Nos quatro maiores bancos analisados, as carteiras de Obrigações e Bilhetes do Tesouro e os respectivos juros explicam grande parte da evolução dos resultados. No BFA, os proveitos de títulos representaram mais de metade dos juros do exercício; no BPC, a carteira de dívida pública já supera o crédito concedido a clientes
Os juros da dívida pública sustentaram boa parte dos resultados dos maiores bancos angolanos em 2025, num exercício marcado por taxas de juro elevadas e inflação de 15,70%.
O peso dos títulos do Estado nas contas dos bancos tornou-se mais visível ao longo do ano. As Obrigações do Tesouro e os Bilhetes do Tesouro, remunerados a taxas elevadas, passaram a explicar uma fatia crescente dos proveitos de juros, num movimento transversal aos principais bancos, com a excepção do BPC.
No BFA, os proveitos de títulos e valores mobiliários atingiram 241 mil milhões de kwanzas, um crescimento de 36,9% face a 2024, e representaram mais de metade dos juros e rendimentos similares do banco, que totalizaram 431 mil milhões. Os títulos constituíam 42,2% do activo total do banco no final do exercício.
No Standard Bank Angola, a aposta na dívida soberana foi ainda mais expressiva. Os investimentos ao custo amortizado cresceram 222% e os activos financeiros ao justo valor através de outro rendimento integral aumentaram 102%, com os Bilhetes do Tesouro a passarem a representar 63% da carteira de títulos. A margem financeira do banco subiu 31%.
O caso mais nítido é o do BPC. No banco público, a carteira de investimentos ao custo amortizado, de 471 mil milhões de kwanzas, já supera o crédito a clientes, que se fixou em 371 mil milhões. Foi também o único dos quatro bancos cuja margem financeira recuou, em 6,7%, e cujo resultado líquido caiu no exercício.
No BAI, o crescimento da margem financeira, de 44% em base consolidada, foi atribuído pelo banco sobretudo às novas aquisições de Obrigações do Tesouro em moeda nacional não reajustáveis e de Bilhetes do Tesouro. Os juros e rendimentos similares do grupo aumentaram 25%.
O movimento ocorre num contexto de juros elevados e desinflação. A exposição crescente à dívida soberana levanta duas questões de fundo para o sector: o grau de concentração do risco no Estado e a tensão com o objectivo, fixado pelo regulador, de canalizar mais crédito para a economia real.
As Obrigações do Tesouro e os Bilhetes do Tesouro são instrumentos de dívida emitidos pelo Estado angolano para financiar o défice. Num quadro de taxas de juro elevadas, oferecem aos bancos uma remuneração atractiva e de baixo risco de crédito, o que pode reduzir o incentivo à concessão de crédito a empresas e famílias. Em 2025, a economia angolana cresceu 3,13% e o crédito à economia aumentou 15,59%, segundo o Banco Nacional de Angola.





