o litoral à RDC e à Zâmbia. Dos troços angolanos desses corredores, 4.628 quilómetros estão pavimentados, o equivalente a 74 por cento da extensão total, segundo o Comité de Gestão Coordenada de Fronteiras.
O limite da tese está no que circula. Uma estrada até à fronteira zambiana serve para escoar cobre e cobalto congoleses e zambianos para o Atlântico — que é, precisamente, o que os financiadores ocidentais do Corredor do Lobito pretendem. Isso é comércio através de Angola, não comércio de Angola. Enquanto o país exportar 94 por cento em petróleo bruto, a infra-estrutura pode melhorar sem que a quota africana das exportações angolanas se mova.
É uma circularidade que o próprio Vicente identifica noutro ponto da entrevista, ao defender que Angola deve deixar de exportar matéria-prima e passar a transformá-la internamente. Sem essa transformação, “África primeiro” não tem o que vender a África.
O passo que Angola deu
Houve, contudo, um avanço concreto e recente. A 5 de Junho de 2025, na 34.ª Reunião do Comité de Ministros do Comércio da SADC, realizada no Zimbabué, Angola foi formalmente admitida na Zona de Comércio Livre da organização, depois de aprovada a sua proposta tarifária. O ministro da Indústria e Comércio, Rui Miguéns, apresentou a adesão como acesso privilegiado a um mercado de mais de 300 milhões de consumidores.
No plano continental, o quadro está montado. A Zona de Comércio Livre Continental Africana entrou em vigor a 30 de Maio de 2019 e, de acordo com o Trade Law Centre for Southern Africa (Tralac), em Dezembro de 2025 já 49 países tinham assinado e depositado os instrumentos de ratificação junto da Comissão da União Africana. A Eritreia continua a ser o único Estado que não assinou o acordo. Um relatório do Conselho Executivo da União Africana indica que o mecanismo em linha de barreiras não tarifárias registou trinta queixas até Junho de 2025, das quais 47 por cento foram resolvidas.
Por que a ordem importa
A analogia que Vicente usa é a europeia: «hoje têm a União Europeia. Há cem anos não pensavam nisso. É a mesma coisa — podem transpor isto da União Europeia para África.»
A comparação é generosa consigo própria. A construção europeia começou com seis países e dois produtos, carvão e aço, e levou quatro décadas até à livre circulação plena. A ZCLCA começa com 54 Estados e a totalidade das linhas pautais. Mas o essencial da analogia resiste: a Europa integrou-se primeiro entre vizinhos e só depois negociou em bloco com o resto do mundo. Foi essa sequência que lhe deu poder negocial.
E é aí que a proposta de Vicente deixa de ser um lugar-comum pan-africano e passa a ser um argumento económico. Um país que vende 76 por cento para a Ásia negoceia sozinho. Um bloco regional integrado negoceia com escala. A questão que a entrevista não responde — e que o desempenho angolano em 2025 torna urgente — é se Luanda está disposta a pagar o custo político dessa sequência, começando por não voltar a fechar fronteiras que acabou de abrir.





