Angola designa Torre de Água Lisima como primeiro sítio Ramsar do país

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Zona húmida no Moxico com 53.000 km² alimenta Delta do Okavango e planícies do Zambeze

Angola designou, no presente mês de janeiro, a Torre de Água Lisima Lya Mwono, na província do Moxico, como primeiro Sítio Ramsar do país, reconhecendo a zona húmida como área de importância internacional. O território de 53.000 quilómetros quadrados, registado como sítio número 2.584 na Lista Ramsar, constitui bacia hidrográfica fundamental que alimenta sistemas fluviais de importância regional, incluindo o Delta do Okavango e as planícies de cheia do Zambeze.

A área, localizada nos planaltos centrais e sudeste de Angola dentro da região biogeográfica do Zambeze, abrange os municípios do Alto Cuito, Cangamba, Cangumbe, Lutembo, Lutuai e parte do Luena, com altitudes entre 1.142 e 1.681 metros acima do nível do mar.

A hidrologia do sítio é moldada por solos arenosos profundos que filtram a precipitação em riachos claros de baixo teor mineral. Este sistema de águas subterrâneas suporta extensas florestas de miombo e turfeiras numa área superior a 110.000 quilómetros quadrados, constituindo a maior zona de floresta de miombo intacta em África.

A água fornecida pela torre de água alimenta zonas húmidas perenes no Delta do Okavango, nos pântanos de Linyanti, nas planícies de cheia de Barotse e outras zonas húmidas ao longo dos rios Cuito, Cuando e Zambeze, conferindo à área papel central na manutenção de sistemas hidrológicos de importância regional e global.

Levantamentos científicos registaram na Torre de Água Lisima 92 espécies de peixes, 64 espécies de répteis, 34 espécies de anfíbios, 407 espécies de aves e 58 espécies de mamíferos. Estudos recentes revelaram 73 novas espécies para a ciência, com potencial de pelo menos 275 espécies nunca anteriormente registadas em Angola.

A área apresenta diversidade excepcional de água doce, com mais de 18 espécies de peixes endémicas ou quase endémicas, várias das quais podem ser novas para a ciência. O território funciona igualmente como importante área de desova para o peixe tigre migratório (Hydrocynus vittatus).

Entre as espécies ameaçadas presentes destacam-se o mabeco ou cão selvagem africano (Lycaon pictus), a chita (Acinonyx jubatus) e o leão (Panthera leo). A zona húmida alberga ainda a planta carnívora Genlisea angolensis, ameaçada e quase endémica da região.

Populações de aves classificadas como vulneráveis ou em perigo de extinção incluem o abutre-do-Egipto (Neophron percnopterus) e o abutre-real (Torgos tracheliotus).

A designação reconhece ameaças actuais ao carácter ecológico do sítio, nomeadamente extracção de água e desenvolvimento não especificado que podem comprometer os sistemas hidrológicos e a biodiversidade da área.

O território fornece refúgio fundamental para populações de vida selvagem, sendo considerado local essencial para a resistência regional de longo prazo aos impactos das alterações climáticas devido à protecção oferecida pelos grandes volumes de água mantidos pela torre de água.

CONVENÇÃO RAMSAR

A Convenção sobre Zonas Húmidas de Importância Internacional, conhecida como Convenção de Ramsar, é um tratado intergovernamental adoptado em 1971 na cidade iraniana de Ramsar. O tratado estabelece enquadramento para conservação e uso racional de zonas húmidas e seus recursos através de acção nacional e cooperação internacional.

Sítios Ramsar são zonas húmidas designadas por Estados-parte como tendo importância internacional segundo critérios específicos relacionados com representatividade, biodiversidade, espécies ameaçadas e funções hidrológicas. A designação implica compromisso de manutenção das características ecológicas da área.

CRITÉRIOS DE DESIGNAÇÃO

Lisima Lya Mwono cumpre oito critérios da Convenção Ramsar:

Critério 1 – Zona húmida representativa, rara ou única: Abrange grande parte da única grande estrutura arenosa de torre de água na região biogeográfica do Zambeze, encontrando-se em estado natural.

Critério 2 – Espécies ameaçadas: Sustenta populações de mamíferos e aves classificadas como vulneráveis ou em perigo de extinção.

Critério 3 – Diversidade biológica: Maior área de floresta de miombo intacta em África, com biodiversidade de grande importância para a região biogeográfica e bioma envolvente.

Critério 4 – Etapas críticas do ciclo biológico: Fornece refúgio para populações de vida selvagem em etapas críticas, sendo fundamental para resistência regional aos impactos das alterações climáticas.

Critério 5 – Diversidade piscícola: Comunidade de peixes constituída por pelo menos 18 espécies endémicas ou quase endémicas, com novas espécies identificadas para a ciência.

Critério 6 – Zona de desova e migração: Abarca águas de montante de várias áreas hidrográficas e lagos que são destino de espécies piscícolas migratórias durante a estação chuvosa.

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