Nandó: a pior hora para perder um mais-velho

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Sorriso irónico, gesto cordato, palavra medida. Fernando da Piedade Dias dos Santos “Nandó “ atravessou décadas centrais da história contemporânea de Angola com a serenidade de quem compreende o peso do tempo e a complexidade dos homens.

Foi vice-ministro da Segurança do Estado, director dos Serviços de Informação, Comandante-Geral da Polícia Nacional, Primeiro-ministro, Vice-presidente da República e Presidente da Assembleia Nacional. Poucos tiveram um percurso tão transversal e, ao mesmo tempo, tão discreto no exercício do poder.

Mas antes dos cargos, houve o homem de confiança. O homem chamado a estar presente nos momentos mais sensíveis da construção da paz. No período que antecedeu as eleições de 1992, Fernando da Piedade Dias dos Santos “Nandó “teve um papel relevante e discreto nas negociações de paz com a UNITA, num contexto de enorme tensão, desconfiança mútua e feridas ainda abertas.

A sua actuação nesses processos foi marcada pela prudência, pela escuta atenta e por uma rara capacidade de criar ambientes de diálogo onde imperava a suspeita.Não por acaso, Nandó foi sempre encarado pelos adversários políticos como uma figura geradora de confiança.

Mesmo em tempos de polarização extrema, o seu nome era associado à previsibilidade institucional, ao cumprimento da palavra dada e ao respeito pelos interlocutores. Essa reputação estendeu-se a amplos sectores da sociedade civil, com particular destaque para as igrejas, que nele reconheciam um interlocutor sério, disponível e comprometido com a reconciliação nacional.

Partiu o senhor do sorriso irónico e de humor refinado, querido pelos seus e respeitado por adversários. Num país tantas vezes marcado por excessos e radicalismos, Nandó foi, quase sempre, um homem de pontes. Um patriota que parecia compreender, na prática, a sabedoria bíblica: “Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5:9).

A sua autoridade não vinha do tom elevado da voz, mas da experiência acumulada, da memória institucional e da capacidade rara de colocar o interesse colectivo acima das paixões momentâneas. Era um homem que sabia quando e o que falar e, sobretudo, ouvir, virtude cada vez mais escassa nos tempos que correm.

Não poderia ser agora. Num momento em que Angola se encontra diante de grandes desafios políticos, sociais e económicos, parte Nandó, um verdadeiro mais-velho na acepção africana mais profunda da palavra. O mais-velho não é apenas o que viveu mais anos; é aquele que viu mais longe, que sabe temperar a urgência com prudência e que entende que o futuro se constrói com diálogo.

Com a sua partida, ficamos órfãos de uma palavra serena, de uma visão inclusiva, de uma presença que, mesmo em silêncio, convocava à moderação e à abertura de espírito. Ficamos mais pobres de referências num tempo em que o país precisa, talvez mais do que nunca, de figuras capazes de unir, apaziguar e orientar.

Não digo que partiu cedo. Digo, sim, que esta é a pior hora para perdermos alguém com o perfil, a estatura política e humana de Fernando da Piedade Dias dos Santos, o nosso Nandó.

A sua ausência vai pesar não apenas pela saudade, mas pela consciência de que certos homens fazem falta precisamente quando o futuro exige maturidade, memória e, acima de tudo , responsabilidade patriótica

Nandó parte, mas deixa um legado de sobriedade, de serviço ao Estado e de compromisso com a paz. Cabe agora aos que ficam honrar essa herança.

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