Fundado em Salvador em 2012, o projecto Turbante-se transformou um objecto de uso quotidiano em matéria de investigação histórica. A sua fundadora esteve em Luanda, à procura do contexto de origem das práticas que estuda há catorze anos
O turbante deixou de ser acessório para se tornar arquivo. É essa a premissa do projecto que a artista brasileira Thaís Muniz fundou em Salvador em 2012 e trouxe agora a Angola.
Em conversa pública realizada a 13 de Agosto na sede da Nesr Art Foundation, em Luanda, moderada por Dreça Manuel, a artista descreveu o percurso que a levou a tratar a cabeça e os panos que a cobrem como suporte de memória e não como objecto de moda. O projecto Turbante-se nasceu de uma abordagem que a própria classifica como empírica e estética, tentativa de compreender a sua própria história dentro da formação do Brasil e da diáspora atlântica.
De pergunta na rua a método de trabalho
A origem do projecto foi circunstancial. A artista relata que o uso continuado do turbante gerava abordagens de outras mulheres, mais novas e mais velhas, que queriam saber como se executavam as amarrações e se o objecto era vestido pronto. Da repetição dessas perguntas nasceu o formato que mantém até hoje: uma componente inicial de contextualização histórica, seguida de execução prática. A artista descreve o modelo como de retroalimentação, na medida em que partilha o que vai aprendendo e recolhe, nesses encontros, material que alimenta a investigação seguinte.
O que está em causa nessa componente histórica é politicamente denso. A prática das amarrações de cabeça atravessa o período esclavagista nas Américas, foi associada ao trabalho doméstico e ao culto religioso, perdeu circulação pública e regressou nas últimas duas décadas por via de movimentos de afirmação estética negra. A artista situa o seu próprio trabalho como tentativa de aproximação a uma história que descreve como negada durante muito tempo, por efeito da demonização de tudo o que remetesse para ascendência africana. O turbante funciona, nessa leitura, como forma de comunicação não-verbal e como objecto de ligação.
Cidadania que dá acesso, não pertença
A investigação sobre pertencimento tem, no percurso da artista, um correspondente biográfico. Radicada na Irlanda desde 2014, Thaís Muniz recusa descrever-se como irlandesa e usa em alternativa um termo que cunhou, “irlandeusa”, para marcar a distância entre o documento e a identidade. A cidadania europeia, argumenta, é sobretudo um instrumento de acesso: dá educação, saúde e mobilidade internacional ampliada a um corpo que, sem ela, teria trânsito restrito. O termo é usado para nomear essa relação de poder e a estranheza que a declaração de nacionalidade produz nos interlocutores.
É a partir desse duplo posicionamento — investigadora de uma matéria afro-atlântica e portadora de um passaporte europeu — que a passagem por Angola adquire sentido no seu percurso. Depois de anos a trabalhar sobre a diáspora a partir da Europa e do Brasil, a artista descreve a estadia angolana como acesso a conhecimento tradicional no seu contexto de origem, e não como confirmação de hipóteses previamente formuladas.
Um eixo cultural sem instrumentos
A deslocação expõe, por contraste, a fragilidade do quadro que a enquadra. A relação cultural entre Angola e o Brasil é permanentemente invocada em termos históricos e linguísticos, mas dispõe de poucos mecanismos operacionais de intercâmbio artístico. Os programas de residência disponíveis em Luanda destinam-se, na sua formulação pública, a artistas dos países africanos de língua portuguesa, e a circulação em sentido inverso depende sobretudo de iniciativa individual e de financiamento privado. O resultado é que percursos como este continuam a ser excepção documentada caso a caso, e não fluxo estruturado.
Sobre o resultado da estadia, a artista recusou a ideia de conclusão, descrevendo o trabalho feito como preparação de terreno e não como colheita.





