Dos 15 actos de concentração notificados, apenas um teve um adquirente angolano. O dado reaviva o debate sobre a capacidade do capital nacional de competir nas grandes operações de M&A.
O Boletim Estatístico de Controlo de Concentrações da ARC revela que 93% dos actos de concentração notificados no exercício de 2025 envolveram adquirentes de proveniência internacional. O dado reacende o debate sobre a capacidade do empresariado angolano de competir em operações de fusão e aquisição de grande porte.
Dos 15 actos de concentração notificados à Autoridade Reguladora da Concorrência (ARC) ao longo de 2025, 14 tiveram como adquirentes empresas estrangeiras. A única excepção foi o consórcio formado pela Griner, Cimenfort e Mercons, que adquiriu a CIF Ciment/Logística, no sector de materiais de construção — uma operação notificada em Outubro.
A lista de adquirentes internacionais inclui empresas de oito países: França, Alemanha, Omã, Irlanda, Emirados Árabes Unidos, Reino Unido, Espanha e, numa operação conjunta, Irlanda e Reino Unido. Em termos de frequência, os Emirados Árabes Unidos e o Reino Unido destacam-se com três operações cada, seguidos da França, Alemanha, Irlanda e Omã, com duas cada.
Um padrão que se consolida
O predomínio do capital estrangeiro nas operações de concentração em Angola não é um fenómeno novo, mas os dados de 2025 acentuam uma tendência que se vinha a desenhar nos exercícios anteriores. A proporção de 93% de adquirentes internacionais constitui um dos registos mais elevados desde que a ARC começou a publicar estes dados, em 2019.
Este cenário reflecte, em parte, a própria natureza dos sectores mais activos em operações de M&A no mercado angolano. O petróleo e gás, que concentrou 27% dos actos notificados, e o sector mineiro, com 20%, são indústrias historicamente dominadas por operadores multinacionais com capacidade financeira e técnica para executar transacções de grande escala. Das sete operações nestes dois sectores, nenhuma envolveu um adquirente angolano.
Barreiras ao capital nacional
A ausência quase total de adquirentes nacionais nas operações de concentração levanta questões que ultrapassam a simples leitura dos números. Entre os factores frequentemente apontados por analistas e operadores do mercado angolano encontram-se o acesso limitado a financiamento de longo prazo para operações de M&A, a ainda incipiente cultura de crescimento por aquisição entre os grupos empresariais angolanos, as exigências regulatórias e de compliance que elevam os custos de transacção, e a concorrência directa com multinacionais que dispõem de estruturas jurídicas e financeiras consolidadas para este tipo de operação.
É relevante notar que a única operação com adquirente nacional envolveu um consórcio — ou seja, a junção de três empresas angolanas para alcançar a escala necessária à transacção. Este formato pode indicar um caminho possível para o empresariado local: a articulação colectiva como estratégia para competir num mercado de M&A dominado por players globais.
Investimento estrangeiro: atracção ou dependência?
A leitura dos dados admite duas perspectivas. Por um lado, o forte interesse de adquirentes internacionais em activos angolanos pode ser interpretado como um sinal positivo de confiança no mercado e no ambiente regulatório do país. A diversidade geográfica dos investidores — com presença de capitais europeus e do Médio Oriente — sugere que Angola continua a figurar no radar de diferentes centros financeiros globais.
Por outro lado, a concentração quase exclusiva do lado comprador em mãos estrangeiras suscita questões sobre a transferência de valor. Em muitas destas operações, os activos transaccionados — concessões petrolíferas, participações em empresas mineiras, infraestruturas logísticas — representam recursos estratégicos cuja propriedade migra para fora do perímetro do capital nacional.
A ARC sublinha, no boletim, que o processo de análise é uniforme independentemente da proveniência das partes. A questão que se coloca, porém, não é de tratamento regulatório, mas de política económica mais ampla: que instrumentos existem — ou devem ser criados — para que o sector privado angolano tenha condições de participar, como adquirente, nas grandes operações que moldam a estrutura do mercado nacional?
Os dados de 2025 não oferecem, por si só, uma resposta. Mas tornam a pergunta cada vez mais difícil de ignorar.





