Privatização da maior operadora de telecomunicações. PROPRIV 2023-2026 entra na fase dos activos de maior valor
A desmaterialização das acções da Unitel na Central de Valores Mobiliários de Angola (CEVAMA) confirma o que o mercado aguardava: a maior operadora de telecomunicações do país prepara a sua entrada na Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA), com a Oferta Pública de Venda (OPV) de 15% do capital social prevista para o período entre Junho e Setembro de 2026.
O processo insere-se no Programa de Privatizações do Estado angolano (PROPRIV 2023-2026), formalizado por despacho presidencial de 23 de Agosto de 2024. Da percentagem a privatizar, 2% estão reservados para os trabalhadores e membros dos órgãos sociais da empresa. A operação é gerida pelo Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado (IGAPE), cujo plano de marketing e documentação necessária se encontram já em fase avançada de preparação, segundo a administração da empresa.
A desmaterialização — processo pelo qual os títulos em papel são convertidos em registos electrónicos e integrados no sistema de custódia da CEVAMA — é o passo técnico que antecede obrigatoriamente qualquer admissão à negociação em bolsa. O mesmo procedimento foi adoptado pelo Banco Angolano de Investimentos (BAI) antes da sua entrada na BODIVA, em 2022, e pelo BFA antes da sua OPV, em Setembro de 2025.
A Unitel é detida na totalidade pelo Estado angolano: 50% através do IGAPE e os restantes 50% ligados ao universo Sonangol, após a nacionalização das participações da Vidatel e da Geni em Outubro de 2022. As participações pertenciam à empresária Isabel dos Santos e ao general Leopoldino Fragoso do Nascimento, conhecido como “Dino”.
Do ponto de vista financeiro, a operadora apresenta números relevantes para o mercado. Os lucros da Unitel dispararam 59%, ao passar de 99,4 mil milhões de kwanzas em 2024 para 158,4 mil milhões de kwanzas em 2025, influenciados pelas receitas com a alienação de 15% da sua participação no Banco de Fomento Angola (BFA) e pela distribuição de dividendos daquele que é o segundo maior banco em activos do sistema financeiro nacional. Os resultados operacionais — os que decorrem directamente da actividade de telecomunicações — mais do que triplicaram face ao ano anterior, crescendo 288%, ao passar de 17 mil milhões para 66 mil milhões de kwanzas, como consequência de um maior crescimento dos proveitos operacionais, na ordem dos 31%, para 505,3 mil milhões de kwanzas.
Ainda assim, os investidores terão elementos para analisar com cautela. Os resultados operacionais ficaram-se pelos 17 mil milhões de kwanzas em 2024, menos de 20% do lucro total reportado nesse ano, sendo que uma parte significativa dos lucros resulta dos dividendos da participação de 51,9% que a Unitel detém no BFA. Em preparação para a OPV, a Unitel vai aumentar o seu capital social de 140 milhões de kwanzas para 250 mil milhões de kwanzas, através da incorporação de reservas livres acumuladas. Os accionistas aprovaram igualmente a distribuição de 25% dos resultados líquidos de 2025, sendo o remanescente retido para financiar investimentos e reforçar a posição financeira da empresa no contexto da entrada em bolsa.
O historial do processo merece registo. A privatização parcial da Unitel estava inicialmente prevista para o primeiro semestre de 2025 e foi sucessivamente adiada no âmbito do PROPRIV 2023-2026. Em Setembro de 2025, questionado sobre datas, o presidente do IGAPE, Álvaro Fernão, recusou avançar prazos concretos, afirmando que o programa de privatizações se estende até 2026 e que o trabalho com as empresas continuaria.
A concretizar-se, a OPV da Unitel será a segunda maior operação da história da BODIVA, depois da entrada do BFA em bolsa em Setembro de 2025, classificada pelo IGAPE como a maior operação do ano no continente africano, com uma procura que superou cinco vezes a oferta e gerou cerca de 8.000 novos accionistas. A Unitel conta actualmente com cerca de 20,8 milhões de clientes e uma quota de mercado de 76% na telefonia móvel em Angola.
O que é a desmaterialização de acções
A desmaterialização é o processo pelo qual acções emitidas em suporte físico passam a existir exclusivamente sob forma electrónica, com registo na Central de Valores Mobiliários (CEVAMA), gerida pela BODIVA. A operação atribui a cada título um código ISIN — identificador internacional único —, permitindo transacções mais rápidas, seguras e auditáveis. É condição necessária para a admissão de qualquer empresa à negociação em bolsa em Angola.





