Quem comprar acções na OPV entra no capital de um banco que cresceu 34% em 2025, tem rácios de solvabilidade e de liquidez bem acima dos mínimos e o menor incumprimento do sector. No primeiro semestre de 2026, o lucro atingiu 84,3 mil milhões de kwanzas, 56% do registado em todo o ano anterior. O prospecto mostra também a forte ligação do balanço ao risco soberano angolano e um aumento do crédito classificado com risco agravado.
A Oferta Pública de Venda (OPV) de 34% do Standard Bank de Angola (SBA) decorre até 25 de Setembro. O prospecto registado na Comissão do Mercado de Capitais (CMC) dedica dezenas de páginas às contas de 2023 a 2025, auditadas pela KPMG (2023) e pela EY (2024 e 2025), com opinião sem reservas sobre as contas individuais dos três exercícios. O banco publicou entretanto o balancete individual do segundo trimestre de 2026, elaborado segundo o modelo do BNA e não auditado.
A OUTSIDE reuniu os indicadores das duas fontes que ajudam a perceber onde o banco aplica os recursos e com que riscos.
Um balanço que cresceu mais depressa do que o crédito
No final de 2025, o activo consolidado do SBA somava 2,28 biliões de kwanzas, mais 34% do que um ano antes. Os recursos de clientes, sobretudo depósitos, cresceram 26%, para 1,64 biliões.
O crédito líquido a clientes subiu 15%, para 666,4 mil milhões de kwanzas. Como o balanço cresceu mais depressa, o peso do crédito no activo desceu de 34% para 29%. O rácio de transformação, que compara o crédito com os recursos de clientes, foi de 40,7% em 2025, segundo o estudo “Banca em Análise 2026” da Deloitte, citado no prospecto.
Na apresentação aos jornalistas, o administrador executivo Eduardo Clemente situou o banco entre o quinto e o sexto maior concessor de crédito do mercado e destacou a evolução “muito positiva” da carteira. O prospecto, com base no mesmo estudo da Deloitte, coloca o SBA em 5.º lugar no crédito líquido a clientes, com quota de cerca de 9%. Refere que o banco desceu uma posição face a 2024 nesse indicador e melhorou a posição nos depósitos, onde é 4.º, com quota de cerca de 8%.
A carteira é sobretudo empresarial. Das operações de crédito em cumprimento, 94% (644,6 mil milhões) são empréstimos a empresas e 6% (41,4 mil milhões) a particulares. O crédito a particulares foi o que mais cresceu em 2025, 62%, puxado sobretudo pelo crédito ao consumo e à habitação. Os juros de crédito a clientes aumentaram 64% no ano, segundo o prospecto.
O peso da dívida pública
A carteira de títulos representa 33% do activo. Segundo o prospecto, 63% dessa carteira são Bilhetes do Tesouro e 30% são credit-linked notes, instrumentos cujo reembolso depende da capacidade do Estado angolano de honrar a sua dívida. Em conjunto, 93% da carteira de títulos está ligada ao risco soberano angolano. Em 2024, estas duas classes pesavam 23%, e o banco detinha 174 mil milhões de kwanzas em títulos com acordo de revenda, que deixaram de integrar a carteira em 2025.
O próprio documento qualifica esta evolução como reflexo das “opções de investimento disponíveis no país”, “demonstrando a limitada diversificação e elevada exposição ao risco soberano da República de Angola”.
Na repartição da exposição ao risco de crédito por sectores, a categoria “Administração central” representa 72% do total em 2025. Em 2024 representava 67% e em 2023 representava 60%. O prospecto não detalha a composição desta categoria.
Os factores de risco explicam a relevância do tema: “uma parte significativa dos seus activos são títulos de dívida pública angolana” e “a percepção da solvabilidade do Estado influencia o risco de crédito dos bancos locais, incluindo o Emitente”. O prospecto admite que uma descida da notação da dívida soberana poderá afectar o banco.
A questão não é exclusiva do SBA. O prospecto recorda que o FMI, na avaliação a Angola concluída em Maio de 2026, pediu às autoridades que enderecem as vulnerabilidades associadas ao “nexo soberano-bancário” em todo o sistema.
Uma parte das aplicações junto do Estado é obrigatória. No fim de 2025, o SBA tinha 383,2 mil milhões de kwanzas em disponibilidades de natureza obrigatória no BNA, as chamadas reservas obrigatórias.
Incumprimento mínimo, vigilância a subir
Nos indicadores clássicos de qualidade do crédito, o SBA apresenta números muito baixos:
- Crédito vencido: 1,1 mil milhões de kwanzas no fim de 2025, 0,16% da carteira bruta.
- Imparidades acumuladas: 20,7 mil milhões, cerca de 18 vezes o crédito vencido.
- Crédito em incumprimento (estágio 3 da norma IFRS 9): 1,3 mil milhões, 0,19% da carteira, abaixo dos 0,56% de 2024 e dos 0,73% de 2023.
