Ucrânia acusa Rússia de aproveitar trégua humanitária em Oleshky para reforçar posições militares

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O Estado-Maior ucraniano afirma que as forças russas utilizaram a pausa de seis dias nos combates para movimentar tropas, reforçar fortificações e aumentar o abastecimento de munições na cidade ocupada de Oleshky.Moscovo, por sua vez, presume que as forças ucranianas também aproveitaram o período para se reorganizar, enquanto a trégua permitiu a evacuação de quase 800 civis e a entrega de ajuda humanitária.

Kiev acusa Moscovo de utilizar pausa humanitária para fins militares

A Ucrânia acusou, nesta segunda-feira, 2 de Novembro, as forças russas de terem aproveitado o cessar-fogo humanitário na cidade de Oleshky, no sul do país, para reforçar as suas posições militares. A denúncia foi apresentada pelo Estado-Maior das Forças Armadas ucranianas, após o fim de uma pausa de seis dias nos combates, que tinha como principal objectivo permitir a entrega de ajuda humanitária e a retirada de civis da localidade.

Segundo as autoridades militares ucranianas, durante o período de suspensão das hostilidades foram observados movimentos de rotação de unidades russas, reforço de posições defensivas, expansão de medidas contra drones ao longo das estradas e aumento da actividade logística, incluindo a entrega de munições.

O Estado-Maior afirmou que as forças ucranianas respeitaram os termos estabelecidos para a operação humanitária e limitaram as suas acções ao que tinha sido acordado. Na sua avaliação, a Rússia terá utilizado a pausa para melhorar a sua capacidade militar na região.

A acusação surge num momento em que a frente de batalha no sul da Ucrânia continua marcada por confrontos, ataques com drones e operações de artilharia. Oleshky, situada na margem oriental do rio Dnipro, permanece sob controlo russo, enquanto a cidade de Kherson, localizada na margem oposta, está sob administração ucraniana.

Cessar-fogo permitiu evacuação de quase 800 pessoas

A trégua entrou em vigor a 27 de Outubro e foi estabelecida com o objectivo de facilitar uma operação humanitária em Oleshky, uma localidade da região de Kherson afectada pela guerra e pela ocupação russa.

A iniciativa foi mediada através da primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump, com o envolvimento do Papa Leão XIV. O acordo permitiu a entrada de assistência humanitária e a retirada de residentes que pretendiam abandonar a cidade e regressar a territórios sob controlo ucraniano.

Melania Trump informou que quase 800 pessoas foram evacuadas durante a operação. A missão representou uma das iniciativas humanitárias locais mais prolongadas desde o início da invasão russa em larga escala, em Fevereiro de 2022.

A operação exigiu coordenação entre as partes envolvidas, uma vez que a população civil permanecia numa área próxima da linha de contacto militar. A pausa nos combates criou uma janela temporária para a movimentação de pessoas e materiais de assistência, reduzindo os riscos associados à circulação em zonas de conflito.

O cessar-fogo terminou às 21h00 GMT de domingo, 1 de Novembro, após seis dias de duração.

Kremlin presume que Ucrânia também se reorganizou

A Rússia reagiu às acusações ucranianas através do porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, que afirmou não possuir informações específicas sobre as movimentações das forças russas durante a trégua.

Peskov declarou, no entanto, que era razoável presumir que o Exército ucraniano também tivesse utilizado o período para reorganizar as suas unidades. O representante russo descreveu esse tipo de movimentação como uma prática habitual durante pausas locais nos combates.

O Kremlin não confirmou directamente as acusações de Kiev relativas à rotação de tropas russas, ao reforço das fortificações ou ao transporte de munições. Peskov indicou que questões específicas sobre as operações militares deveriam ser dirigidas ao Ministério da Defesa da Rússia.

A posição russa introduz uma divergência sobre a utilização da pausa humanitária. Enquanto Kiev afirma que Moscovo aproveitou o acordo para melhorar as suas capacidades militares, o Kremlin considera provável que ambas as partes tenham realizado movimentos de reorganização.

Peskov acrescentou que, de momento, não estavam previstas outras tréguas locais semelhantes à de Oleshky, que permitissem operações humanitárias e evacuações de civis.

Autoridades ucranianas alertam para possível intensificação dos combates

Após o fim da trégua, a 34.ª Brigada de Fuzileiros Navais da Ucrânia, denominada Borysfen, apelou aos residentes da região de Kherson para que não ignorassem os alertas de ataques aéreos.

A unidade militar afirmou que a Rússia teria utilizado o período de suspensão das hostilidades para preparar e reforçar as suas capacidades, alertando para a possibilidade de uma intensificação dos combates.

