A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução que pede o fim das sanções económicas norte-americanas contra Cuba, mas o número de países favoráveis caiu significativamente face ao ano anterior. A votação reflecte uma intensificação da pressão diplomática de Washington sobre Havana e um agravamento das tensões entre os dois governos, numa altura em que a ilha enfrenta uma profunda crise económica e energética.
ONU volta a pedir o fim do embargo norte-americano
A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, na quarta-feira, 28 de Outubro, uma resolução que apela ao fim do embargo económico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos a Cuba há mais de seis décadas. Apesar da aprovação expressiva, a votação deste ano revelou uma alteração significativa nas posições diplomáticas de vários países, depois de Washington ter intensificado os esforços para conquistar apoio contra a iniciativa.
A resolução recebeu 130 votos favoráveis, enquanto 17 países votaram contra e 25 abstiveram-se. No ano passado, a proposta tinha obtido 165 votos a favor, sete contra e 12 abstenções. A diferença demonstra uma redução considerável do apoio internacional à posição cubana, embora a maioria dos Estados-membros continue a defender o fim das restrições norte-americanas.
Os Estados Unidos e Israel estiveram entre os países que votaram contra o documento. A mudança de posição de vários governos ocidentais, incluindo a Alemanha e a Itália, que se abstiveram depois de terem apoiado anteriormente a resolução, constituiu um dos aspectos mais relevantes do escrutínio.
A votação não altera automaticamente a política comercial de Washington em relação a Havana. As resoluções da Assembleia Geral têm peso político e diplomático, mas não são juridicamente vinculativas. O levantamento do embargo depende de decisões das autoridades norte-americanas, incluindo o Congresso dos Estados Unidos.
Washington intensifica a campanha diplomática
A redução do número de votos favoráveis surge depois de uma campanha diplomática norte-americana destinada a convencer outros governos a rejeitar a resolução ou a abster-se. A administração do Presidente Donald Trump tem procurado aumentar a pressão internacional sobre o Governo cubano, defendendo que o embargo não deve ser tratado isoladamente das questões relacionadas com a governação, os direitos políticos e a situação económica da ilha.
O embaixador dos Estados Unidos junto das Nações Unidas, Mike Waltz, manifestou satisfação com a mudança de posição de vários países, destacando economias como a Alemanha e a Coreia do Sul. O diplomata afirmou que os resultados demonstram uma alteração nas posições internacionais e antecipou que Washington continuará a procurar ampliar esse movimento.
A estratégia representa uma mudança relevante no ambiente diplomático em torno da questão cubana. Durante décadas, as votações anuais na Assembleia Geral foram marcadas por uma oposição internacional muito ampla ao embargo, incluindo entre países que mantêm relações próximas com Washington.
Este ano, a alteração do resultado sugere que os esforços norte-americanos conseguiram influenciar o comportamento de parte dos Estados-membros. Contudo, a votação não representa uma aprovação internacional generalizada do embargo: 130 países continuaram a apoiar a resolução que pede o seu fim.
A diferença entre os votos contra e as abstenções também merece atenção. Enquanto alguns governos rejeitaram expressamente a resolução, outros optaram por não apoiar nenhum dos lados, uma posição que pode reflectir reservas políticas, considerações diplomáticas ou a vontade de evitar um confronto directo com Washington.
Alemanha e Itália afastam-se do apoio anterior
A decisão de países como a Alemanha e a Itália de se absterem assinala uma alteração no padrão de votação de aliados ocidentais que, durante muitos anos, apoiaram a resolução contra o embargo.
A mudança é particularmente significativa porque estes países mantêm relações económicas e diplomáticas importantes com os Estados Unidos, ao mesmo tempo que defendem, em diferentes fóruns internacionais, princípios de comércio aberto e cooperação multilateral.
A abstenção não equivale necessariamente a um apoio às sanções norte-americanas. Significa que os governos optaram por não votar a favor nem contra o texto apresentado à Assembleia Geral. A interpretação política dessa decisão dependerá também das posições oficiais que cada país venha a apresentar.
Para Washington, porém, a mudança representa um resultado diplomático útil. A administração norte-americana pode apresentar a diminuição dos votos favoráveis como sinal de que a sua argumentação está a encontrar maior receptividade junto de alguns parceiros internacionais.
Para Havana, a perda de votos representa um revés diplomático, mas não elimina o apoio maioritário à resolução. A manutenção de 130 votos favoráveis demonstra que a contestação internacional ao embargo continua a ser significativa.
Confronto entre diplomatas agrava tensões na ONU
A votação ocorreu num ambiente de crescente hostilidade entre representantes norte-americanos e cubanos. Nos dias que antecederam a decisão, as divergências entre as duas delegações tornaram-se públicas, com confrontos verbais durante debates e outros encontros nas instalações das Nações Unidas.
Na terça-feira, as tensões chegaram ao plenário da Assembleia Geral, onde representantes dos dois países trocaram acusações durante a discussão sobre o embargo. Os episódios incluíram gritos e empurrões, afastando-se do comportamento diplomático habitualmente esperado naquele espaço.
Na quarta-feira, Mike Waltz acusou um diplomata cubano de agredir um representante norte-americano durante os incidentes do dia anterior. O embaixador anunciou que Richard Tur de la Concepcion, primeiro-secretário da missão cubana junto das Nações Unidas, seria expulso dos Estados Unidos e enviado de regresso a Havana.
A missão cubana não respondeu imediatamente aos pedidos de esclarecimento sobre a expulsão. A acusação apresentada pelo diplomata norte-americano não deve, por si só, ser interpretada como uma conclusão independente sobre as circunstâncias do incidente.
