EUA ameaçam aumentar pressão económica sobre o Irão e dizem ter capacidade para manter bloqueio naval por tempo indeterminado
Ataques a dois navios dos Emirados agravam riscos para uma rota responsável por cerca de um quinto dos fluxos mundiais de petróleo e gás natural liquefeito
O tráfego marítimo no Estreito de Ormuz aproximou-se de uma paralisação esta sexta-feira, depois de dois novos ataques a navios e da ameaça dos Estados Unidos de intensificarem a pressão económica sobre o Irão. Os Emirados Árabes Unidos acusaram Teerão de atacar dois navios da Abu Dhabi National Oil Company (ADNOC) que atravessavam o estreito.
A ADNOC confirmou que as suas duas embarcações foram atacadas na quinta-feira à noite, enquanto transitavam pela passagem marítima. O Governo dos Emirados responsabilizou o Irão pelos ataques, mas Teerão não apresentou, até ao momento, uma resposta imediata às acusações. Não foram registadas vítimas nos incidentes.
Os dados da empresa de monitorização marítima Kpler mostram a dimensão da redução do tráfego. Na sexta-feira, apenas duas embarcações tinham atravessado o estreito segundo os dados disponíveis: um navio de cereais a entrar em águas iranianas e um navio de carga seca vazio a fazer o percurso contrário. Não foram identificados carregamentos de petróleo bruto a atravessar Ormuz nesse período.
Na quinta-feira, nove embarcações atravessaram a passagem, contra cinco na quarta-feira e uma média diária de 12 durante Agosto. O volume permanece, contudo, muito abaixo dos mais de 130 navios que atravessavam diariamente o Estreito de Ormuz antes do início da guerra entre os Estados Unidos, Israel e Irão, em Fevereiro.
A paralisação representa um risco significativo para o mercado energético mundial. Antes da guerra, cerca de um quinto dos fluxos mundiais de petróleo e gás natural liquefeito passava pelo estreito, tornando a sua interrupção uma das principais ameaças ao abastecimento internacional de energia.
Washington, entretanto, afirma estar preparado para prolongar a pressão sobre Teerão. O secretário da Defesa norte-americano, Pete Hegseth, declarou que a Marinha dos Estados Unidos possui capacidade para manter indefinidamente a presença necessária para executar o bloqueio naval contra o Irão, através da rotação de navios na região.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou igualmente novas medidas económicas contra Teerão. Segundo o responsável, Washington deverá apresentar na próxima semana medidas que descreveu como uma forma de isolamento económico sem precedentes contra um país.
A pressão ocorre num contexto de impasse diplomático. Uma fonte iraniana afirmou esta semana que não houve progressos nas negociações destinadas a recuperar o acordo de Junho que previa o fim da guerra. Desde o colapso do cessar-fogo, o Irão retomou ataques contra navios que acusa de tentar atravessar Ormuz sem autorização.
Teerão mantém a posição de que o estreito não será reaberto enquanto as suas condições não forem satisfeitas, incluindo o levantamento das sanções económicas e a libertação de activos iranianos congelados. Um plano aprovado por uma comissão do Parlamento iraniano prevê ainda restrições à passagem de navios, equipamentos e activos pertencentes aos Estados Unidos, Israel e outros países considerados hostis.
A crise já afecta os preços da energia. Na sexta-feira, o petróleo Brent era negociado em torno dos 87 dólares por barril, enquanto o West Texas Intermediate (WTI) rondava os 81 dólares. A pressão sobre os preços ocorre apesar das expectativas de menor crescimento da procura mundial e do aumento das reservas de petróleo nos Estados Unidos.
A redução das exportações através do Golfo está também a obrigar compradores asiáticos a procurar alternativas. A Índia aumentou para níveis recorde a sua dependência do petróleo russo em Julho, enquanto refinarias asiáticas compraram petróleo norte-americano para garantir fornecimentos futuros.
A continuação do bloqueio poderá aumentar os custos de transporte, pressionar a inflação e reduzir o crescimento económico mundial. Economistas já alertam que uma guerra prolongada, acompanhada por uma interrupção significativa dos fluxos energéticos, poderá empurrar algumas economias para a recessão.
A quase paralisação de Ormuz transforma o estreito num dos principais pontos de pressão da crise entre Washington e Teerão, com o risco de uma interrupção prolongada do tráfego a ameaçar o abastecimento energético e a estabilidade da economia mundial.





