Taxa de penetração regista trajectória descendente desde 2020 apesar de crescimento de cerca de 23% nos prémios brutos emitidos. Fundos de pensões registam evolução inversa e atingem 0,9% do PIB em 2025
A taxa de penetração do sector segurador na economia angolana desceu para 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025, o valor mais baixo dos últimos cinco anos, segundo dados divulgados na actualização da avaliação sectorial de risco de Branqueamento de Capitais (BC) e Financiamento ao Terrorismo (FT) apresentada pela Agência Angolana de Regulação e Supervisão de Seguros (ARSEG). O indicador completa trajectória descendente iniciada em 2021 e contrasta com o crescimento expressivo dos prémios brutos emitidos no mesmo período.
A apresentação dos resultados foi conduzida na última semana em Luanda por Flávio Guilherme, director da área de seguros e supervisão da ARSEG. A taxa de penetração — que mede o peso dos prémios de seguros no produto agregado da economia — situava-se em 0,7% em 2020, desceu para 0,6% no triénio 2021-2024 e fixou-se em 0,5% em 2025. Em termos absolutos, os prémios brutos emitidos passaram de 478 mil milhões de kwanzas em 2024 para 586,9 mil milhões de kwanzas em 2025, o que corresponde a um crescimento próximo de 23%.
A divergência entre o crescimento dos prémios e a queda da penetração sinaliza que a economia angolana avançou no mesmo período a ritmo superior ao do sector segurador. A leitura é reforçada pela trajectória dos fundos de pensões, subsector também supervisionado pela ARSEG, que registou evolução em sentido inverso. Após variação acentuada nos anos anteriores — com pico de 0,7% em 2022 seguido de queda para níveis próximos de 0,2% em 2023 e 2024 — a taxa de penetração dos fundos de pensões subiu para 0,9% do PIB em 2025, ultrapassando o subsector segurador.
A baixa penetração do sector segurador angolano contrasta com a média do continente africano, que se situa habitualmente acima de 2,5% do PIB segundo dados de organizações sectoriais internacionais, e com a média global, próxima de 7%. A desproporção é frequentemente atribuída a factores estruturais que incluem a dimensão reduzida da economia formal, a baixa cultura seguradora, o peso dominante de produtos obrigatórios face aos voluntários e as limitações no rendimento disponível das famílias.
A composição da carteira sectorial mantém-se concentrada em produtos não-vida com componente obrigatória ou semi-obrigatória. O seguro vida-crédito, comercializado através do canal bancário, é apontado pela ARSEG como o produto vida com maior expressão em termos de prémios brutos emitidos, ainda que classificado com vulnerabilidade inerente reduzida (0,16). Os produtos vida com características de investimento — Vida Capital Constante, Vida Investimento Reforma e Vida Investimento Premium — geraram volume agregado de 235,1 milhões de kwanzas, valor que reflecte adesão reduzida.
A leitura do canal de mediação foi também actualizada na metodologia de 2025. A ARSEG passou a aferir o peso da mediação com base no volume de prémios brutos adquiridos através deste canal em comparação com o valor total de prémios emitidos por produto, o que representa alteração face à abordagem anterior. O exercício incorporou ainda consulta às associações do mercado, designadamente à Associação de Seguradoras de Angola (ASAN), à Associação de Mediadores e Corretores de Seguros de Angola (AMSA), à secção angolana da Association Internationale de Droit des Assurances (AIDA-Angola) e à Associação Angolana de Actuários (AAAT).
Henda Mondlane, Presidente da AAAT, observa que o sector apresenta evolução positiva ao nível da supervisão prudencial e da cultura de compliance, ainda que persistam limitações estruturais. O especialista destaca que a baixa adesão a produtos com componente de investimento “limita a exposição efectiva ao risco” mas reflecte igualmente um mercado segurador angolano com grau reduzido de sofisticação financeira.
A trajectória dos prémios de seguros em valor absoluto pode ser entendida em contexto inflacionário. Embora a ARSEG não tenha apresentado deflator específico, o crescimento nominal próximo de 23% nos prémios brutos emitidos entre 2024 e 2025 ocorre num ambiente em que a inflação homóloga angolana permaneceu acima de dois dígitos durante períodos significativos do exercício. O crescimento real do sector, em termos comparáveis com a evolução do PIB, é necessariamente inferior ao crescimento nominal observado.
A redução do peso do sector segurador na economia surge como elemento de tensão face ao reforço regulatório registado no mesmo período. A ARSEG aplicou três sanções administrativas em 2025, contra nenhuma em 2024, e registou consolidação da função de compliance nas entidades supervisionadas. Esta dissociação entre maturidade institucional e crescimento sectorial constitui dimensão a acompanhar nos próximos exercícios.
Como se calcula a taxa de penetração
A taxa de penetração do sector segurador na economia mede a relação entre o volume de prémios brutos emitidos pelas seguradoras num determinado período e o Produto Interno Bruto (PIB) da economia no mesmo período. Constitui indicador internacionalmente padronizado para comparar a dimensão relativa dos mercados seguradores entre países. Uma taxa elevada sinaliza, em regra, maior sofisticação financeira, cultura seguradora consolidada e diversificação da oferta de produtos. Países com economias mais avançadas tendem a apresentar taxas de penetração superiores a 5% do PIB. Em África Subsariana, a média situa-se historicamente entre 2,5% e 3%, com a África do Sul a constituir excepção significativa por concentrar parcela substancial do mercado regional.





