Acções da Unitel caíram 30% desde a oferta pública, enquanto BFA e Standard Bank valorizaram

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As acções da Unitel fecharam a sessão de 21 de Outubro em AOA 28.000, 30,07% abaixo do preço da oferta pública de Julho. As do BFA e do Standard Bank Angola negociavam acima dos preços de entrada. A divergência marca o primeiro grande teste à confiança dos investidores particulares, numa altura em que o Governo os chama a financiar a economia através da bolsa.

A primeira grande vaga de investidores particulares na bolsa angolana enfrenta perdas na mais popular das três ofertas públicas realizadas desde 2025. As acções da Unitel fecharam a sessão de 21 de Outubro da Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA) em AOA 28.000, segundo dados da plataforma Finda citados pelo Mercado. O valor fica 30,07% abaixo dos AOA 40.040 pagos na oferta pública de venda (OPV) de 15% do capital.

A oferta captou AOA 300,3 mil milhões, segundo a Comissão do Mercado de Capitais (CMC), regulador do sector. Foram 7,5 milhões de acções. Ao preço de 21 de Outubro, valiam cerca de AOA 210 mil milhões. A diferença, cerca de AOA 90 mil milhões, é uma perda potencial, que só se realiza para quem vender a esse preço.

O contraste com as outras duas ofertas é marcado. Na mesma sessão, as acções do BFA, vendidas em Setembro de 2025 a AOA 49.500, fecharam em AOA 98.000. As do Standard Bank Angola, vendidas ao público em Setembro de 2026 a AOA 50.000, fecharam em AOA 67.000.

Uma estreia em alta e menos de três meses de queda

A Unitel estreou-se a 29 de Julho de 2026 com uma subida de 24,88% na primeira sessão, o máximo diário permitido pelas regras da BODIVA. A procura tinha superado a oferta. Segundo a CMC, a taxa de cobertura foi de 120,72%, com um excesso de procura de AOA 362,08 mil milhões.

A tendência inverteu-se nas semanas seguintes. A 1 de Setembro, a acção fechava em AOA 36.000, segundo o Expansão. A 24 de Setembro já estava em AOA 28.000, e desde então tem oscilado nesse patamar. Com 50 milhões de acções, a capitalização bolsista da empresa ronda AOA 1,4 biliões.

A estreia coincidiu com uma falha nacional na rede da operadora, associada a um ataque informático, que deixou clientes sem serviço no fim de Julho. A Lusa assinalou em Agosto que a descida coincidiu com o anúncio da reposição dos serviços. Nenhuma das fontes consultadas estabelece relação causal entre o incidente e a queda.

A própria oferta mexeu com o resto do mercado antes de começar. Segundo o Expansão, as cinco cotadas de então perderam cerca de AOA 260 mil milhões em valor de mercado entre 23 de Junho e 13 de Julho. O jornal atribuiu a queda a investidores que venderam posições para financiar a subscrição da Unitel.

Um mercado com mais investidores, mas pouco profundo

A bolsa angolana entrou em 2026 com mais participantes do que nunca, segundo os dados da própria BODIVA. Na revista anual da instituição, publicada em Março, a BODIVA reportou 37.156 negócios em 2025, contra 10.328 em 2024. Destes, 22.385 foram no mercado de acções. O montante negociado, porém, caiu para AOA 5,73 biliões.

O número de negócios cresceu sem que o montante acompanhasse. Isso indica operações mais pequenas. Em valor, os particulares continuavam marginais: representaram 4,17% do montante transaccionado no mercado secundário de dívida pública em 2025, contra 87,87% das instituições financeiras.

A entrada da Unitel alterou a composição de quem negoceia, medida em número de pessoas. Em Julho de 2026, segundo o relatório mensal da CMC, 92,31% dos 5.785 investidores que negociaram na BODIVA eram particulares. Foram abertas 5.635 novas contas de registo individualizado, mais de quatro vezes o número do mês anterior. A capitalização bolsista do mercado de acções subiu para AOA 6,26 biliões, mais 199,72% em termos homólogos.

