Organização defende que os temas se repetem entre países e que a exigência de contar apenas histórias angolanas assenta num equívoco. Obra exibida em Luanda parte de autores estrangeiros e transpõe-nos para realidades africanas e caribenhas
A mostra dedicada ao realizador Mariano Bartolomeu, realizada a 16 de Setembro em Luanda, colocou no centro do debate uma questão que atravessa o cinema angolano: se os realizadores devem partir apenas de histórias nacionais.
A discussão foi introduzida pelo actor Orlando Sérgio, em nome da associação Kinoyetu, que organizou a sessão com a Cinéfilos & Literatus. Questionado sobre as qualidades que mais aprecia na obra do homenageado, apontou o facto de os argumentos partirem de escritores universais, como Ernest Hemingway e Anton Tchekhov, e de as histórias serem mostradas noutras realidades. Considerou essa uma particularidade rara no cinema angolano.
A partir daí, dirigiu-se à reivindicação de que os realizadores angolanos se centrem apenas nas suas próprias histórias. Orlando Sérgio sustentou que “as histórias já não são tantas assim como as pessoas julgam” e que se repetem de país para país. Argumentou que um leitor angolano se encanta com um escritor japonês porque há referências que se tornam universais, e apontou o amor, o ciúme e a ambição pelo poder como temas ligados à natureza humana e, por isso, transversais.
Nenhum defensor da posição contrária participou no debate, pelo que o argumento a que Orlando Sérgio responde foi por ele caracterizado.
Os filmes exibidos sustentam a descrição. “Um Lugar Limpo e Bem Iluminado” parte de uma história de Hemingway, mas foi realizado e produzido em Cuba, com a acção transportada para uma realidade caribenha, como explicou o realizador. “Quem Faz Correr o Quim”, feito em Angola em 1991, acompanha um piloto da Força Aérea que entra em crise ao saber que o filho primogénito nasceu com problemas de saúde, numa acção situada durante a guerra civil. Em entrevista à Rede Angola, Mariano Bartolomeu explicou que se trata de uma adaptação livre de um romance do escritor japonês Kenzaburo Oe e que usou o bebé como metáfora de Angola e da guerra.
O procedimento não é, portanto, o de importar uma história, mas o de retirar de um autor estrangeiro uma situação e recolocá-la num contexto local. O próprio realizador descreve o seu cinema como uma exploração da psicologia das personagens e do existencialismo, matéria que não depende de fronteiras, ainda que os seus filmes estejam ancorados em momentos concretos da história angolana.
A posição do homenageado não se esgota, contudo, na defesa do universal. Questionado sobre a preservação da cultura, Mariano Bartolomeu sustentou que o cinema a garante filmando e que a cultura angolana é múltipla, o que exige muitas vozes. Notou que duas ou três pessoas a filmar traduzem a perspectiva de Luanda, ao passo que cinquenta pessoas espalhadas pelo país preservam perspectivas diferentes. “Prefiro várias vozes do que apenas uma voz”, afirmou.
É aí que as duas posições do debate se tocam. A exigência de histórias angolanas e a defesa dos temas universais partem ambas de uma questão de representação, e a divergência é menos sobre a origem do material do que sobre quem filma e a partir de onde. No debate, o cineasta Jorge António considerou Mariano Bartolomeu um caso único e raro no cinema angolano, sublinhando o trabalho de encenação do primeiro filme, rodado a preto e branco em película.
“Um Lugar Limpo e Bem Iluminado” é também o título de um conto de Ernest Hemingway, publicado na década de 1930, centrado num homem idoso que permanece num café à noite.
Kenzaburo Oe, Nobel da Literatura em 1994, escreveu um romance sobre um pai confrontado com o nascimento de um filho com uma malformação, matéria que Mariano Bartolomeu transpôs para o contexto angolano.
Mariano Bartolomeu formou-se em cinema em Cuba, como bolseiro da Fundação do Novo Cinema Latino-Americano, e fez o mestrado nos Estados Unidos com uma bolsa Fulbright. Regressou a Angola em Setembro de 2026 pela primeira vez desde 2017, para a mostra organizada pela Kinoyetu.





