Variação em cadeia subiu de 0,52 por cento em Junho, no mesmo mês em que a taxa homóloga desceu para 9,33 por cento — a primeira leitura de um só dígito em mais de onze anos de série. Nota de imprensa do INE não divulga a variação mensal; o valor resulta do cálculo a partir do índice publicado pelo próprio instituto
A inflação mensal em Angola acelerou para 0,75 por cento em Julho, o valor mais alto de 2026, no mesmo mês em que a taxa homóloga caiu para 9,33 por cento.
O Índice de Preços no Consumidor Nacional passou de 264,79 pontos em Junho para 266,78 em Julho, na base Dezembro de 2020 igual a 100, o que corresponde a uma subida de 0,75 por cento num único mês. A nota de imprensa divulgada pelo Instituto Nacional de Estatística não apresenta a variação mensal, limitando-se a reportar a variação homóloga e as suas decomposições por classe de despesa e por província. O valor resulta do cálculo directo sobre a série de índices publicada no próprio documento — o mesmo método que o instituto aplica nas suas folhas de informação rápida, onde a variação mensal é divulgada, e que sustenta os 0,52 por cento de Junho citados pelo Banco Nacional de Angola.
O ritmo mensal manteve-se contido durante o primeiro semestre. Depois de 0,68 por cento em Janeiro, a variação em cadeia oscilou entre 0,52 e 0,58 por cento nos cinco meses seguintes, com Fevereiro e Junho a registarem os valores mais baixos, de 0,52 por cento em ambos os casos. A leitura de Julho quebra essa estabilidade e representa um acréscimo de 0,24 pontos percentuais face ao mês anterior.
A descida da taxa homóloga num mês de aceleração mensal explica-se pelo efeito de base. Em Julho de 2025, os preços tinham subido 1,47 por cento num só mês; ao sair da janela de doze meses e ser substituído por uma variação de 0,75 por cento, esse valor puxa a taxa anual para baixo, ainda que o ritmo corrente de subida de preços tenha aumentado. É este mecanismo, e não uma travagem adicional dos preços em Julho, que explica a desaceleração de 0,78 pontos percentuais anunciada pelo INE.
A mecânica do cálculo não retira, porém, significado ao valor anunciado. Os 9,33 por cento constituem, segundo o INE, a primeira variação homóloga de um só dígito desde que o Índice de Preços no Consumidor Nacional começou a ser compilado sistematicamente, em Janeiro de 2015, ou seja, em mais de onze anos de série. O índice que o antecedeu, iniciado em 1991, cobria apenas a província de Luanda e não é directamente comparável, pelo que não é possível afirmar, a partir das séries do INE, que se trate do valor mais baixo alguma vez registado no país.
A distinção entre ritmo mensal e taxa anual tem consequências para a política monetária. O Banco Nacional de Angola cortou a taxa básica de juro para 15,75 por cento na reunião de 13 e 14 de Julho, em Malanje, invocando a desaceleração consistente da inflação, e reviu nessa ocasião a projecção de inflação para o final do ano, situando-a em 8,6 por cento, com margem de um ponto percentual para cima ou para baixo. Depois de duas revisões em baixa no espaço de dois meses — a meta anual passara de 13,5 para 11,5 por cento em Maio —, os 9,33 por cento de Julho mantêm-se ainda acima da projecção actual do banco central. Mantido o ritmo mensal de Julho ao longo de doze meses, a inflação anualizada situar-se-ia em 9,4 por cento, exercício aritmético que não constitui previsão, mas que ilustra o intervalo em que a variação em cadeia se torna relevante para a leitura da autoridade monetária. O Comité de Política Monetária volta a reunir-se a 14 e 15 de Setembro, em Luanda.
Não é possível, com a informação divulgada, identificar que bens ou serviços estiveram na origem da aceleração mensal. O INE publica as variações por classe de despesa apenas em termos homólogos, pelo que a decomposição do mês de Julho não é apurável a partir da nota de imprensa. Um único mês também não configura, por si, uma inversão de tendência: a taxa homóloga desacelera há 24 meses consecutivos, desde o máximo de 31,09 por cento registado em Julho de 2024.
No acumulado dos primeiros sete meses de 2026, os preços subiram 4,20 por cento, contra 10,27 por cento em igual período de 2025. A média anual, calculada pelo INE como média geométrica dos últimos doze meses, situa-se em 13,72 por cento, contra 20,12 por cento em 2025.
Com a taxa básica de juro em 15,75 por cento e a inflação homóloga em 9,33 por cento, a taxa de juro real ex-post do Banco Nacional de Angola aproxima-se dos 5,9 por cento, um dos níveis mais restritivos do actual ciclo monetário.
O Índice de Preços no Consumidor Nacional é compilado sistematicamente desde Janeiro de 2015 e abrange 18 províncias. Tem origem no Índice de Preços no Consumidor iniciado em 1991, na altura circunscrito a Luanda.