O confronto evidencia a deterioração das relações entre os dois países e a transformação de uma votação anual numa demonstração pública das divergências políticas entre Washington e Havana.
Mais de 60 anos de restrições económicas
O embargo norte-americano contra Cuba começou em 1960, depois da revolução liderada por Fidel Castro e da nacionalização de propriedades pertencentes a cidadãos e empresas dos Estados Unidos. Desde então, as restrições foram sendo ampliadas e consolidadas através de diferentes medidas legais, incluindo legislação que limita a normalização das relações comerciais e financeiras entre os dois países.
Washington tem defendido as sanções como instrumento de pressão sobre o Governo cubano, associando a sua política à situação política e aos direitos humanos na ilha. Havana, por sua vez, considera que as restrições constituem uma violação da sua soberania e responsabiliza-as por uma parte importante das dificuldades económicas enfrentadas pela população.
O embargo não impede todas as transacções entre os dois países, uma vez que existem excepções e mecanismos autorizados para determinadas operações. Ainda assim, as restrições financeiras e comerciais criam obstáculos ao acesso de Cuba a mercados, financiamento, equipamentos e outros recursos, além de produzirem efeitos nas relações económicas com entidades de países terceiros.
A dimensão extraterritorial de algumas medidas norte-americanas constitui uma das principais críticas apresentadas por Cuba e por outros países. As autoridades cubanas argumentam que as restrições podem afectar empresas estrangeiras que pretendam negociar com a ilha, mesmo quando essas operações não envolvem directamente os Estados Unidos.
A resolução aprovada pela Assembleia Geral volta a contestar essas medidas e a defender princípios de soberania, não intervenção e liberdade de comércio internacional.
Crise económica e energética aumenta pressão sobre Havana
A disputa diplomática decorre numa altura particularmente difícil para Cuba. O país enfrenta uma grave crise económica, marcada pela escassez de bens essenciais, inflação elevada, dificuldades de abastecimento e deterioração de infra-estruturas.
A situação energética tornou-se um dos problemas mais urgentes. A rede eléctrica cubana sofreu um colapso total no mês anterior, deixando milhões de pessoas sem electricidade. As falhas no fornecimento afectam actividades domésticas, transportes, comunicações e serviços essenciais, agravando as dificuldades quotidianas da população.
A administração Trump intensificou a pressão sobre Havana desde o início do ano, incluindo medidas destinadas a restringir o acesso cubano a combustíveis. Washington também reforçou as sanções contra responsáveis e entidades do Estado cubano.
O Governo cubano atribui parte significativa da crise ao embargo e às medidas adicionais impostas pelos Estados Unidos. A administração norte-americana, por outro lado, responsabiliza o modelo de governação da ilha pelas dificuldades económicas e defende que a pressão externa deve contribuir para mudanças políticas.
A crise resulta de um conjunto de factores económicos, estruturais e políticos, pelo que o peso relativo de cada um continua a ser objecto de debate. A votação na ONU não resolve essa disputa, mas demonstra que a situação de Cuba permanece no centro de uma divergência internacional sobre a eficácia e as consequências das sanções.
Trump aumenta a pressão sobre o Governo cubano
O Presidente Donald Trump tem adoptado uma posição mais dura em relação a Cuba, defendendo publicamente que o país enfrenta um fracasso económico e político e sugerindo que poderá ocorrer uma mudança no futuro da ilha.
A pressão sobre Havana também deve ser entendida no contexto das acções norte-americanas na América Latina. Em Janeiro, os Estados Unidos utilizaram força militar para retirar Nicolás Maduro da presidência da Venezuela, um aliado importante de Cuba. A alteração da situação venezuelana acrescentou incerteza às relações regionais e às condições de abastecimento energético da ilha.
A administração norte-americana tem procurado explorar o isolamento económico cubano para aumentar a pressão sobre o Governo. Contudo, não é possível concluir, apenas com base no resultado da votação, que os países que mudaram de posição apoiam todas as medidas adoptadas por Washington ou que defendem uma alteração de regime em Cuba.
A votação reflecte, antes, diferentes cálculos diplomáticos num contexto de crescente tensão entre os dois países. Alguns governos poderão estar a responder à pressão dos Estados Unidos, enquanto outros procuram equilibrar as relações com Washington com o apoio tradicional à posição cubana nas Nações Unidas.
O que muda depois da votação
A aprovação da resolução mantém a contestação internacional ao embargo, mas a redução do apoio em comparação com 2025 oferece aos Estados Unidos um argumento para defender a sua estratégia diplomática. O resultado mostra que Washington conseguiu alterar o comportamento de vários países, embora não tenha revertido a posição maioritária da Assembleia Geral.
A decisão não obriga o Governo norte-americano a levantar as sanções nem altera, por si só, as regras que condicionam o comércio com Cuba. Qualquer mudança efectiva dependerá de decisões políticas e legislativas nos Estados Unidos.
Para Havana, o desafio será preservar o apoio internacional e, simultaneamente, enfrentar uma crise económica que continua a afectar o abastecimento, a electricidade e o funcionamento de serviços essenciais. Para Washington, a questão será saber se a pressão diplomática adicional produzirá mudanças políticas concretas ou se aprofundará as dificuldades económicas sem alterar substancialmente as relações bilaterais.
A votação de 28 de Outubro confirma que o embargo permanece uma das disputas mais duradouras da política externa norte-americana. Apesar da mudança no equilíbrio dos votos, a maioria dos países representados na Assembleia Geral continua a defender o seu fim, enquanto as relações entre os Estados Unidos e Cuba entram numa nova fase de confronto diplomático.