As autoridades militares ucranianas consideram que o reforço de posições e a expansão de sistemas de defesa contra drones poderão alterar as condições operacionais na região. Contudo, a previsão de aumento das hostilidades permanece uma avaliação apresentada pelas forças ucranianas, não uma confirmação de que uma nova ofensiva esteja em curso.

O aviso reflecte a preocupação de Kiev com a segurança das populações civis nas áreas próximas da linha de frente, onde ataques com drones, artilharia e outros meios militares continuam a representar riscos.

A região de Kherson tem sido uma das áreas mais afectadas pela guerra, devido à proximidade entre posições russas e ucranianas e à importância estratégica do rio Dnipro.

Ataques retomam após o fim da trégua

O fim do cessar-fogo foi acompanhado por novos incidentes militares na região. Yaroslav Shanko, responsável pela Administração Militar da cidade de Kherson, informou que um drone atingiu o centro da cidade na segunda-feira. Não foram reportadas vítimas naquele ataque.

Kherson encontra-se sob controlo ucraniano, na margem ocidental do Dnipro, em frente à cidade ocupada de Oleshky. A proximidade entre as duas localidades torna a região particularmente vulnerável a ataques de drones e operações militares de curto alcance.

O governador da região de Kherson, Oleksandr Prokudin, afirmou que as forças russas bombardearam e atacaram com drones e aeronaves 16 localidades sob controlo ucraniano nas 24 horas anteriores às 04h00 GMT de segunda-feira.

Os ataques incluíram a capital regional e outras comunidades da área. A extensão das operações demonstra que a suspensão temporária das hostilidades em Oleshky não representou um cessar-fogo abrangente para toda a região de Kherson.

A retoma dos ataques também reforça a incerteza sobre a possibilidade de novas iniciativas humanitárias locais, especialmente quando os acordos não abrangem outras zonas de combate.

Ombudsman afirma que os compromissos foram respeitados

Apesar das acusações apresentadas pelo Estado-Maior ucraniano, o Provedor de Justiça da Ucrânia, Dmytro Lubinets, afirmou no domingo que ambas as partes tinham cumprido as obrigações assumidas durante o período da trégua.

A declaração introduz uma distinção importante entre o cumprimento formal do acordo humanitário e as movimentações militares que, segundo Kiev, ocorreram durante a pausa.

O respeito pelos termos de um cessar-fogo local pode coexistir com actividades de reorganização militar, dependendo das condições estabelecidas no acordo. Por essa razão, as acusações sobre o reforço de posições não significam necessariamente que tenham sido registadas violações directas dos compromissos humanitários.

A operação de Oleshky foi concebida para permitir a entrega de ajuda e a retirada de civis, não para estabelecer uma suspensão geral das actividades militares em toda a região.

A avaliação de Lubinets sugere que o mecanismo humanitário conseguiu cumprir a sua finalidade imediata, embora as divergências sobre o comportamento militar das partes continuem.

Oleshky permanece num ponto estratégico da guerra

A cidade de Oleshky ocupa uma posição relevante no sul da Ucrânia devido à sua localização junto ao rio Dnipro e à proximidade de Kherson. O controlo da área influencia a movimentação de tropas, a logística e as operações militares em ambas as margens do rio.

Desde a invasão russa em 2022, a região tem sido palco de confrontos e de operações destinadas a consolidar posições. A presença de infra-estruturas militares e a utilização de drones tornaram a zona especialmente sensível para as forças de ambos os países.

O reforço de fortificações, a movimentação de unidades e a protecção contra drones podem ter implicações para a capacidade de manter posições e responder a ataques. Por isso, as alegações sobre a utilização da trégua para reorganização militar são relevantes para a avaliação da situação no terreno.

A Rússia e a Ucrânia continuam a disputar o controlo de áreas estratégicas, enquanto as populações civis enfrentam deslocamentos, interrupções de serviços e riscos associados à proximidade dos combates.

Uma pausa humanitária sem impacto duradouro na frente de batalha

A trégua em Oleshky permitiu retirar centenas de pessoas de uma zona de conflito e facilitar a entrega de assistência humanitária. No entanto, a sua duração limitada e o alcance geográfico restrito impediram que se traduzisse numa redução mais ampla das hostilidades.

A acusação ucraniana de que a Rússia aproveitou o período para reforçar as suas posições evidencia uma das dificuldades dos cessar-fogos locais: a possibilidade de uma pausa destinada a proteger civis também ser utilizada para reorganização militar.

Moscovo, por seu lado, presume que Kiev tenha realizado movimentos semelhantes, sem apresentar detalhes específicos sobre as operações russas.

Com o fim da trégua e a retoma dos ataques na região de Kherson, a situação permanece instável. O episódio demonstra que acordos humanitários podem abrir espaço para operações de assistência e evacuação, mas não garantem, por si só, uma redução duradoura da violência ou uma alteração significativa do equilíbrio militar.

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