A historiadora norte-americana reconstitui como a rádio serviu colonos, guerrilha e Estado independente — e como os ouvintes a transformaram em instrumento de resistência. Lançada agora em português com o título Frequências Poderosas, a obra conta a história de um meio que o poder quis dominar e o público aprendeu a contornar.
Numa aldeia do Mungo, em 1967, baixar o som do rádio podia levar à prisão — e é dessa Angola à escuta que fala Frequências Poderosas, o novo livro de Marissa Moorman em português.
A cena abre o relato da autora. Um administrador colonial entra num bar para comprar cigarros e repara em gestos apressados: o dono do estabelecimento, Timóteo Chingualulo, baixa o volume do aparelho, e um amigo, enfermeiro, muda de estação. Ouviam a emissão da Angola Combatente, transmitida desde Brazzaville. O administrador denunciou os dois à polícia, que os deteve e levou o rádio confiscado, sem que houvesse prova de filiação política.
É a partir de episódios como este que Moorman constrói a sua tese: ao longo de mais de sete décadas, entre 1931 e 2002, a rádio foi simultaneamente instrumento de poder e de contra-poder em Angola. Dos clubes de rádio fundados pelos colonos nos anos 30 à emissão clandestina dos movimentos de libertação, do dispositivo de contra-insurreição do Estado colonial à construção da voz do Estado independente, todos quiseram a rádio do seu lado. Os ouvintes, porém, encontraram sempre maneiras próprias de obter e fazer circular a informação.
Durante a guerra anticolonial, entre 1961 e 1974, a administração censurava a imprensa e a rádio locais. A população sintonizava emissoras internacionais — a BBC, a rádio francesa, a Voz da América, a rádio de Moscovo —, várias delas com programas em português. A polícia política seguia e transcrevia essas emissões palavra por palavra, classificando-as como propaganda hostil. Eram sobretudo a Angola Combatente e a Voz Livre de Angola que tiravam o sono às autoridades.
A escuta fazia-se às escondidas: debaixo de camas e secretárias, em campos de futebol, em quintais afastados. O sinal, viajando em onda curta e ricocheteando na ionosfera, ganhava distância mas perdia nitidez, e até as transcrições oficiais registam o esmorecer das frases e o zumbido atmosférico. Coube aos ouvintes preencher os silêncios e completar as frases partidas — e, ao repeti-las, tornarem-se eles próprios emissores. Ouvir era, em si, uma forma de participar na luta.
A história não termina na independência. No lançamento, Moorman sublinhou que a rádio mudou a partir do 27 de Maio de 1977 e confessou surpresa por, em 1975, os quadros que tinham feito a rádio dos movimentos não terem assumido a direcção da emissora oficial — ao contrário do que sucedeu em Moçambique, onde passaram a dirigir a rádio nacional. Segundo a autora, o 27 de Maio alterou também a forma como Agostinho Neto entendia a relação que o Estado devia ter com a rádio.
Professora de Estudos Culturais Africanos na Universidade de Wisconsin-Madison, Moorman é ainda autora de Intonations, sobre música e nação em Luanda, e integra o conselho editorial da plataforma Africa Is a Country. A pesquisa para este livro levou-lhe cerca de uma década e apoiou-se largamente nos arquivos da polícia política portuguesa.

A Angola Combatente e a guerra das ondas
A Angola Combatente era o programa criado pelo Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e transmitido a partir de Brazzaville, na então República do Congo. A Voz Livre de Angola, da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), emitia de Kinshasa. Ambas eram interceptadas e transcritas pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), a polícia política do regime colonial português, que via nessas emissões uma ameaça à ordem instalada. A emissora do Estado colonial era a Emissora Oficial de Angola.





