Manuel Vicente: o “não” de Washington que empurrou Angola para a China

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O antigo vice-presidente da República, que liderou a Sonangol durante treze anos, confirma que a primeira diligência do pós-guerra foi feita junto dos Estados Unidos e das instituições de Bretton Woods — e falhou. O chamado modelo Angola não nasceu de uma preferência estratégica por Pequim. Nasceu de uma porta fechada em Washington.

A narrativa dominante sobre a relação entre Angola e a China começa quase sempre no mesmo ponto: no petróleo dado como garantia, nas empreitadas atribuídas a construtoras chinesas, na dívida acumulada ao longo de duas décadas. Raramente começa onde de facto começou — numa viagem a Washington feita antes de Pequim entrar na equação.

A revelação consta de uma entrevista conduzida pelo Asia Pacific Research Circle (APRC), organização de investigação liderada por estudantes e dedicada a análise de política sobre a região Ásia-Pacífico, publicada esta terça-feira, 9 de Setembro de 2026, no YouTube. Manuel Vicente, vice-presidente da República entre 2012 e 2017 e presidente do conselho de administração da Sonangol entre 1999 e 2012, descreve a sequência sem rodeios. Terminada a guerra, o então Presidente da República deslocou-se aos Estados Unidos e, segundo Vicente, que integrou a delegação, o objectivo principal era um só: obter apoio americano para a reconstrução do país.

«Não fomos bem sucedidos. Não conseguimos convencer o governo americano a dar-nos essa ajuda. E, como resultado disso, fomos à China.»

O país estava falido e o crédito tinha condições

O quadro que Manuel Vicente traça do momento é o de um Estado sem margem: «o país estava completamente destruído, não tínhamos recursos financeiros e precisávamos de ajuda do exterior». A tentativa não se esgotou na Casa Branca. Angola bateu também à porta do Clube de Paris, do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional. A resposta, na sua leitura, foi a indiferença: «não nos deram atenção».

O registo documental confirma o essencial e corrige o pormenor. A conferência internacional de doadores que o Executivo angolano preparou no pós-guerra nunca chegou a realizar-se. As instituições de Bretton Woods exigiam, como condição prévia, transparência sobre os fluxos financeiros do petróleo e dados macroeconómicos desagregados — exigências que o Governo de então não satisfez. Não houve, portanto, uma recusa formal de financiamento. Houve um preço político que Luanda não quis ou não pôde pagar.

Esta distinção é decisiva para avaliar a tese da inevitabilidade. Dizer que o Ocidente fechou a porta é uma coisa; dizer que o Ocidente abriu a porta mediante condições de escrutínio e que Angola preferiu outra porta é coisa diferente. A entrevista sustenta a primeira versão. O historial documental aponta para a segunda.

Dezoito meses entre a recusa e a assinatura

A alternativa chinesa não foi imediata nem improvisada. O acordo-quadro de cooperação económica entre o Ministério das Finanças de Angola e o Ministério do Comércio da China foi assinado a 28 de Novembro de 2003. Pouco mais de três meses depois, a 2 de Março de 2004, o Eximbank chinês formalizou a primeira linha: dois mil milhões de dólares, estruturados como facilidade de pré-pagamento de petróleo. É exactamente o valor citado por Vicente como ponto de partida de toda a relação.

As condições explicam a atractividade. Juros na ordem de 1,25 a 1,5 por cento ao ano, prazos de amortização entre quinze e dezoito anos e períodos de carência de três anos — termos que nenhum credor comercial ocidental colocaria em cima da mesa para um país acabado de sair de vinte e sete anos de guerra. Em contrapartida, o Eximbank exigiu garantia real. Essa garantia era petróleo, e quem a prestava era a Sonangol.

«Éramos a empresa que dava as garantias para estas facilidades de crédito», afirma Manuel Vicente, que descreve a petrolífera estatal como o pilar de toda a arquitectura financeira entre os dois Estados. É um ponto que merece ser sublinhado: o risco soberano angolano foi, na prática, transferido para o balanço de uma empresa pública. A dívida era do Estado; o colateral era da Sonangol. E quem assinava por ela era o próprio entrevistado.

