A empresa diz ter identificado operações que utilizaram os seus modelos Claude para apoiar desenvolvimento de armas, investigação biológica, ciberataques e vigilância Entre os casos estão uma operação atribuída a actores ligados à Rússia contra alvos ucranianos e campanhas chinesas para extrair capacidades dos modelos.
A Anthropic revelou que os seus modelos de inteligência artificial Claude foram utilizados, sem autorização, em operações que abrangem desenvolvimento de armas, investigação com potencial para armas biológicas, ciberespionagem, vigilância e fraude. As informações constam de um relatório de inteligência de ameaças divulgado pela empresa e analisado pela Reuters.
Segundo a Anthropic, operadores na China, Rússia e Iémen utilizaram Claude para desenvolver software relacionado com armas convencionais, incluindo mísseis, drones armados, bombas e outros sistemas de munições. A empresa afirma ainda que os modelos foram utilizados em actividades de inteligência e aquisição relacionadas com programas de armamento.
IA entra no ciclo dos ciberataques
Um dos casos descritos envolve uma operação que a Anthropic considera consistente com as técnicas do grupo russo Midnight Blizzard, anteriormente associado pelo Governo norte-americano ao serviço de inteligência externo da Rússia, SVR.
De acordo com a empresa, os operadores utilizaram Claude em praticamente todas as fases de uma campanha contra entidades governamentais, militares e diplomáticas ucranianas. As actividades incluíam phishing, comprometimento de redes Wi-Fi de hotéis e tomada de controlo de contas WhatsApp.
A Anthropic afirma que a inteligência artificial também foi utilizada para desenvolver mecanismos capazes de detectar quando o malware era identificado pelos sistemas de segurança e modificar automaticamente o código numa tentativa de evitar a detecção. A empresa descreve este tipo de utilização como uma evolução em relação ao uso convencional de chatbots, com estruturas compostas por vários agentes de IA a executar tarefas de forma coordenada.
Tentativas de uso em investigação biológica
O relatório identifica cinco casos em que investigadores tentaram utilizar Claude de formas que, segundo a Anthropic, poderiam apoiar o desenvolvimento de armas biológicas.
Entre os exemplos estão tentativas de obter assistência para preparar uma candidatura a financiamento relacionada com experiências de adaptação do vírus chikungunya e trabalhos envolvendo gripe aviária altamente patogénica. A empresa refere ainda investigações relacionadas com ortopoxvírus, venenos e toxinas.
A Anthropic diz ter bloqueado as contas envolvidas e incorporado as conclusões nos seus mecanismos de segurança e sistemas de detecção de ameaças. A empresa não revelou as instituições ou os países envolvidos nos casos de investigação biológica nem os agentes e técnicas específicos utilizados.
China acusada de tentar extrair capacidades de Claude
Outra frente identificada pela Anthropic envolve empresas chinesas de inteligência artificial. A companhia afirma ter interrompido operações associadas a sete laboratórios chineses, incluindo Alibaba, Moonshot, DeepSeek e Xiaomi, que teriam tentado extrair capacidades dos modelos Claude através de grandes volumes de interacções.
Num dos casos, a Anthropic atribui à Alibaba mais de 151 milhões de interacções entre Maio e Julho de 2026, provenientes de mais de 3.500 contas que a empresa considerou fraudulentas. O objectivo alegado seria utilizar as respostas de Claude para melhorar os modelos Qwen da Alibaba através de um processo conhecido como distillation, no qual os resultados de modelos mais avançados são utilizados para treinar outros sistemas.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros da China afirmou que não tinha conhecimento do relatório e rejeitou acusações que considerou distorções ou ataques ao país. As empresas mencionadas pela Anthropic não responderam imediatamente aos pedidos de comentário da Reuters.
Vigilância e influência política
A Anthropic também afirma ter detectado uma operação em que Claude era utilizado para produzir relatórios semelhantes a documentos governamentais destinados a monitorizar uigures, figuras políticas de Taiwan, activistas laborais e estudantis e meios de comunicação estrangeiros.
A empresa diz ter identificado a operação ainda numa fase inicial e não ter encontrado provas de que as fases posteriores da cadeia de vigilância tenham sido utilizadas contra alvos reais antes de a conta ser bloqueada.
Noutra operação, um actor francófono teria utilizado Claude para atingir 42 partidos políticos, meios de comunicação, think tanks e fornecedores de software utilizados por organizações políticas europeias. Segundo a Anthropic, a operação incluía roubo de credenciais e a criação de uma plataforma destinada a recolher e expor informações pessoais.
A empresa identificou ainda uma operação sediada na China que criou mais de 20 aplicações de encontros com mais de 4.700 personagens geradas por inteligência artificial. Essas personagens terão interagido com pelo menos 25.000 utilizadores, combinando agentes automatizados com trabalhadores humanos para convencer as vítimas de que os perfis eram reais.
Os casos reforçam uma mudança na natureza do risco associado aos modelos avançados: a preocupação já não está apenas no conteúdo que um utilizador consegue obter de um chatbot, mas na capacidade de agentes de IA executarem sequências de tarefas, coordenarem operações e interagirem com sistemas externos. A Anthropic afirma que continuará a testar modelos para detectar capacidades perigosas, enquanto o sector enfrenta uma pressão crescente para adoptar mecanismos de segurança e supervisão mais rigorosos.





