Operadora confirma incidente às 02h20 desta terça-feira, com impacto nos serviços de voz, dados móveis e acesso à Internet em todo o território nacional. Admissão das acções à negociação na BODIVA mantém-se agendada para quarta-feira, 29 de Julho, um dia depois da liquidação da maior oferta pública alguma vez realizada em Angola
A Unitel ficou sem rede em todo o país na madrugada desta terça-feira, vítima de um ataque cibernético, na véspera da estreia das suas acções na bolsa angolana.
A operadora confirmou, em comunicado divulgado nos seus canais oficiais, que o incidente foi registado a partir das 02h20 de terça-feira, 28 de Julho, e atingiu a sua infra-estrutura tecnológica, com impacto nos serviços de voz, dados móveis e acesso à Internet em todo o território nacional. Segundo a empresa, os mecanismos de resposta e contenção foram activados de imediato, tendo sido mobilizadas as equipas técnicas e de cibersegurança para mitigar os efeitos do incidente e assegurar a reposição dos serviços. Horas após o ataque, a operadora afirmou que os serviços “continuam condicionados”, sem avançar qualquer previsão para o restabelecimento integral da rede.
O incidente atingiu a maior operadora de telecomunicações do país. De acordo com o Relatório e Contas de 2025, a Unitel conta com 20,8 milhões de clientes e detém uma quota de mercado de 76 por cento, operando ainda em São Tomé e Príncipe e em Cabo Verde. A empresa não divulgou, até ao fecho desta edição, a origem do ataque, a natureza da acção cibernética, a extensão do comprometimento dos seus sistemas nem se dados de clientes foram afectados.
A falha ocorreu no dia marcado para a liquidação física e financeira da Oferta Pública de Venda de 15 por cento do capital da operadora, operação enquadrada no Programa de Privatizações. A admissão da totalidade das acções à negociação no Mercado de Bolsa de Acções da Bolsa de Dívida e Valores de Angola está agendada para quarta-feira, 29 de Julho, data a partir da qual os títulos passam a ser livremente transaccionáveis e a Unitel se torna formalmente uma sociedade de capital aberto.
Os resultados da oferta foram apurados em sessão especial de bolsa na segunda-feira, 27 de Julho. O preço final foi fixado em 40.040 kwanzas por acção, o limite máximo do intervalo indicativo, que partia de 36.036 kwanzas. A procura pelas 7.500.000 acções colocadas ascendeu a 9.054.299 títulos, correspondente a um rácio de cobertura de 120,7 por cento. Das 17.549 ordens de subscrição recebidas, foram contempladas 16.571, num total de 11.264 investidores que se tornaram accionistas da operadora. O Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado, que alienou a participação em representação do Estado angolano, encaixou 318 milhões de dólares.
Os efeitos da interrupção fizeram-se sentir de forma transversal. Clientes particulares contactados pela agência Lusa relataram impossibilidade de efectuar chamadas, de aceder à Internet fixa dependente da rede da operadora e de utilizar aplicações de transporte. No tecido empresarial, a indisponibilidade dos sistemas dificultou a facturação, o contacto com clientes e fornecedores e a validação de processos. A responsável de uma clínica descreveu a situação como “uma dor de cabeça”, apontando atrasos em marcações, falhas no contacto com o centro de atendimento e constrangimentos na emissão de facturas e recibos. Algumas empresas recorreram a operadores alternativos para assegurar a continuidade de serviços essenciais.
O comunicado da Unitel foi divulgado várias horas depois do início das perturbações e limitou-se a confirmar a existência do ataque, sem detalhar a sua origem ou extensão. A operadora garantiu que acompanha a situação com prioridade máxima e que continuará a prestar informação sobre a evolução do processo através dos canais oficiais. Até ao momento, nem o regulador do sector das telecomunicações nem as autoridades do mercado de capitais se pronunciaram publicamente sobre o incidente.
A sessão de quarta-feira determinará a primeira cotação das acções da Unitel em mercado regulamentado. A operação encerra o maior processo de dispersão de capital alguma vez conduzido na bolsa angolana, superior à Oferta Pública de Venda do Banco de Fomento Angola, realizada em Setembro de 2025, que arrecadou 242 milhões de dólares.