O que começou com dois mil milhões não parou aí. Seguiram-se 500 milhões de dólares em Julho de 2007 e mais dois mil milhões em Setembro do mesmo ano. Duas décadas depois, o acumulado é de outra ordem de grandeza: a Chatham House aponta mais de 42 mil milhões de dólares emprestados a Angola desde o início do século, e o Global Development Policy Center da Universidade de Boston contabiliza 258 empréstimos e 45 mil milhões de dólares entre 2000 e 2022 — mais de um quarto de tudo o que a China emprestou a África nesse período. Angola é, de longe, o maior devedor africano a Pequim.

O ponto de viragem foi 2016. Nesse ano, o Governo angolano pediu ao Banco de Desenvolvimento da China dez mil milhões de dólares para socorrer a Sonangol, e a dívida garantida por petróleo mais do que duplicou de uma assentada, passando a representar 76 por cento de tudo o que o país devia a credores chineses.


CRONOLOGIA DE UMA RECUSA

22 Fev 2002Jonas Savimbi é morto no Moxico. A guerra civil entra na fase final.
25–26 Fev 2002José Eduardo dos Santos em visita de trabalho a Washington; encontro com George W. Bush na Casa Branca.
4 Abr 2002Memorando de Entendimento do Luena. Fim formal do conflito.
2002–2003Diligências junto do FMI, Banco Mundial e Clube de Paris. A conferência internacional de doadores nunca chega a realizar-se.
28 Nov 2003Acordo-quadro de cooperação económica entre os ministérios das Finanças de Angola e do Comércio da China.
2 Mar 2004Assinatura do Master Loan Facility Agreement de 2 mil milhões USD com o Eximbank da China, estruturado como pré-pagamento de petróleo.
11–14 Mai 2004Dos Santos regressa a Washington, dois meses depois de assinar com Pequim.
2007Duas novas linhas do Eximbank: 500 milhões USD em Julho e 2 mil milhões USD em Setembro.
2016Empréstimo de 10 mil milhões USD do Banco de Desenvolvimento da China para socorrer a Sonangol. A dívida colaterizada por petróleo mais do que duplica.

O canal que a entrevista não menciona

Há uma segunda versão desta história, contada pelo próprio Manuel Vicente noutro contexto. Em declarações prestadas a 6 de Agosto e 5 de Novembro de 2020, lidas em audiência no Tribunal Supremo durante o julgamento dos generais Manuel Hélder Vieira Dias Júnior, “Kopelipa”, e Leopoldino Fragoso do Nascimento, “Dino”, Vicente descreveu um canal adicional para a aproximação a Pequim.

Segundo essas declarações, foi o empresário luso-angolano Hélder Bataglia, então presidente da Escom, braço africano do Grupo Espírito Santo, quem informou José Eduardo dos Santos de que conhecia um empresário chinês interessado em investir em Angola. Foi Bataglia quem apresentou o empresário sino-britânico Sam Pa a Manuel Vicente. Este acrescentou que se deslocou várias vezes à China, sob orientação do Chefe de Estado, para negociar financiamentos, e que o primeiro montante, os dois mil milhões de dólares, foi assinado no final de 2003, acompanhado do ministro das Finanças José Pedro de Morais e do governador do Banco Nacional de Angola, Amadeu Maurício.

Vicente declarou ainda ter sido um dos criadores da China Sonangol, constituída em 2004 em Hong Kong com a Sonangol EP a deter 30 por cento e os empresários chineses Sam Pa e Lo Fong os restantes 70 por cento. Exerceu funções de presidente do conselho de administração não executivo, sustentando que a China Sonangol e a Sonangol EP eram entidades «completamente distintas».

As duas versões não são incompatíveis. Uma descreve a decisão política de procurar Pequim; a outra, o canal concreto que a operacionalizou. Mas a entrevista ao APRC omite inteiramente o segundo elemento, e a omissão não é irrelevante: o modelo Angola é frequentemente descrito como uma relação de Estado para Estado, quando o seu ponto de partida documentado envolveu intermediários privados.

