O montante das transacções de concentração caiu 88% face a 2024. Mas o número de operações até subiu. O que explicam os dados?
Depois de um exercício atípico em 2024, em que o valor total transaccionado nos actos de concentração atingiu 28,7 biliões de Kwanzas, o ano de 2025 registou um montante de 3,4 biliões — uma contracção de 88%. O número de operações, porém, subiu de 14 para 15. A aparente contradição entre mais negócios e menos valor convida a uma leitura mais cuidada dos dados.
A Tabela 1 do Boletim Estatístico de Controlo de Concentrações (BECC) da ARC oferece uma perspectiva histórica reveladora. Entre 2019 e 2023 — um período de cinco anos —, o valor acumulado das transacções nos actos de concentração apreciados pela ARC totalizou 8,362 biliões de Kwanzas, distribuídos por 58 operações. Em 2024, um único exercício registou 28,751 biliões de Kwanzas em 14 operações — mais do que o triplo do acumulado dos cinco anos anteriores.
O exercício de 2025 trouxe um regresso a patamares mais próximos da média histórica: 3,442 biliões de Kwanzas em 15 transacções.
O que explica a discrepância
A queda acentuada no valor das transacções entre 2024 e 2025 deve ser contextualizada à luz da composição das operações em cada exercício. O montante excepcionalmente elevado de 2024 sugere a presença de uma ou mais operações de valor unitário muito elevado — possivelmente no sector petrolífero ou financeiro — que inflacionaram o total do exercício.
Em 2025, embora o número de operações tenha até registado um ligeiro aumento (de 14 para 15, uma variação de 7%), o perfil das transacções aponta para negócios de dimensão média ou inferior. Os sectores predominantes — petróleo e gás (4 operações), mineiro (3), e uma dispersão de operações únicas em sectores como o agrícola, o comércio, a construção e saúde, os jogos e os transportes — são compatíveis com um universo de transacções de escala mais contida.
Valor médio por transacção: uma queda expressiva
A análise do valor médio por operação torna a dimensão da contracção ainda mais evidente. Em 2024, o valor médio por transacção situou-se em cerca de 2,054 biliões de Kwanzas. Em 2025, esse indicador recuou para aproximadamente 229 mil milhões de Kwanzas — uma redução de quase 89% no valor médio unitário.
Este dado reforça a hipótese de que 2024 foi marcado por operações de dimensão excepcional, e que 2025 representa um retorno a um padrão mais consistente com o histórico do mercado angolano de M&A.
Para referência, o valor médio por transacção no período 2019-2023 situou-se em cerca de 144 mil milhões de Kwanzas (8,362 biliões distribuídos por 58 operações). O valor médio de 2025, embora superior a esta média de longo prazo, está numa ordem de grandeza comparável — ao contrário do registo excepcional de 2024.
Mais operações, menos concentração de valor
Um aspecto que merece destaque é a maior dispersão sectorial das operações em 2025. Enquanto os exercícios anteriores tenderam a concentrar o valor num número reduzido de grandes negócios, o perfil de 2025 revela uma base mais diversificada: 10 sectores diferentes estiveram representados nos 15 actos notificados.
Esta dispersão pode ser lida como um sinal de amadurecimento do mercado de M&A em Angola. Um ecossistema onde as operações de concentração ocorrem em múltiplos sectores — e não apenas nos tradicionais petróleo e mineração — indica uma economia em que a actividade de fusões e aquisições começa a permear outros segmentos, como o comércio, os transportes, os jogos ou a defesa e segurança.
Receitas da ARC: um indicador complementar
A arrecadação total da ARC com a apreciação dos actos de concentração atingiu 58 milhões de Kwanzas em 2025, com uma distribuição trimestral marcadamente assimétrica: 7,2 milhões no primeiro trimestre, 10,9 milhões no segundo, 21,8 milhões no terceiro e 18,1 milhões no quarto. A concentração de receitas no segundo semestre reflecte o calendário das notificações, com 10 dos 15 actos notificados entre Julho e Dezembro.
Dos 58 milhões arrecadados, 60% reverteram a favor da ARC e 40% — equivalentes a 23,2 milhões de Kwanzas — foram alocados à Conta Única do Tesouro, em conformidade com o modelo de financiamento da autoridade reguladora.
Arrefecimento ou ciclo natural?
A resposta à questão que abre este artigo depende da perspectiva adoptada. Se o ponto de comparação for 2024, a queda de 88% no valor transaccionado pode sugerir um arrefecimento significativo do interesse dos investidores em activos angolanos. Se, contudo, a referência for a média dos cinco anos anteriores (2019-2023), o exercício de 2025 surge como uma normalização — com um valor total inferior ao acumulado desse quinquénio, mas com um valor médio por operação superior.
O aumento no número de operações, a diversificação sectorial e a manutenção do tempo médio de análise em patamares eficientes (71 dias, abaixo dos 120 dias do prazo legal) apontam para um mercado que, apesar da contracção em valor, permanece activo e funcional.
O que os números de 2025 sugerem não é tanto um arrefecimento do mercado, mas antes o fim de um ciclo excepcionalmente concentrado em valor — e, possivelmente, o início de uma fase em que a actividade de M&A em Angola se distribui de forma mais equilibrada, tanto em termos sectoriais como em escala das operações.
O tempo — e os dados dos próximos exercícios — dirá se esta leitura se confirma.





