Cinco vezes adiada. O que está em jogo na maior privatização da história da BODIVA

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Operação de 15% do capital social aproxima-se da janela formal de execução. Capital reforçado em mais de mil vezes para Kz 250 mil milhões, lucros que dispararam 59% e adiamentos sucessivos definem o pano de fundo. Com 20,8 milhões de clientes e 76% do mercado móvel, a operadora chega à bolsa num momento decisivo para o PROPRIV 2023-2026

A privatização parcial da Unitel pode tornar-se a maior operação de mercado de capitais alguma vez realizada em Angola. Com a desmaterialização das acções concluída na Central de Valores Mobiliários de Angola (CEVAMA) no início de Junho e o capital social reforçado de Kz 140 milhões para Kz 250 mil milhões, a Oferta Pública de Venda de 15% do capital da operadora líder de telecomunicações entra na fase final de preparação. Resta saber se o calendário oficial — Junho a Setembro de 2026 — resistirá ao histórico de adiamentos sucessivos que marcou o processo.

Desde Outubro de 2022, quando o Governo de João Lourenço nacionalizou as participações de Isabel dos Santos (via Vidatel, 25%) e do general Leopoldino Fragoso do Nascimento, conhecido como “Dino” (via Geni, 25%), a Unitel passou a ser detida na totalidade pelo Estado angolano. A estrutura accionista actual divide-se em 50% sob gestão do Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado (IGAPE) e 50% sob a esfera Sonangol, esta última consolidada em 2020 com a aquisição da participação da brasileira Oi por 939 milhões de dólares.

O despacho presidencial de 23 de Agosto de 2024 formalizou a alienação de 15% do capital através de oferta pública na BODIVA, com 2% reservados aos trabalhadores e membros dos órgãos sociais da empresa. A operação foi inicialmente prevista para o primeiro semestre de 2025 e tem sofrido sucessivos adiamentos: em Outubro de 2025, o secretário de Estado para as Finanças e Tesouro, Ottoniel dos Santos, garantiu à Lusa, à margem das Reuniões Anuais do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, que a operação estaria “certamente” fechada no primeiro trimestre de 2026. Em Setembro de 2025, o presidente do IGAPE, Álvaro Fernão, recusou avançar prazos concretos, explicando que o prazo para a conclusão do processo só termina em 2026. A janela actualmente sinalizada — entre Junho e Setembro de 2026 — emerge da preparação técnica em curso e foi confirmada na sequência da conclusão da desmaterialização.

O sinal mais forte: capital reforçado em mais de mil vezes

O passo técnico mais relevante das últimas semanas é o aumento de capital. Em deliberação aprovada em Abril, a Unitel decidiu elevar o capital social de Kz 140 milhões para Kz 250 mil milhões — multiplicando-o por mais de mil — através da incorporação de reservas livres acumuladas. A operação visa alinhar os capitais próprios com a dimensão real do negócio antes da admissão à negociação. Segundo a administração, a empresa dispõe de volume significativo de reservas que permite robustecer o balanço sem impacto na liquidez.

O reforço de capital sinaliza ao mercado que a OPV não é mais uma intenção mas um processo em fase de execução. Operações desta natureza costumam preceder em poucos meses a aprovação dos prospectos pela Comissão do Mercado de Capitais (CMC). O plano de marketing e a documentação necessária estão, segundo fontes da administração da Unitel citadas pela imprensa especializada, em fase avançada de preparação.

Os números que sustentam a operação

A Unitel chega à bolsa numa posição financeira que se reforçou de forma muito significativa em 2025. Os lucros da Unitel dispararam 59% ao passar de 99,4 mil milhões de kwanzas, em 2024, para 158,4 mil milhões de kwanzas em 2025, influenciados pelas receitas com a alienação de 15% da sua participação no Banco de Fomento de Angola e pela distribuição de dividendos daquele que é o segundo maior banco em activos do sistema financeiro nacional.

Face a 2024, os resultados operacionais da maior operadora da rede móvel em Angola mais do que triplicaram (+288%), ao passar de 17 mil milhões para 66 mil milhões de kwanzas, como consequência de um maior crescimento dos proveitos operacionais, na ordem dos 31% para 505,3 mil milhões. A operadora atribui esta evolução ao “reposicionamento comercial” e à optimização dos recursos de redes, com base em investimentos realizados nos três anos anteriores.

A base de clientes atingiu 20,8 milhões no final de 2025, mais 746 mil utilizadores que em 2024, mantendo uma quota de mercado de 76% no segmento móvel — alguns pontos percentuais abaixo do peso de 2024, à medida que a concorrência da Africell se intensifica. Os accionistas aprovaram para 2025 uma política de dividendos correspondente a 25% dos resultados líquidos, sendo o remanescente retido para financiar investimentos e reforçar a posição financeira no contexto da entrada em bolsa.

