MSF alerta que epidemia de Ébola na RDCongo “está a superar os esforços de resposta”, um mês após declaração da OMS

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Casos confirmados ultrapassam 780, com mais de 180 mortos e taxa de mortalidade de 23%, num surto provocado pelo raro vírus Bundibugyo, que não tem vacina ou tratamento aprovados

Província de Ituri concentra quase 95% dos casos, enquanto insegurança e décadas de conflito dificultam vigilância, testes e rastreio de contactos no leste do país

Um mês após a declaração da epidemia de Ébola na República Democrática do Congo pela Organização Mundial da Saúde, a organização Médicos Sem Fronteiras alerta para lacunas na vigilância, no diagnóstico, no rastreio de contactos e no envolvimento comunitário, defendendo uma resposta proporcional à dimensão da crise.

Segundo a agência Lusa, em peça publicada pelo Notícias ao Minuto a 15 de Junho de 2026, a coordenadora médica de emergência da organização na República Democrática do Congo, Kate White, afirmou que, um mês depois, a epidemia de Ébola está a superar os esforços de resposta.

White declarou que ninguém sabe a verdadeira dimensão da doença nem exactamente onde se está a espalhar no país, acrescentando que a maioria dos centros de tratamento na província de Ituri está sobrecarregada, que muitos doentes chegam numa fase avançada da doença e que a maioria nunca foi identificada ou monitorizada como contacto antes de procurar cuidados.

Concentração de casos em Ituri

A doença está a espalhar-se pelas províncias de Ituri, Kivu do Norte e Kivu do Sul, no leste do país, com a província de Ituri a registar quase 95 por cento dos casos.

A resposta, liderada pelo Ministério da Saúde da República Democrática do Congo e apoiada por vários parceiros internacionais, está a ser implementada nas zonas afectadas. Segundo a Médicos Sem Fronteiras, citada pela Lusa, a insegurança dificulta o acesso a determinadas comunidades e, mesmo em áreas mais estáveis, os esforços para detectar casos, testar doentes, identificar contactos e monitorizar a transmissão são insuficientes.

No Uganda, país vizinho, as autoridades de saúde reportaram também dezanove casos confirmados.

Mais de 780 casos e taxa de mortalidade de 23 por cento

As autoridades de saúde congolesas reportaram oficialmente mais de 650 casos confirmados e mais de 130 mortes, números ultrapassados no domingo, quando foram registados num só dia setenta e dois novos casos, elevando para 782 o total de casos, dos quais resultaram 181 mortes.

A Médicos Sem Fronteiras alerta, contudo, que estes números provavelmente representam apenas parte do panorama geral. Segundo White, os testes continuam a ser uma das maiores fragilidades da resposta, apesar das recentes melhorias na capacidade laboratorial e da chegada de centenas de kits de teste móveis ao leste do país, concebidos especificamente para o vírus Bundibugyo.

A responsável acrescentou que muitas comunidades, especialmente as afectadas pela insegurança contínua, ainda têm acesso limitado a estes kits, enquanto os centros de tratamento continuam a enfrentar atrasos significativos na recepção dos resultados laboratoriais. Sem testes mais rápidos e amplamente disponíveis, White afirmou que será difícil detectar casos suficientemente cedo para conter o surto.

Décadas de conflito agravam resposta

Nas zonas onde a epidemia se está a alastrar, milhões de pessoas já vivem com décadas de conflito activo, deslocações repetidas, lacunas crónicas na assistência médica e uma resposta humanitária limitada. Segundo a organização, estas condições dificultam severamente os esforços de resposta e criam um ambiente no qual a doença se pode propagar mais facilmente.

Além do atendimento directo aos doentes, a Médicos Sem Fronteiras está também a enviar equipas para áreas mais remotas e inseguras, de modo a reforçar a capacidade de detecção e resposta onde foram reportados alertas.

Janela de oportunidade “a fechar-se”

O coordenador de emergência da Médicos Sem Fronteiras na República Democrática do Congo, Lai Manantsoa, afirmou que esta epidemia ainda pode ser controlada, mas que a janela de oportunidade está a fechar-se. Manantsoa acrescentou que o diagnóstico, a vigilância, o acesso aos cuidados e o envolvimento da comunidade devem ser reforçados com urgência, e exortou as autoridades e todas as partes interessadas envolvidas na resposta a facilitarem a movimentação de profissionais de saúde e de fornecimentos, de modo a permitir uma resposta que corresponda à escala da crise.

Vírus sem vacina aprovada

O surto, depois classificado como epidemia pela Organização Mundial da Saúde, é causado pelo raro vírus Bundibugyo, que não tem vacina ou tratamento aprovados, ao contrário do vírus Zaire, responsável pela maioria dos dezasseis surtos ou epidemias anteriores da doença na República Democrática do Congo.

Cinquenta e seis pessoas recuperaram e a taxa de mortalidade actual é de 23 por cento, anunciou o Ministério da Saúde congolês.

A responsável dos Centros Africanos de Controlo e Prevenção de Doenças, Jean Kaseya, afirmou que a organização continua empenhada em apoiar os países afectados até que a transmissão seja interrompida, apelando aos parceiros e doadores para mobilizarem recursos com urgência, de modo a fortalecer a resposta e salvar vidas.

O vírus Ébola transmite-se por contacto directo com fluidos corporais de pessoas ou animais infectados e provoca febre hemorrágica grave, vómitos, diarreia e hemorragia interna.

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