A profundidade continua limitada. As acções representaram 1,10% do montante negociado em Julho; as Obrigações do Tesouro não reajustáveis, 92,58%. Em Outubro, o Expansão noticiou que a BODIVA interveio numa operação irregular nas suas próprias acções, em que o mesmo investidor surgia como comprador e vendedor.

O apelo do ministro

O desempenho das ofertas ganha peso no momento em que o Governo pede mais à bolsa. Na abertura do FIN Summit, no sábado, 31 de Outubro, em Luanda, o ministro da Indústria e Comércio, Rui Miguêns de Oliveira, defendeu que a banca não pode financiar sozinha a economia. Pediu mais emissões de papel comercial e de obrigações corporativas, dirigidas a fundos de pensões, investidores institucionais e pequenos aforradores. O ministro não se referiu à Unitel nem a qualquer oferta pública em concreto.

“Nós precisamos de criar uma solidariedade colectiva com o investimento”, afirmou. No texto escrito da intervenção, acrescenta que essa solidariedade deve estender-se à distribuição de dividendos, que “não podem continuar a concentrar-se em poucas mãos”. Segundo o ministro, essa concentração desincentiva a aplicação da poupança das famílias. No discurso, defendeu que os micro-aforradores devem entrar no circuito de financiamento da economia.

A experiência dos últimos três meses mostra o outro lado do apelo. Os particulares que subscreveram a oferta da Unitel suportam hoje perdas potenciais. Os que compraram no BFA ou no Standard Bank estão em ganho. Os três casos mostram que o resultado dependeu do título escolhido e do momento da compra. Avaliar esse risco exige informação e literacia financeira que muitos dos novos investidores estão ainda a adquirir.

Os fundos como alternativa

Para o pequeno investidor, os organismos de investimento colectivo (OIC) diversificam o risco de um único título. Também cresceram. Segundo a CMC, existiam 75 OIC em Julho de 2026, com um valor líquido global de AOA 1,93 biliões, mais 50,42% em termos homólogos.

A escala, porém, é ainda reduzida face à poupança bancária. Num artigo assinado na revista da BODIVA, o gestor António Catana estimou que os fundos de valores mobiliários equivaliam a cerca de 2% dos depósitos bancários no fim de 2025. A CMC contava 5.877 participantes nesses fundos em Julho de 2026.

O que observar

As próximas semanas dirão se a Unitel estabiliza no patamar actual. Para o mercado, há duas questões em aberto. Uma é saber se as próximas ofertas do programa de privatizações mantêm a procura dos particulares depois desta experiência. A outra é saber se surgem emissões empresariais de dívida em volume suficiente para responder ao apelo do ministro.

CotadaPreço na oferta (AOA)Fecho a 21/10/2026 (AOA)Variação
Unitel (OPV Julho 2026)40.04028.000-30,07%
Standard Bank Angola (OPV Setembro 2026, público)50.00067.000+34,00%
BFA (OPV Setembro 2025)49.50098.000+97,98%

Fontes: CMC, BODIVA, Finda/Mercado, Ver Angola, Forbes África Lusófona. Variações calculadas pela Outside, sem dividendos.

IndicadorValorPeríodoFonte
Negócios na BODIVA37.156 (10.328 em 2024)2025BODIVA
Montante negociadoAOA 5,73 biliões2025BODIVA
Capitalização bolsistaAOA 6,26 biliõesJulho 2026CMC
Particulares no total de investidores que negociaram92,31%Julho 2026CMC
Valor líquido dos OICAOA 1,93 biliõesJulho 2026CMC

Uma acção que desce abaixo do preço de compra gera uma perda potencial, também chamada menos-valia latente. A perda só se realiza quando o investidor vende.

Quem mantém a posição pode recuperar o valor se a cotação subir, e continua a ter direito aos dividendos que a empresa distribuir. A decisão de manter ou vender depende do horizonte de investimento e da avaliação dos fundamentos da empresa, e não apenas da cotação do dia.

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