A leitura crítica que o mercado fará

Há, no entanto, sinais que os investidores tenderão a escrutinar com cuidado. Em 2023, primeiro ano completo após a nacionalização, os resultados operacionais da Unitel caíram 82% para apenas Kz 8,1 mil milhões — cerca de 9,8 milhões de dólares à taxa de câmbio do final do período — pressionados por aumento de amortizações e custos operacionais. A recuperação foi rápida, mas estabelece uma referência sobre a volatilidade do negócio core.

Acresce uma questão estrutural. Em 2024, os Kz 17 mil milhões de resultados operacionais representaram menos de 20% do lucro total da empresa nesse ano. Uma parte substancial da rendibilidade da Unitel decorre da participação de 51,9% que detém no BFA — banco que, por sua vez, foi parcialmente privatizado em Setembro de 2025, com a Unitel a alienar 15% dos seus 49% no BFA. Quando os investidores avaliarem a Unitel, terão de separar o desempenho da operadora de telecomunicações do contributo financeiro do banco. Em 2025, esta dependência amenizou-se com o crescimento operacional, mas continua a ser um vector de risco para a tese de investimento.

A operação enfrenta também constrangimentos regulatórios. A exigência de número de identificação fiscal angolano (NIF) e de representação fiscal local pode limitar a participação de investidores estrangeiros e condicionar a desejada dispersão accionista. Esta foi, aliás, uma das observações que a OPV do BFA já tinha tornado evidente.

A referência BFA e o que ela ensina

A operação do BFA é, para todos os efeitos, o melhor enquadramento disponível para calibrar expectativas. Realizada entre 5 e 25 de Setembro de 2025, envolveu a venda de 29,75% do capital — 15% pela Unitel e 14,75% pelo BPI, no quadro do mecanismo de tag along — a um intervalo de preços entre Kz 41.500 e Kz 49.500 por acção. O preço final fixou-se no topo do intervalo. A arrecadação totalizou cerca de 242 milhões de dólares (Kz 220 mil milhões), com uma procura cinco vezes superior à oferta e cerca de oito mil novos accionistas. As acções fecharam o primeiro dia de negociação a Kz 61.875, mais 25% que o preço de OPV, e atingiram um pico de Kz 124.000 (+151%) ao sexto dia.

Se a Unitel replicar a mecânica do BFA em termos de rácio procura-oferta e ampliar a base de subscritores, a operação pode comodamente ultrapassar os 242 milhões de dólares e tornar-se a maior alguma vez realizada na BODIVA. Esse desfecho está, contudo, sujeito a um conjunto de variáveis: a faixa de preço a ser definida no prospecto, a calibragem entre tranche institucional e retalho, o sucesso do roadshow internacional e a evolução do quadro cambial e da inflação ao longo das próximas semanas.

O efeito sistémico no mercado

A entrada da Unitel elevará para seis o número de empresas cotadas no Mercado de Bolsa de Acções, actualmente composto pelo BAI, BFA, BCGA, ENSA e a própria BODIVA. O perfil sectorial do mercado, hoje concentrado em instituições financeiras e numa entidade gestora, ganha pela primeira vez exposição directa ao sector das telecomunicações, o que pode atrair categorias de investidores até agora não posicionadas na BODIVA — em particular fundos especializados em telecomunicações africanas e investidores institucionais com mandatos sectoriais diversificados.

Os indicadores do mercado em Abril de 2026, último mês com dados consolidados, mostram um terreno preparado para absorver a operação. O volume negociado nos mercados da BODIVA atingiu Kz 817,66 mil milhões, mais 10,79% que no mês anterior. O número de investidores activos cresceu 140,82% em apenas um mês, para 4.549, dos quais 90,44% particulares. A capitalização bolsista situou-se em Kz 4,4 biliões. Em Maio e início de Junho, a tendência foi de estabilização, com sinais ligeiramente positivos nas cotações do BCGA e da própria BODIVA.

A Unitel chega, portanto, num momento de profundidade crescente do mercado, com infra-estrutura técnica e operacional já testada por uma operação de grande escala como a do BFA. O risco maior já não é institucional ou logístico — está sobretudo na sintonia entre o calendário do IGAPE, a aprovação do prospecto pela CMC e a janela cambial e macroeconómica que melhor sirva os interesses do oferente público e dos investidores.


Cronologia dos adiamentos

A privatização parcial da Unitel sofreu sucessivas reprogramações desde 2019, quando foi inscrita pela primeira vez no PROPRIV 2019-2022. Em Novembro de 2023, num roadshow em Lisboa, o IGAPE prorrogou a operação para 2025. Em Março de 2025, a tutela das Finanças inscreveu a Unitel no lote do primeiro semestre desse ano, a par do BFA e da TV Cabo. Em Setembro de 2025, com a OPV do BFA já em curso, Álvaro Fernão recusou avançar datas concretas para a Unitel. Em Outubro de 2025, o secretário de Estado Ottoniel dos Santos comprometeu-se com o primeiro trimestre de 2026. Em Março de 2026, a Comissão Inter-Ministerial situou a operação no final do primeiro semestre. A janela Junho-Setembro de 2026 corresponde, portanto, ao calendário de execução resultante da última reprogramação.

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