Gana anuncia apoio da Rússia à construção de uma central nuclear de 2.000 MW

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Acra e Moscovo acordaram aprofundar a cooperação energética, militar e agrícola, com a Rússia a apoiar o desenvolvimento de uma central nuclear de 2.000 megawatts no Gana. O projecto pretende reforçar a segurança energética do país e criar condições para acelerar a industrialização.

A Rússia aceitou colaborar com o Gana no desenvolvimento de uma central nuclear com capacidade de produção de 2.000 megawatts (MW), anunciou no sábado, 31 de Outubro, o ministro dos Negócios Estrangeiros ganês, Samuel Okudzeto Ablakwa.

O entendimento foi alcançado na sequência de conversações realizadas durante a terceira Cimeira Rússia-África, em Moscovo, e representa um novo passo na aproximação entre os dois países.

Segundo Ablakwa, o projecto tem como principais objectivos reforçar a segurança energética do Gana e apoiar os planos de industrialização. O governante comunicou o acordo através de uma publicação na rede social X, sem avançar detalhes sobre o calendário de execução, o financiamento ou a localização prevista para a instalação.

A iniciativa poderá representar uma mudança importante na matriz energética ganesa, que procura diversificar as suas fontes de electricidade para responder ao crescimento da procura e às necessidades da indústria.

Energia nuclear como instrumento de industrialização

O interesse do Gana pela energia nuclear está relacionado com a necessidade de garantir um fornecimento eléctrico estável e suficiente para sustentar o desenvolvimento económico.

O Presidente ganês, John Dramani Mahama, já tinha anunciado, durante a mesma cimeira, que o país iniciou conversações com a Rosatom, empresa estatal russa responsável pelo sector nuclear, para estabelecer a sua primeira central nuclear.

Mahama considera que a disponibilidade de energia fiável e a preços acessíveis é essencial para transformar a economia do país, sobretudo através do processamento local de recursos minerais.

O Gana é um importante produtor de ouro, bauxite e manganês. Contudo, aumentar a capacidade de transformação destes recursos dentro do próprio território exige grandes quantidades de electricidade e infra-estruturas energéticas capazes de responder à procura industrial.

Uma central com capacidade de 2.000 MW poderia contribuir para esse objectivo, embora a concretização do projecto dependa ainda de decisões técnicas, financeiras e regulatórias.

Rosatom procura expandir presença em África

O anúncio do Gana surgiu um dia depois de Alexei Likhachev, director executivo da Rosatom, ter revelado que a Rússia mantém conversações sobre grandes projectos de energia nuclear com quatro países africanos: Gana, Uganda, Etiópia e Egipto.

Moscovo tem procurado ampliar a sua presença económica no continente através de acordos de cooperação energética e tecnológica. A energia nuclear tornou-se uma das áreas centrais desta estratégia, com a Rússia a oferecer centrais de diferentes dimensões e configurações, adaptadas às necessidades de cada país.

Durante a cimeira, o Presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que os países africanos demonstraram interesse não apenas em grandes centrais nucleares, mas também em tecnologias de menor escala e aplicações nucleares na medicina e na agricultura.

A Rosatom revelou igualmente que nove países africanos manifestaram interesse significativo na tecnologia russa de centrais nucleares flutuantes. Existem negociações mais avançadas com o Egipto, a Tanzânia, o Togo e a Namíbia.

Actualmente, o continente africano possui apenas uma central nuclear comercial em funcionamento: Koeberg, na África do Sul, construída com tecnologia francesa e inaugurada em meados da década de 1980.

No Egipto, a Rosatom está a construir a central de El Dabaa, composta por quatro reactores, e mantém conversações sobre uma possível expansão para seis unidades.

Cooperação militar também faz parte do acordo

A aproximação entre Acra e Moscovo não se limita à energia. Os dois governos acordaram igualmente aprofundar a cooperação no sector da defesa, através de um novo pacto relacionado com os equipamentos e activos destinados às Forças Armadas do Gana.

Outro ponto mencionado pelo ministro Samuel Okudzeto Ablakwa diz respeito à participação de cidadãos ganeses na guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

Segundo o governante, Vladimir Putin comprometeu-se a impedir a participação de cidadãos do Gana no conflito ao lado das forças russas, incluindo através de processos de recrutamento irregular ou de alistamento voluntário.

A questão é relevante para Acra, que tem manifestado preocupação com o envolvimento de cidadãos africanos no conflito, particularmente quando existem suspeitas de recrutamento através de promessas de emprego ou outras oportunidades.

O entendimento anunciado procura, assim, estabelecer limites à participação de cidadãos ganeses na guerra, ao mesmo tempo que reforça os mecanismos de cooperação militar entre os dois países.

Agricultura e formação académica entre as prioridades

A agenda de cooperação inclui ainda compromissos relacionados com o desenvolvimento agrícola e a educação.

A Rússia manifestou disponibilidade para apoiar o sector agrícola ganês, uma área importante para a economia e para a segurança alimentar do país.

Os dois governos acordaram também aumentar o número de bolsas de estudo destinadas a estudantes do Gana que pretendam frequentar instituições de ensino superior na Rússia.

A medida poderá ampliar a formação de quadros ganeses em áreas científicas, técnicas e especializadas, incluindo sectores considerados estratégicos para o desenvolvimento económico.

Aproximação entre Moscovo e países africanos

A terceira Cimeira Rússia-África, realizada em Moscovo, reuniu representantes de aproximadamente 50 países africanos e serviu de plataforma para discutir novas formas de cooperação política e económica.

O encontro insere-se na estratégia russa de aprofundar as relações com o continente, particularmente através de projectos de energia, defesa, agricultura, educação e tecnologia.

Para o Gana, a aproximação representa uma oportunidade de procurar parceiros internacionais para desenvolver infra-estruturas energéticas e apoiar a transformação da sua economia.

Apesar do anúncio de colaboração para uma central de 2.000 MW, ainda não foram divulgados elementos essenciais para avaliar a concretização do empreendimento, como o investimento necessário, o modelo de financiamento, os prazos de construção e os mecanismos de segurança e supervisão nuclear.

O acordo representa, por isso, um compromisso de cooperação e desenvolvimento do projecto, não significando que a construção da central já tenha começado ou que todos os contratos de execução estejam concluídos.

Se avançar, a iniciativa poderá colocar o Gana entre os países africanos que procuram integrar a energia nuclear nas suas estratégias de diversificação energética e industrialização.

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