Segundo a classificação da norma IFRS 9, o crédito em incumprimento representava 0,19% da carteira bruta e cerca de 0,2% da carteira líquida, valor referido por Eduardo Clemente no encontro com a imprensa. Os dois indicadores não se confundem: o crédito vencido conta apenas as prestações em atraso, enquanto o incumprimento abrange a totalidade das exposições classificadas nessa categoria.
Segundo o estudo da Deloitte citado no prospecto, o SBA teve em 2025 o menor rácio de incumprimento do sector.
A mesma norma obriga os bancos a classificar num estágio intermédio, o estágio 2, os créditos cujo risco aumentou significativamente desde a concessão, mesmo que continuem a ser pagos. Nesses casos, o banco tem de provisionar a perda esperada para toda a vida do empréstimo.
No SBA, o crédito em estágio 2 passou de 86,6 mil milhões de kwanzas em 2024 para 143,3 mil milhões em 2025, um aumento de 66%. O seu peso na carteira bruta subiu de 14,6% para 20,9%. Em 2023 era de 16,3%. Dentro deste grupo, o crédito a empresas sem garantia associada quase triplicou, de 22,5 para 67,1 mil milhões.
O reforço reflectiu-se nas contas. As imparidades para crédito registadas no ano passaram de 3,1 mil milhões de kwanzas em 2024 para 9,4 mil milhões em 2025. Em relação à carteira média, o custo do risco ficou em cerca de 1,5% (cálculo da OUTSIDE). As imparidades para outros activos subiram de 0,1 para 3,9 mil milhões.
Por sectores, a indústria extractiva concentra 29% das imparidades de 2025 (6,8 mil milhões de kwanzas), embora represente apenas 1% da exposição total.
O prospecto classifica a concentração como risco material, “face ao elevado nível de concentração da carteira de crédito a exposições individuais dos 20 maiores devedores”. O documento não quantifica o peso desses devedores.
Na apresentação, Eduardo Clemente associou o desempenho da carteira à qualidade da análise e ao acompanhamento das operações de crédito. Acrescentou que o banco está disponível para “apoiar os clientes quando necessário”.
O que mostra o primeiro semestre de 2026
O balancete do segundo trimestre compara a posição a 30 de Junho com o saldo do final do trimestre anterior.
Resultados. O resultado antes de impostos acumulado no semestre foi de 105,5 mil milhões de kwanzas: 48,4 mil milhões no primeiro trimestre e 57,1 mil milhões no segundo. Deduzidos 21,1 mil milhões de encargos com impostos, o resultado líquido do semestre chegou a 84,3 mil milhões, dos quais 43,0 mil milhões no segundo trimestre. O valor equivale a 56% do lucro individual de todo o exercício de 2025.
Balanço. No segundo trimestre, o activo manteve-se praticamente estável, em 2,36 biliões de kwanzas (+0,7%), mas a composição mudou:
- o crédito a clientes subiu 7,0%, para 696,1 mil milhões;
- os recursos de clientes aumentaram 6,0%, para 1,77 biliões;
- a rubrica de títulos e valores mobiliários desceu 14,4%, para 704,9 mil milhões, e o seu peso no activo passou de 35% para 30%;
- as aplicações em bancos centrais e noutras instituições de crédito mais do que duplicaram, de 84,9 para 192,8 mil milhões.
Face às contas de 31 de Dezembro de 2025, e com a ressalva de que os dois documentos seguem formatos diferentes, o crédito a clientes cresceu cerca de 4,5% no semestre e os recursos de clientes cerca de 8,4%. A relação entre crédito e recursos de clientes ficou em 39,3% no fim de Junho (cálculo da OUTSIDE).
Capitais. Os fundos próprios, excluindo o resultado do ano, desceram de 374,9 para 276,8 mil milhões de kwanzas no segundo trimestre. Os resultados transitados caíram 97,2 mil milhões, valor que coincide com o dividendo relativo ao exercício de 2025 inscrito no prospecto. Somando o resultado do semestre, os capitais do banco totalizavam 361,1 mil milhões no fim de Junho.
O capital social ainda figura com 21 mil milhões de kwanzas. O aumento para 70 mil milhões, por incorporação de reservas, só foi registado a 18 de Agosto, segundo o prospecto.
Capital e liquidez acima dos mínimos
O rácio de solvabilidade foi de 29% em 2023, 30% em 2024 e 29% em 2025, segundo o prospecto. Os capitais próprios consolidados atingiram 371 mil milhões de kwanzas no fim de 2025. O banco está sujeito a requisitos adicionais de capital por ser considerado de importância sistémica pelo BNA.
O rácio de liquidez reportado ao BNA foi de 192% em Dezembro de 2025, face a 184% em 2024 e 248% em 2023. O mínimo regulamentar é de 100% considerando os fluxos em todas as moedas, e de 150% considerando apenas os fluxos em moeda estrangeira.
No capítulo das perspectivas, o Conselho de Administração prevê manter “níveis de capitalização e liquidez compatíveis com a estratégia de crescimento”. Espera também “níveis de rentabilidade robustos, ainda que sujeitos à normalização gradual do enquadramento macroeconómico”.





