Antigo locutor da Rádio Nacional e fonte de pesquisa do livro, o jornalista recordou no lançamento a infância marcada pela rádio — e a punição que o deixou sem aparelho. Entre a memória pessoal e a crítica aos arquivos do país, saudou em Frequências Poderosas a história que a sua geração traz, segundo disse, “na cabeça, na memória, nos fragmentos”.
No lançamento de Frequências Poderosas, ocorrido a 19 do corrente mês, na livraria Kiela, em Luanda, Reginaldo Silva recordou o dia em que a mãe, farta de o ver agarrado à rádio em vez de estudar, lhe destruiu o aparelho no quintal.
A cena passa-se nos anos 60, quando teria 15 ou 16 anos. Passava a vida colado ao rádio, a ouvir os programas de música moderna e de rock que então enchiam as emissões, e descurava os estudos. Foi essa a gota de água: a mãe pegou no aparelho, levou-o para o quintal e atirou-o ao chão, destruindo-o por completo. Era um rádio de válvulas, da marca que diz nunca ter esquecido, daqueles que ainda tinham de aquecer e acender uma luz verde antes de funcionar, anteriores à chegada dos transístores. Reginaldo Silva nunca mais teve outro.
A memória serviu-lhe de chave para uma ideia que atravessou toda a intervenção: a de uma geração formada pela rádio. “Nós somos produtos da rádio”, afirmou, lembrando que ele e os seus contemporâneos cresceram quando só havia a rádio para ouvir, ao contrário das gerações mais novas, hoje rodeadas de outros meios.
A sua ligação ao livro, porém, é anterior à leitura. Contactado por Marissa Moorman ainda na fase de pesquisa, por volta de 2011 ou 2012, entregou-lhe a documentação pessoal que guardava sobre a Rádio Nacional, dos tempos em que ali foi quadro e dirigente. Suspeitou então que a investigadora pretendia escrever a história da emissora; estava, confessou, longe de imaginar que daria uma obra de tamanha abrangência, a percorrer a rádio angolana desde os anos 30 até ao presente. Anunciado como apresentador da obra, fez questão de corrigir o rótulo: não tivera tempo de a ler por inteiro e limitaria os comentários aos dois capítulos a que se detivera.
Foi a propósito desses capítulos que elogiou a paciência da autora por trabalhar naquilo a que chamou um ambiente hostil. O reparo abriu para uma crítica mais ampla ao tratamento da memória no país. “Os nossos arquivos são uma desgraça”, resumiu, sustentando que Angola não tem qualquer política de arquivo e que o pouco que sobrou da Rádio Nacional, tanto em documentos como em registos sonoros, é escasso e de má qualidade. Que uma investigadora estrangeira tenha conseguido reconstituir essa história a partir do que restou foi, para si, motivo de admiração e de algum desconforto.
Daí passou a uma reflexão de ofício, sobre a distância entre jornalistas e académicos. Confessou inveja do tempo de que estes dispõem: um académico pode levar 15 anos a escrever um livro, enquanto o jornalista tem de produzir notícias todos os dias e raramente dispõe de mais do que um mês, mesmo no chamado jornalismo de investigação. É esse tempo longo, argumentou, que permite obras como a de Moorman.
Dos dois capítulos que leu, o da Rádio Nacional tocou-lhe de perto. Entrou para a emissora em Outubro de 1975, quando esta ainda abria às seis da manhã e fechava à meia-noite e ele era locutor de continuidade — por vezes o responsável por abrir a antena, a correr de casa quando o carro da estação chegava antes de ele estar pronto. O outro capítulo, sobre a Vorgan, a rádio da UNITA que chegava a Luanda nos anos 80, surpreendeu-o como talvez a primeira sistematização desse “outro lado da barricada”, reconstituído a partir de entrevistas com antigos profissionais da estação.
No fim, recomendou a obra sem reservas, sobretudo aos mais novos. A sua geração, disse, carrega essa história na memória e nos fragmentos, e discute-a; os mais jovens não a podem discutir sem um livro que a fixe, com fontes e método. Prometeu continuar a leitura e enviar à autora as observações mais concretas que lhe fizer.

A Vorgan e a Rádio Nacional
A Rádio Nacional de Angola nasceu da Emissora Oficial, herdada do período colonial, e foi durante décadas instrumento do Estado no quadro de uma estratégia política definida. A Vorgan — Voz da Resistência do Galo Negro — era a estação da UNITA, transmitida das zonas sob controlo do movimento durante a guerra civil e captada em Luanda ao longo dos anos 80. Encerrada no quadro dos acordos de paz, foi mais tarde reconvertida em rádio comercial. Os dois capítulos do livro a que Reginaldo Silva se deteve tratam, respectivamente, de cada uma destas emissoras.