O detalhe que complica a tese

Há um facto que a narrativa da porta fechada tende a omitir. A 11 de Maio de 2004 — dois meses depois de Angola ter assinado com o Eximbank chinês — o Presidente da República regressou a Washington para uma nova visita de trabalho, com encontro na Casa Branca. Nas semanas anteriores, o Executivo autorizara a publicação do diagnóstico do sector petrolífero elaborado pela KPMG, um gesto directamente alinhado com as recomendações do FMI.

Ou seja: a relação com o Ocidente não foi cortada. Foi arbitrada. Com o crédito chinês já garantido, Luanda passou a negociar com Washington a partir de uma posição menos vulnerável — e pôde exibir sinais de transparência sem estar dependente deles. A leitura mais exigente do modelo Angola não é a de um país sem alternativa. É a de um país que descobriu, cedo, o valor negocial de ter mais do que um credor.

Pequim diz o mesmo — e vai mais longe

A tese de Vicente, de que a responsabilidade pelos termos coube a Angola e não à China, encontra apoio inesperado do lado chinês. Em Abril de 2025, em Pequim, Yu Yong, director do Departamento dos Assuntos Africanos do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, afirmou perante jornalistas angolanos que o uso do petróleo como colateral foi uma proposta angolana, apresentada durante a governação de José Eduardo dos Santos, e não uma imposição de Pequim. Acrescentou que os Estados Unidos tinham recusado, à época, financiar Angola com essa garantia, e que a China aceitou.

Confrontado sobre se Pequim estaria disponível para contratar nova dívida sem petróleo como colateral, Yu Yong respondeu que sim: «se Angola entender que há um método melhor, ficamos contentes por saber».

A declaração é de uma parte interessada e deve ser lida como tal. Mas convergindo com o testemunho de Vicente, produz uma conclusão desconfortável para quem sustenta a tese da armadilha da dívida: se o colateral foi ideia de Luanda, a responsabilidade pelos termos volta para Luanda.

«O problema foi ciúme»

Sobre a reacção internacional ao modelo, Manuel Vicente é directo: «o problema, na minha opinião e pela minha experiência, foi ciúme». Sustenta que o Ocidente não acreditava no sucesso da cooperação e mudou de tom quando os resultados começaram a aparecer. E acrescenta uma ressalva que merece ser lida como programa e não como cortesia diplomática: «há espaço para todos — há espaço para o Ocidente, há espaço para o Oriente».

É uma posição que dispensa a moldura ideológica com que o debate sobre a China em África é frequentemente conduzido, dentro e fora do continente. Não há aqui gratidão nem denúncia. Há uma leitura transaccional: cada parte defende os seus interesses, e quem não os defende paga a diferença.

Por que isto importa em 2026

A pergunta que a entrevista devolve ao presente não é sobre 2002. É sobre a capacidade actual de Angola para definir termos em vez de aceitar a porta que estiver aberta.

Os números mostram um desmame em curso, e não um agravamento. A dívida angolana à China caiu 35 por cento entre 2020 e 2024, de 21.993,1 para 14.353,6 milhões de dólares, segundo cálculos baseados nas estatísticas externas do Banco Nacional de Angola. A parcela garantida por petróleo desceu para 9.029,4 milhões no final de 2024 — 63 por cento da dívida à China e 19 por cento da dívida externa total. E a quota chinesa no total da dívida externa angolana passou de 53 por cento em 2017 para 31 por cento em 2024.

O que não mudou foi a necessidade de capital. O Corredor do Lobito voltou a colocar Luanda no centro de uma disputa entre financiadores ocidentais e asiáticos. A produção petrolífera ronda hoje 1,1 a 1,2 milhões de barris por dia, bem abaixo do pico de quase dois milhões atingido em 2008 — o que reduz precisamente o activo que serviu de colateral em 2004. A China continua a ser o maior parceiro comercial, o maior cliente, o maior fornecedor e o maior credor de Angola, com trocas de 18.251 milhões de dólares em 2024, cerca de 36 por cento do comércio externo do país.

Se, em 2004, Angola tinha petróleo em quantidade suficiente para compensar a ausência de poder negocial, hoje tem menos petróleo e a mesma necessidade de capital. A lição que Manuel Vicente sugere — a de que os erros foram angolanos, e não chineses, porque não se defenderam com firmeza os interesses nacionais — deixa de ser retrospectiva e passa a ser um teste imediato.

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