OMS regista mais de 900 ataques contra instalações, profissionais e pacientes entre Janeiro e Agosto
Incidentes provocaram pelo menos 900 mortes e mais de 1.400 feridos, segundo dados apresentados pela organização
Os ataques contra instalações de saúde, profissionais e pacientes em zonas de conflito ultrapassaram uma média de quatro por dia em 2026, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apresentados esta sexta-feira em Genebra. Entre Janeiro e Agosto, foram registados mais de 900 ataques, responsáveis por pelo menos 900 mortes e mais de 1.400 feridos.
A Ucrânia, o Líbano e o território palestiniano ocupado concentram a maior parcela dos incidentes documentados. A OMS indicou, contudo, que também foram registados ataques no Irão, Sudão, Myanmar, Síria, Nigéria e República Democrática do Congo.
Segundo Altaf Musani, director da OMS para a gestão humanitária e de catástrofes, a violência assume diferentes formas, incluindo bombardeamentos, destruição de instalações médicas e detenção ou rapto de profissionais e pacientes. Desde o início do ano, 94 profissionais de saúde foram detidos, de acordo com os dados apresentados pela organização.
Em Gaza, todos os 36 hospitais foram danificados e apenas cerca de metade continua parcialmente funcional. No Sudão, 37% das instalações de saúde são consideradas não funcionais este ano, reflectindo o impacto dos conflitos sobre a capacidade de prestação de cuidados.
Na Ucrânia, a OMS verificou mais de 3.100 ataques contra serviços de saúde desde o início da invasão russa em grande escala, incluindo 156 incidentes em 2026. Os ataques afectaram hospitais, ambulâncias, armazéns e cadeias de fornecimento de material médico.
O impacto dos ataques prolonga-se para além dos danos físicos. Um estudo da OMS sobre 69 ataques no noroeste da Síria concluiu que as consultas ambulatórias diminuíram 51% imediatamente depois de um ataque e permaneceram abaixo dos níveis anteriores durante mais de um mês.
A destruição ou interrupção dos serviços de saúde também pode dificultar a resposta a surtos de doenças. Na República Democrática do Congo, 12 ataques verificados desde a declaração de um surto de Ébola, em Maio, afectaram actividades de vigilância, rastreio de contactos, tratamento e mobilização comunitária.
A OMS contabiliza, desde o início do seu sistema de monitorização, em 2018, mais de 10.400 ataques verificados em 29 países e territórios. Esses incidentes provocaram aproximadamente 5.700 mortes e mais de 8.500 feridos.
Apesar da dimensão dos números, a organização afirma que nenhum dos mais de 10.000 ataques verificados entrou até agora num processo de responsabilização. A OMS recorda que as instalações e os profissionais de saúde estão protegidos pelo direito internacional humanitário e pelas Convenções de Genebra.
O aumento dos ataques coloca uma pressão adicional sobre sistemas de saúde que, em muitos dos territórios afectados, já funcionam com recursos limitados. A perda de hospitais, ambulâncias e profissionais reduz a capacidade de responder não apenas aos feridos da guerra, mas também a doenças comuns e emergências de saúde pública.
A escalada dos ataques contra os serviços de saúde evidencia que os conflitos armados estão a comprometer directamente a capacidade de prestação de cuidados, com efeitos que podem prolongar-se muito para além dos episódios de violência.





