Presidente do Standard Bank Angola diz que receitas da banca são “anormalmente altas” e não sustentáveis

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Instituição estima inflação de 9,9% até ao final do ano; sector registou ROE de 27,76% e lucros de 951,44 mil milhões de kwanzas em 2025. Luís Teles defende que banca deve alinhar crédito com sectores que aceleram o PIB e criação de emprego formal

O sector bancário angolano registou em 2025 o melhor desempenho dos últimos quatro anos em termos de resultados: o lucro agregado ascendeu a 951,44 mil milhões de kwanzas, um crescimento de 34,06% face a 2024, e o ROE subiu de 24,79% para 27,76%, segundo dados do Relatório Anual do BNA. O produto da actividade bancária cifrou-se em 2,38 biliões de kwanzas, crescimento de 13,21% em termos homólogos. O activo total do sector atingiu 26,59 biliões de kwanzas, com crescimento de 12,06%.

Luís Teles, presidente do conselho executivo do Standard Bank de Angola, disse publicamente, na IV Angola Banking Conference realizada a 27 de Maio em Luanda, que esses números não devem iludir: “Nós não temos uma elevada rentabilidade, nós temos é receitas anormalmente altas. E temos receitas anormalmente altas porque a margem financeira que os bancos têm, devido às altas taxas de juro, faz com que assim o seja.” O comunicado de imprensa divulgado pelo Standard Bank de Angola no contexto da conferência reforça a posição: “Esta realidade poderá obrigar o sector a repensar o seu modelo de negócio, numa altura em que a diversificação das actividades se torna relevante para garantir a sustentabilidade da banca.”

O pano de fundo é a trajectória de desinflação em curso. A inflação recuou de 27,5% em 2024 para 15,7% em Dezembro de 2025 e para 11,58% em Abril de 2026, segundo dados divulgados pelo governador do BNA, Manuel António Tiago Dias, na mesma conferência. O Standard Bank estima que a inflação possa atingir 9,9% até ao final do ano — o que seria o nível mais baixo em 11 anos. “Há 11 anos que a inflação não se encontrava nos níveis actuais”, afirmou Teles. As taxas de juro activas praticadas nas operações ao sector empresarial em moeda nacional oscilaram em 2025 entre 18,33% e 20,14% ao ano, segundo o BNA. As taxas passivas oscilaram entre 7,66% e 11,23%.

Crédito deve acompanhar diversificação da economia

Sobre a orientação do crédito, Teles defendeu no comunicado de imprensa que “a banca deve alinhar a sua estratégia de concessão de crédito com a composição da economia nacional e com os sectores que efectivamente aceleram o crescimento do PIB de Angola, sendo necessário ter em consideração os sectores que, actualmente, impulsionam o dinamismo económico e contribuem para a criação de emprego formal.” Identificou os investimentos em infra-estruturas, energia, logística e transportes como sectores que “devem beneficiar de maior apoio financeiro da banca, por serem fundamentais para criar melhores condições de produção e distribuição de bens e serviços.” Apontou igualmente o sector agrícola, “emergente, que a banca deve continuar a procurar financiar de forma sustentável, o que permitirá impulsionar a produção local, sobretudo de bens com maior impacto no Índice de Preços no Consumidor.”

Os dados do BNA evidenciam a distância entre esse objectivo e a realidade actual. O crédito não produtivo representou 54,38% do stock total de crédito à economia em 2025. O rácio de transformação — que mede a proporção dos depósitos convertida em crédito — situou-se em 46,11%, acima dos 43,61% de 2024 mas ainda abaixo do que corresponderia a uma intermediação financeira mais activa. O crédito vencido malparado, embora em descida, fixou-se em 1,4 biliões de kwanzas, representando um rácio de incumprimento de 15,78% face aos 19,20% registados em 2024.

Confiança, previsibilidade fiscal e transformação digital como condições

Teles identificou três condições para que a banca possa financiar mais e melhor a economia: “reforçar a confiança na economia, através da garantia de previsibilidade fiscal, estabilidade regulatória e estabilidade cambial.” Para o futuro competitivo do sector, defendeu “uma visão assente em horizontes temporais, com maior investimento nas pessoas, na transformação digital, na aceleração da inclusão financeira e na sofisticação dos produtos e serviços bancários.”

O rácio de fundos próprios regulamentares do sector situou-se em 23,16% em 2025, acima do mínimo de 8% exigido pelo BNA, reflectindo a solidez de capital. O sector empregava 18.185 colaboradores e contava com 1.407 agências bancárias e 7.043 agentes bancários distribuídos pelo território nacional. O Standard Bank de Angola opera com uma rede de 16 agências, 62 agentes bancários e 151 ATM distribuídos por 8 províncias, segundo dados do comunicado de imprensa da instituição.

Principais indicadores do sector bancário angolano — 2025

Activo total: 26,59 biliões de kwanzas (+12,06%). Resultado líquido agregado: 951,44 mil milhões de kwanzas (+34,06%). Produto da actividade bancária: 2,38 biliões de kwanzas (+13,21%). ROE: 27,76% (face a 24,79% em 2024). ROA: 3,79% (face a 3,01% em 2024). Rácio de fundos próprios regulamentares: 23,16%. Rácio de incumprimento: 15,78% (face a 19,20% em 2024). Rácio de transformação: 46,11%. Crédito à economia: 8,98 biliões de kwanzas. Fonte: BNA, Relatório Anual e Contas 2025.

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