Vozes do painel da IV Angola Banking Conference, 27 de Maio de 2026, Luanda
O debate sobre o acesso ao crédito dominou a parte central da IV Angola Banking Conference, organizada pela revista Economia e Mercado em parceria com a PwC. A moderação colocou directamente a questão ao painel: “Porque é que os bancos não financiam mais a economia?” As respostas revelaram um diagnóstico partilhado sobre as causas estruturais do problema — e divergências sobre a urgência das soluções.
Tito Tavares, partner da PwC que presidiu a sessão de abertura, enquadrou o desafio antes de qualquer intervenção dos banqueiros: “A banca angolana tem capital e liquidez. O que importa hoje é reforçar as condições de informação, de confiança e de instrumentos que permitam que esse capital chegue, a um preço correctamente ajustado ao risco, às empresas que o devem fazer trabalhar. Refiro-me em particular às pequenas e médias empresas, ao agronegócio, à indústria transformadora e aos sectores não petrolíferos que sustentarão a diversificação da economia angolana.”
Juvelino Domingos, Administrador Executivo do BAI, identificou a exposição excessiva à dívida pública como o nó central: “Ao longo do tempo, os bancos, o sector bancário funcionou como um fundo de investimento de obrigações soberanas, tendo em conta a representatividade dos títulos soberanos no balanço dos bancos. Daí que há a necessidade de se reduzir gradualmente a exposição ao risco soberano e transformar esta parte do activo em crédito produtivo necessário para atender as necessidades da economia.”
Luís Teles, PCE do Standard Bank Angola, alertou para a fragilidade do modelo actual de rentabilidade: “Nós não temos uma elevada rentabilidade, nós temos é receitas anormalmente altas. E temos receitas anormalmente altas porque a margem financeira que os bancos têm, devido às altas taxas de juro, faz com que assim o seja. Nós temos que começar a pensar numa realidade em que as taxas de juro e a inflação estão num único dígito.” O mesmo salientou que o segmento de retalho “ainda é muito pequeno em Angola face ao que devia ser” e que a margem financeira não deve ultrapassar dois terços das receitas totais dos bancos, sob pena de exposição excessiva à volatilidade das taxas de juro.
Pedro Graça, do banco Millennium Atlântico, introduzido pelo moderador no contexto das grandes empresas, situou o problema no tempo: “Há 10 anos atrás também já nos questionavam sobre este tema. Querem os bancos financiar a economia ou não? Se tivermos a olhar para o futuro da banca, espero que daqui a 10 anos não nos estejam a questionar.” Graça acrescentou que parte do problema reside nos próprios promotores de projectos: “Hoje temos clientes que chegam ao banco, têm uma ideia e não conseguem colocá-la no papel. Inclusive perguntam-nos: é possível vocês elaborarem um estudo, um plano de viabilidade? Quer dizer, não podemos claramente.”
Paulo Alves, Administrador Executivo do BFA, contestou a ideia de que a banca não financia a economia: “Podemos fazer mais, sim, podemos fazer melhor, sim, mas nós não estamos isolados e temos que conceder crédito responsável, porque sabemos que o crédito não responsável tem impactos violentos e coloca em causa a sustentabilidade das organizações.” Alves reconheceu, porém, que o acesso das micro e pequenas empresas continua a ser o ponto fraco: “Temos que ser mais criativos para conseguir fazer chegar o crédito às micro e pequenas empresas, criando produtos mais simples com modelos de scoring alternativo. Porque ter dados permite-nos ter informação e ter informação permite-nos tomar decisões.”
Sérgio Pereira da Gama, Administrador Executivo do Banco Keve, afirmou que a sua instituição encerrou Dezembro de 2025 com cerca de 50% do activo em crédito, concentrado em sectores como empresas, petróleo e gás, mineração e agronegócio. Reconheceu, contudo, limitações estruturais: “Estamos muito condicionados pela nossa dimensão, pela limitação do funding. E depois ainda assim temos aqui algumas inovações ou alguma forma de fazer negócio do ponto de vista de apoio às empresas, mas também temos aqui alguma limitação regulamentar.”
Osvaldo Macaia, Presidente da Comissão Executiva do Banco Sol, usou os indicadores da sua própria instituição como ilustração dos riscos do crédito mal concedido: “Quando iniciámos a nossa operação, encontrámos um rácio de NPL de 77%. Ou seja, em 100% dos créditos concedidos, 77 eram NPL — créditos em incumprimento. Isso revela que é preciso termos cada vez mais cuidado com a concessão do crédito, porque a principal forma de deterioração do balanço e de destruição de valor de um banco é o crédito.” Macaia revelou que o banco concedeu mais de 105.000 milhões de kwanzas em crédito desde o início da reestruturação, com o rácio de NPL a recuar para 0,5% e o custo operacional a descer de 132% para 75% em dois anos de gestão.





