O FIC Luanda regressa depois de três anos com a ambição de pôr a capital entre os centros do cinema africano. A programadora Dreça Manuel explica a escolha da Nigéria como país convidado e como foram seleccionados os filmes angolanos em competição.
O Festival Internacional de Cinema de Luanda (FIC Luanda) quer tornar-se, até 2030, uma referência do cinema na África Subsariana e no espaço lusófono. Quer também fazer de Luanda uma das principais capitais do cinema africano, segundo os objectivos publicados no site do festival. Para a 8.ª edição, que decorre de 28 de Outubro a 2 de Novembro, a organização escolheu como país convidado a Nigéria, que a programadora descreve como uma das cinematografias mais desenvolvidas de África. A meta imediata é de 6.000 espectadores em seis dias, cerca de mil por dia.
Quem o explica é Dreça Manuel, programadora do festival, em entrevista à Outside à margem da apresentação da programação. Trabalha há cerca de cinco anos no departamento de cinema da Geração 80 e foi convidada para a programação depois de a proposta da Geração 80 ter sido adjudicada. A Geração 80 presta os serviços técnicos e operacionais do festival, promovido pela Agência Nacional para as Indústrias Culturais e Criativas (ANICC), sob tutela do Ministério da Cultura.
A programadora sublinha essa cadeia de responsabilidade. O festival pertence ao Estado, e é da ANICC que a equipa recebe o regulamento e as orientações sobre o que é obrigatório incluir. A programação desenvolve-se dentro desse quadro.
A Nigéria como modelo
Dreça Manuel justifica a escolha da Nigéria com a capacidade da indústria nigeriana de levar os seus filmes a mercados externos. Para a programadora, o país é uma referência próxima porque trabalha em condições comparáveis às angolanas. “Por que não aprender com outros fazedores que estão num contexto similar ao nosso?”, questionou. O objectivo, explica, é perceber como os nigerianos usaram os seus próprios recursos para chegar onde chegaram, num intercâmbio em que Angola também tem o que mostrar.
A presença nigeriana vai além dos filmes. O país tem uma mostra própria, está entre os países de produção de cinco dos 28 títulos da competição internacional e traz profissionais para partilhar experiência. O programa inclui uma masterclass sobre cinema nigeriano.
O Brasil tem um foco dedicado ao cinema contemporâneo, com programação de uma curadora convidada. A programadora justifica a escolha com a língua comum e a proximidade cultural, mas também com a distância entre as duas indústrias. Na comparação com a angolana, considera a cinematografia brasileira muito mais avançada. A competição internacional inclui ainda filmes de Espanha, Alemanha, Portugal e Moçambique, entre outros.
Que cinema angolano está em competição
A competição nacional pretende representar o cinema angolano feito nos últimos três anos. A chamada aberta decorreu de 15 de Julho a 30 de Agosto. Segundo a programadora, recebeu 88 candidaturas, das quais 25 foram seleccionadas para as categorias competitivas; outras seguiram para as mostras paralelas. Em Setembro, o festival tinha anunciado 37 candidaturas à competição nacional, segundo a Ver Angola.
A escolha coube a um comité de três pessoas, coordenado pela directora de programação, a moçambicana Lara Sousa. Segundo Dreça Manuel, o comité procurou equilibrar estreantes e realizadores com percurso, e misturar géneros, do cinema de acção ao documentário de autor. Pesaram ainda a qualidade narrativa, técnica e de produção.
O resultado é uma competição de formatos muito diferentes. Dos 24 filmes listados no site do festival, dez têm uma hora ou mais; os restantes são curtas e documentários de 9 a 50 minutos. Alguns chegam com percurso feito. “As Aventuras do Angosat”, de Resem Verkron e Marc Serena, soma 17 prémios internacionais, segundo a produção. “Fuckin’Globo”, de Kamy Lara, foi premiado no Doc Luanda, segundo a Forbes África Lusófona.
Três filmes angolanos ou co-produzidos com Angola disputam também a competição internacional: “Ghost Elephants”, “Baía dos Tigres” e “Time to Change”.
As duas competições distribuem prémios do mesmo valor, segundo a Forbes África Lusófona. São 5 milhões de kwanzas para a melhor longa de ficção, 3 milhões para o melhor documentário e 1,5 milhões para a melhor curta. Os filmes estrangeiros chegam por convite; os angolanos, por chamada aberta.
O festival abre a 28 de Outubro com “Sapeur”, de Denis Miala, em estreia nacional. Segundo a programadora, a escolha segue a regra de abrir o FIC Luanda com um filme angolano. Desta vez, a organização quis que fosse uma estreia.
Mulheres em competição
Questionada sobre quantos filmes em competição foram realizados por mulheres, a programadora não indicou um número. Referiu a realizadora Renata Torres, que concorre com “Parto Rosa”, e outras mulheres que participam como produtoras, e comprometeu-se a enviar os dados. O festival tem uma mostra paralela dedicada ao cinema feito por mulheres.
Devolver o público às salas
Para a programadora, o desafio não é apenas mostrar filmes, mas recuperar o hábito de os ver. O objectivo da selecção, diz, é apresentar ao público o que os profissionais angolanos têm feito e “trazermos de volta essa vontade de ver cinema nacional”.
As sessões distribuem-se pelas salas da Cinemateca Nacional, a maior com 600 lugares, do Cine Teatro Nacional e do Cinemax Fortaleza. Há também sessões em espaços como o Centro de Ciência de Luanda e o Kinaxixi. Para depois do encerramento, Dreça Manuel espera que o festival deixe parcerias e relações profissionais entre os participantes. O cinema, defende, só se cumpre quando é partilhado.





