Transformação de óleo vegetal. Mais fábricas, mesmo preço: o milagre industrial que não chegou às cantinas

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Entre 2023 e 2025, foram inauguradas em Luanda pelo menos três novas instalações industriais de produção e transformação de óleo vegetal — de soja, de girassol, de palma e outros derivados —, com uma capacidade de produção conjunta próxima da necessidade de consumo diário estimada para o país, fixada em 1.700 toneladas por dia.

Às já estabelecidas Carrinho Industrial, Petnar Alimentos, Angoalissar, AMT e Mafcom, a capital viu juntar-se a Sovena e a Induve (2023), bem como a Refitec (2025), inaugurada pelo Presidente da República João Lourenço. Ainda em 2026, está prevista a entrada em pleno funcionamento de mais três complexos: a Rafinole, a ENI e a Nutriavele do Kikuxi, em Luanda.

A Sovena, pertencente ao grupo português Nutrinveste e representando um investimento de cerca de 18 milhões de euros, dispõe de uma linha de embalagem capaz de processar até 45 milhões de litros por ano, detendo a marca de óleo “Fula”. A Induve retomou actividade com uma linha de engarrafamento de óleo a granel importado, capaz de processar 6.000 garrafas de um litro e 500 bidões de 20 litros por hora. A Refitec, pertencente ao Grupo Naval, tem uma capacidade de processamento de 500.000 litros de óleo por dia — equivalente a cerca de 500 toneladas — e de embalamento de até um milhão de litros por dia, fornecendo as marcas “Boavista”, “Adria” e “Glória”.

Quanto às emergentes Rafinole, do Grupo Angoalissar — fornecedora das marcas “Primavera”, “Massíma” e “Biba” — e ENI, activa no sector dos biocombustíveis, estima-se uma produção de 110.000 e 120.000 toneladas por ano, respectivamente. A capacidade da unidade fabril Nutriavele não foi ainda divulgada publicamente, estando a empresa restringida por enquanto à actividade de refinação.

Somando as capacidades disponíveis, o cálculo provisório aponta para cerca de 1.200 toneladas de óleo alimentar por dia — próximo da satisfação das necessidades de consumo diário do mercado. Número consonante com a estimativa avançada pelo Director Nacional da Indústria, Evaristo Baptista, na segunda edição do programa “Industry Connection” da RNA, a 18 de Abril de 2025, ao declarar que “o país regista actualmente uma produção de mais de 1.300 toneladas de óleo alimentar por dia”.

Nesse quadro de crescimento produtivo, a Equipa Económica do Governo havia já anunciado, um ano antes, que a produção de óleo alimentar em Angola crescera mais de 100%, passando de 18.628 quilolitros no período de Junho a Julho de 2023 para 52.036 quilolitros no mesmo período de 2024. Em termos mensais, segundo a mesma fonte, a produção crescera 4,3%, de 6.983 quilolitros em Junho para 7.286 quilolitros em Julho.

Este esforço, prosseguido em 2025, “contribuiu para a elevação do desempenho do sector da indústria de transformação alimentar em 12,13% até ao terceiro trimestre de 2025”, salientou José de Lima Massano, Ministro de Estado para a Coordenação Económica, manifestando a expectativa de que, em 2026, “o país esteja no caminho da autonomia e da soberania alimentar”, sublinhando que as novas indústrias reforçam “a produção interna e reduzem a dependência das importações”.

Na prática, porém, a realidade verificada nos mercados conta outra história. Aquando da inauguração da Refitec, afirmou-se que a fábrica contribuiria para a redução da inflação ao garantir uma quota superior a 50% e suprir a necessidade de importação de 600.000 toneladas por ano. Dois meses depois, a 29 de Maio de 2025, a Televisão Pública de Angola (TPA) noticiou que a empresa já havia “ajudado a reduzir o preço do produto em 25% no mercado”. Contudo, nos armazéns, supermercados e mercados informais, o preço do óleo alimentar mantém-se elevado para as famílias angolanas, registando apenas uma margem reduzida de variação desde a inauguração dessas instalações.

