Inflação: Angola a um passo do dígito único pela primeira vez em 11 anos

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Queda de 27,5% para 11,58% em menos de 18 meses representa o maior ajustamento de preços do período pós-crise petrolífera. BNA reduz taxa directora e reservas obrigatórias em sinal de crescente confiança na trajectória desinflacionista

A taxa de inflação homóloga em Angola recuou para 11,58% em Abril de 2026, o valor mais baixo em 11 anos, depois de ter encerrado 2025 em 15,7% — já abaixo da meta de 17,50% definida pelo Banco Nacional de Angola (BNA) para o exercício. Os dados foram divulgados pelo governador Manuel António Tiago Dias na abertura da IV Angola Banking Conference, realizada a 27 de Maio em Luanda, confirmando uma trajectória de desaceleração sustentada que, em menos de 18 meses, reduziu a inflação em cerca de 16 pontos percentuais face ao pico de 27,5% registado no final de 2024.

A desaceleração resulta da convergência de três factores identificados pelo BNA: O aumento da oferta de bens de amplo consumo — que por si só contribuiu com 9,78 dos 15,70 pontos percentuais da inflação de Dezembro de 2025, segundo o Relatório Anual do BNA —, a melhoria das condições monetárias e a estabilidade cambial. “Esta evolução favorável resultou fundamentalmente do aumento da oferta de bens de amplo consumo, da melhoria das condições monetárias, bem como da estabilidade cambial verificada ao longo do ano”, afirmou o governador Tiago Dias.

O BNA traduziu a confiança na trajectória em decisões concretas. Ao longo de 2025, o Comité de Política Monetária reuniu-se seis vezes e aprovou a redução da taxa directora em 1,00 ponto percentual, para 18,5%, e do coeficiente de reservas obrigatórias em moeda nacional de 21% para 18%. A taxa overnight do mercado interbancário (LUIBOR), que chegou a valores próximos de 30% em 2024, fechou Dezembro a 18,80%, com uma redução de 3,87 pontos percentuais face ao período homólogo.

O valor registado em Abril de 2026 encerra um ciclo prolongado de instabilidade que marcou a economia angolana desde a crise petrolífera de 2014. A inflação disparou de 7% nesse ano para um pico de 41% em 2016, impulsionada pela depreciação do kwanza e pelo colapso das receitas petrolíferas. A recuperação parcial que se seguiu levou o indicador a 13,8% em 2022, mas a trajectória foi interrompida em 2023 — quando a eliminação dos subsídios aos combustíveis fez subir o preço da gasolina de 160 para 300 kwanzas por litro — e em 2024, com uma nova vaga de pressão cambial, relançando a inflação para os 27,5%, segundo dados do BNA e do Fundo Monetário Internacional.

O ajustamento de 2025 foi o mais acentuado do período compreendido entre 2020 e 2025: a inflação desceu de 27,5% para 15,7%, uma redução de 11,8 pontos percentuais num único exercício, segundo análise da revista A Bolsa com base em dados do BNA. Este comportamento beneficiou de dois factores simultâneos: a política monetária restritiva do BNA, mantida de forma consistente ao longo do ano, e a estabilização do kwanza face ao dólar americano, com variação próxima de zero no final de 2025 — depois do choque de desvalorização de 70,44% registado em 2023.

Projecção de dígito único e implicações para a banca

A perspectiva de inflação em dígito único até ao final de 2026 é já assumida por operadores do mercado. O Standard Bank de Angola estima que a inflação possa atingir 9,9% nos próximos meses. “Há 11 anos que a inflação não se encontrava nos níveis actuais”, salientou Luís Teles, presidente do conselho executivo da instituição, acrescentando que a chegada a esse patamar obrigará o sector bancário a repensar um modelo de negócio construído sobre margens financeiras elevadas e taxas de juro estruturalmente altas.

O stock de crédito à economia fechou 2025 em 7.975.358 milhões de kwanzas, representando crescimento acumulado de cerca de 66% face a 2021, segundo o Relatório Anual do BNA. Contudo, a expansão desacelerou em 2025, com o crédito praticamente estagnado face ao ano anterior, num contexto de taxas de juro ainda elevadas e maior selectividade na concessão. O governador revelou que o crédito registou expansão de cerca de 15% em termos homólogos em Abril de 2026, sinal de que o ciclo de desaceleração do crédito poderá estar a reverter.

Com a inflação a aproximar-se do objectivo histórico do BNA — abaixo dos 10% — o sector financeiro confronta-se com a possibilidade concreta de um novo ciclo de redução das taxas de juro que pressionará adicionalmente as margens de intermediação da banca, acelerando a necessidade de diversificação das fontes de receita.

O peso da alimentação na inflação angolana

Em Dezembro de 2025, a rubrica Alimentação e Bebidas Não Alcoólicas contribuiu com 9,78 pontos percentuais dos 15,70 pontos percentuais da inflação homóloga total, correspondendo a mais de 62% do indicador global. As restantes categorias de bens e serviços tiveram contribuições individuais inferiores a 1,15 pontos percentuais. Este perfil revela a exposição estrutural da inflação angolana à disponibilidade e ao preço dos bens de consumo básico, reflectindo a dependência das importações alimentares e os efeitos das variações cambiais sobre o custo de vida. Fonte: Relatório Anual e Contas do BNA — 2025.

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