Marrocos rejeita acusações de envolvimento na entrada em massa de migrantes em Ceuta

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Rabat nega ter organizado ou facilitado a entrada de mais de 70 mil migrantes na cidade espanhola e afirma que não existem provas que liguem as autoridades marroquinas ao episódio.A crise reacendeu a tensão entre os dois países depois de documentos da inteligência espanhola revelarem que Marrocos recebeu informações sobre planos de uma entrada em massa.

Marrocos rejeitou esta quinta-feira qualquer envolvimento na entrada em massa de migrantes em Ceuta, território espanhol no Norte de África, ocorrida no final de Julho. O Ministério dos Negócios Estrangeiros marroquino afirmou que não existe qualquer prova que relacione Rabat com o episódio e acusou sectores da oposição espanhola de explorarem a crise para fins políticos.

Segundo a Reuters, mais de 70 mil pessoas entraram irregularmente em Ceuta durante a crise, num episódio que provocou dezenas de mortes e deixou milhares de migrantes, incluindo menores não acompanhados, em condições precárias. Organizações não governamentais apontam para mais de 100 mortos, enquanto a crise continua a provocar protestos na cidade.

A posição marroquina surge um dia depois de documentos desclassificados pelo Governo espanhol mostrarem que o Centro Nacional de Inteligência (CNI) tinha alertado, antes da entrada em massa, para movimentações nas redes sociais relacionadas com uma possível tentativa de atravessamento da fronteira. As informações foram também comunicadas às autoridades marroquinas.

Rabat contesta responsabilidade

O Governo marroquino considera que está a ser transformado em bode expiatório num debate político interno espanhol, sobretudo perante a aproximação das eleições nacionais previstas para 2027. Rabat destacou a cooperação existente com Madrid em matérias como segurança, migração e relações económicas e lembrou que colaborou posteriormente no repatriamento de migrantes e menores não acompanhados.

A polémica ganhou força depois da divulgação dos documentos do CNI. Os registos mostram que havia conhecimento prévio de mobilizações através de redes sociais, incluindo grupos que reuniam dezenas de milhares de seguidores, mas o Governo espanhol sustenta que essas informações não demonstravam que o episódio tivesse sido organizado pelas autoridades marroquinas.

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, afirmou anteriormente que não existiam provas de que Marrocos tivesse planeado ou executado a entrada em massa. Segundo o Governo espanhol, a crise resultou da combinação de vários factores, incluindo rumores divulgados nas redes sociais, mobilização espontânea de migrantes e actuação de redes criminosas que exploraram a situação.

Ao mesmo tempo, a documentação divulgada revela que as autoridades marroquinas permitiram a passagem de pessoas durante algumas horas no dia 30 de Julho. Sánchez afirmou que ainda é necessário determinar se essa actuação resultou de incapacidade operacional ou de inação deliberada.

Crise aumenta pressão sobre Madrid

A controvérsia colocou o Governo de Pedro Sánchez sob forte pressão política. Partidos da oposição acusam o Executivo de ter subestimado os sinais prévios da crise e questionam a forma como as informações do CNI foram tratadas. Documentos divulgados esta semana mostram que as autoridades espanholas receberam vários avisos sobre possíveis tentativas de entrada em massa.

A dimensão da crise também criou uma emergência humanitária em Ceuta. Milhares de pessoas permaneceram na cidade depois do episódio, enquanto as autoridades enfrentaram dificuldades para acomodar os migrantes e menores que chegaram ao território espanhol.

Para Marrocos, a prioridade é evitar que a crise prejudique a cooperação bilateral construída nos últimos anos. Rabat insiste que mantém uma política de cooperação com Espanha no controlo migratório, ao mesmo tempo que continua a não reconhecer a soberania espanhola sobre Ceuta e Melilla.

A disputa ocorre, assim, num momento particularmente sensível das relações entre os dois países. A questão migratória junta-se às divergências históricas sobre Ceuta e Melilla e às tensões relacionadas com o Sahara Ocidental, aumentando o risco de a crise migratória se transformar também num problema diplomático entre Rabat e Madrid.

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