Numa ronda efectuada a 10 de Fevereiro de 2026 em armazéns, supermercados e mercados informais dos municípios do Sambizanga e do Rangel, em Luanda, a Revista Outside apurou que o bidão de óleo vegetal de 20 litros está a ser comercializado a 42.600 kwanzas nos grossistas, a caixa de 12 unidades de um litro a 35.200 kwanzas e o bidão de cinco litros a 11.500 kwanzas. O óleo de palma especial custa 43.500 kwanzas a caixa de 12 unidades na mesma cadeia. No retalho, a unidade de um litro varia entre 2.090 kwanzas nos supermercados “Arreiou” e 2.300 kwanzas nas cantinas, enquanto a embalagem de 750 mililitros de óleo de soja refinado, recentemente introduzida, situa-se em 1.780 kwanzas nos supermercados. Nos mercados informais, os preços variam consoante a quantidade: o litro de óleo vegetal oscila entre 200 e 2.200 kwanzas, sendo comum a venda em “candimba” — medida informal de pequena quantidade —, com o meio bidão de 200 mililitros de óleo de palma a 500 kwanzas e o bidão completo a 1.000 kwanzas.

Questionados sobre os preços praticados, os responsáveis dos armazéns grossistas, todos de nacionalidade estrangeira, recusaram prestar declarações. Entre os retalhistas, um comerciante identificado como “Mamadú” justificou a sua política de preços pelo que paga aos grossistas: “Compramos assim mesmo”, disse. Uma comerciante do mercado informal denunciou a existência de concentração na distribuição e de acordos informais entre grossistas: “Pode ser que tenha muita produção, mas os grossistas, se virem que está a ter muita saída [lucro], a tendência é aumentar o preço. Trocam o preço na tua cara. Eles se ligam para subir o preço”, afirmou, propondo o estabelecimento de preços fixos pelo Estado como solução. Mingota — nome fictício —, dona de casa em compras no mercado informal, disse recorrer às medidas de 200, 300, 500 e 1.000 kwanzas por falta de meios: “Nem todos têm possibilidade de comprar o litro ou lata de óleo, por isso é que compramos aqui”, afirmou, questionando por que motivo o produto continua caro quando “já se produz localmente” em grande quantidade.

De acordo com o Índice de Preços no Consumidor Nacional (IPCN) do Instituto Nacional de Estatística (INE), o litro de óleo custava 1.539,81 kwanzas em Fevereiro de 2020, com uma taxa de variação de 3,55%. Em Fevereiro de 2026, o mesmo produto ronda os 2.090 a 2.300 kwanzas — evolução atribuída à aceleração da inflação, que atingiu 15,7% em 2025, aos custos de importação de matérias-primas e à depreciação do kwanza, factores que têm agravado o custo de vida da população.

Contactada pela Revista Outside, a direcção da Rafinole — em funcionamento experimental desde Setembro de 2025 — confirmou que o custo de importação das matérias-primas é compensado pela produção local, acrescentando que esta “permite reduzir custos associados à importação de produtos acabados e assegurar maior estabilidade de abastecimento ao mercado nacional”. Tal significa que os custos de importação de matérias-primas, provenientes maioritariamente da América e da Ásia, não se repercutem, em princípio, nos preços de venda ao consumidor — tanto mais que algumas matérias-primas a granel beneficiam de isenções na pauta aduaneira.

Ainda assim, quando questionada sobre os preços praticados junto dos clientes grossistas, a empresa não forneceu valores concretos, limitando-se a afirmar que segue a política de preços “já existentes no mercado” e que não pretende “distorcer o mercado, mas oferecer produtos competitivos, com qualidade consistente e maior disponibilidade local, tanto para o consumo doméstico como para clientes industriais”.

A tensão entre a expansão industrial e a persistência dos preços elevados levanta questões sobre o modelo de distribuição em vigor. A ausência de regulação de preços no sector e a aparente concentração da distribuição grossista surgem como variáveis determinantes que o Governo ainda não abordou publicamente de forma directa — e sem cuja resolução o aumento da capacidade produtiva pode beneficiar a cadeia de intermediários sem se traduzir em alívio para o consumidor final.

“Se o volume de produção continuar a aumentar e novas unidades forem inauguradas, os preços poderão não só estabilizar, mas também reduzir proporcionalmente ao crescimento da oferta”, declarou Rui Minguêns, Ministro do Comércio e Indústria, em entrevista durante a inauguração da Refitec, a 26 de Março de 2025.

Na mesma cerimónia, o Presidente da República, João Lourenço, remeteu a questão para a dinâmica de mercado: “Tudo depende da oferta. Quanto maior for a oferta e a procura estiver a seu favor, tendencialmente os preços baixam”, afirmou.

Enquanto essa equação não se concretiza, o litro de óleo continua a ser um bem escasso na cesta básica de muitas famílias angolanas, que encontram nas medidas informais dos mercados — as “candimbas” — a única forma acessível de aceder a um produto essencial.

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