Portugal integra inteligência artificial Amália nos sectores da defesa, justiça e educação

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A Administração Pública portuguesa começou a integrar o modelo nacional de inteligência artificial AMALIA em sectores estratégicos, incluindo a defesa, a justiça, a educação e a cultura. A confirmação foi feita pelo ministro Adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, durante uma audição parlamentar dedicada à discussão do Orçamento do Estado para 2027.

A iniciativa representa um novo passo na estratégia de transformação digital de Portugal, que procura reforçar a autonomia tecnológica do Estado e reduzir a dependência de sistemas de inteligência artificial desenvolvidos por empresas estrangeiras.

Durante a intervenção parlamentar, o governante classificou o AMALIA como um instrumento de soberania digital, destacando a importância de utilizar tecnologia desenvolvida em território nacional para tratar informações e apoiar actividades de instituições públicas.

O modelo foi concebido para compreender e gerar conteúdos em português europeu, tendo em consideração as características linguísticas e culturais do país. A sua integração em diferentes organismos públicos poderá permitir automatizar tarefas documentais, facilitar a pesquisa de informação e apoiar processos administrativos.

Defesa e justiça entre as áreas de aplicação

A utilização do AMALIA nos sectores da defesa e da justiça assume particular relevância devido à natureza sensível das informações tratadas por estas instituições.

No sector da defesa, a utilização de inteligência artificial desenvolvida nacionalmente poderá permitir que determinadas operações de análise e processamento de informação sejam realizadas através de infra-estruturas sob controlo português. Esta abordagem procura reforçar a protecção de dados estratégicos e diminuir a exposição de informações críticas a plataformas externas.

Na justiça, a tecnologia poderá apoiar actividades como a pesquisa documental, a organização de informação jurídica e a análise de grandes volumes de documentos. Estas aplicações poderão contribuir para simplificar tarefas administrativas e facilitar o acesso à informação, embora não substituam a responsabilidade dos profissionais na interpretação e aplicação da lei.

Na educação, o modelo poderá servir de base para ferramentas destinadas a professores, estudantes e instituições de ensino. Entre as possibilidades estão assistentes educativos, sistemas de apoio à aprendizagem e soluções capazes de facilitar a consulta de conteúdos em português.

A cultura também integra as áreas abrangidas pela estratégia, permitindo desenvolver aplicações relacionadas com a preservação, organização e divulgação do património cultural português.

AMALIA procura reforçar a soberania digital portuguesa

O AMALIA, sigla de Assistente Multimodal Automático de Linguagem com Inteligência Artificial, é o primeiro grande modelo de linguagem aberto desenvolvido especificamente para o português europeu e para o contexto cultural de Portugal.

O projecto foi desenvolvido através de uma colaboração entre universidades e centros de investigação portugueses, envolvendo mais de 60 investigadores e estudantes. Entre as instituições participantes encontram-se a NOVA FCT, o Instituto Superior Técnico, a Universidade de Coimbra, a Universidade do Minho e a Universidade do Porto.

A primeira versão pública foi apresentada em Julho de 2026, depois de um investimento inicial de 5,5 milhões de euros financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

Ao contrário de aplicações conversacionais como o ChatGPT, o AMALIA é um modelo de linguagem que pode servir de base tecnológica para diferentes serviços e aplicações. A sua disponibilização em código aberto permite que organismos públicos, empresas, universidades e programadores desenvolvam soluções adaptadas às suas necessidades.

A tecnologia também procura garantir maior controlo sobre os dados utilizados pelas instituições portuguesas, uma questão particularmente importante em sectores que trabalham com informação governamental, jurídica e estratégica.

Portugal prepara investimento de 200 milhões de euros em capacidade computacional

A expansão da inteligência artificial em Portugal não se limita ao desenvolvimento de modelos de linguagem. O Governo também está a apostar no reforço das infra-estruturas necessárias para treinar e executar sistemas avançados.

Neste contexto, o país assumiu um compromisso de aquisição de 200 milhões de euros em capacidade computacional no âmbito da participação num concurso europeu destinado à instalação de uma gigafábrica de inteligência artificial.

A iniciativa pretende assegurar recursos de processamento capazes de suportar o desenvolvimento e funcionamento de modelos de grande dimensão, reduzindo as limitações de capacidade tecnológica existentes.

Paralelamente, o Governo está a avançar com medidas destinadas a facilitar a instalação de centros de dados no território nacional. A estratégia inclui a simplificação dos processos de licenciamento e a exigência de que estes investimentos contribuam para a economia das regiões onde as infra-estruturas forem construídas.

O plano contempla igualmente o desenvolvimento de uma nuvem soberana, destinada a reforçar a capacidade de armazenamento e gestão segura de dados do Estado.

Estas infra-estruturas são consideradas fundamentais para garantir que projectos como o AMALIA possam crescer e responder às necessidades de diferentes instituições públicas.

Governo prepara legislação para regular agentes de inteligência artificial

Outro dos pontos abordados pelo ministro Gonçalo Matias foi a necessidade de criar um enquadramento legislativo específico para os agentes de inteligência artificial.

Estes sistemas distinguem-se dos assistentes conversacionais tradicionais porque podem executar tarefas compostas por várias etapas, interagir com diferentes programas informáticos e realizar determinadas operações sem intervenção humana constante.

A utilização destes agentes poderá aumentar a automatização dos serviços públicos, permitindo que algumas tarefas administrativas sejam executadas de forma mais rápida e integrada.

Contudo, a sua crescente autonomia também levanta questões relacionadas com a segurança, a responsabilidade por decisões automatizadas, a protecção de dados e a supervisão humana.

O Governo considera, por isso, necessário acompanhar a evolução tecnológica com regras capazes de definir os limites e as condições de utilização destas ferramentas.

Portugal procura reduzir a dependência de tecnologia estrangeira

A integração do AMALIA em sectores estratégicos faz parte de uma aposta mais ampla na construção de uma capacidade nacional de inteligência artificial.

Actualmente, uma parte significativa das ferramentas utilizadas mundialmente é desenvolvida por grandes empresas tecnológicas internacionais. Embora estas soluções ofereçam capacidades avançadas, a sua utilização por instituições públicas pode levantar questões relacionadas com a localização dos dados, a dependência de fornecedores externos e o controlo sobre as infra-estruturas.

Com o AMALIA, Portugal procura desenvolver uma alternativa que tenha maior alinhamento com a língua, a legislação e as necessidades das suas instituições.

O projecto também poderá beneficiar empresas e centros de investigação interessados em criar produtos baseados em inteligência artificial, uma vez que o modelo pode ser adaptado e reutilizado sem custos de licenciamento.

A expansão das aplicações, o reforço da capacidade computacional e a preparação de novas regras para agentes autónomos demonstram que a estratégia portuguesa vai além da criação de um modelo de linguagem.

O principal desafio será transformar esta capacidade tecnológica em serviços públicos eficientes, seguros e acessíveis, garantindo que a utilização da inteligência artificial melhora o funcionamento das instituições sem comprometer a protecção dos cidadãos e das informações sob responsabilidade do Estado.

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