Isaac dos Anjos recusou continuar a insistir junto de empresários do Brasil e apontou segurança jurídica, financiamento e infra-estruturas como condições em falta. Fórum promovido pelo LIDE Angola juntou em Luanda cerca de 30 empresários brasileiros
Angola disponibilizou 800 mil hectares a produtores brasileiros em 2025, mas a iniciativa não atingiu a escala de investimento esperada, reconheceu o ministro da Agricultura e Florestas.
Isaac Francisco Maria dos Anjos falava na abertura do Fórum do Agronegócio Angola-Brasil, realizado esta quarta-feira em Luanda e promovido pelo LIDE Angola, sob o lema “Produzir Mais, Exportar Melhor: Caminhos para a Diversificação da Economia Angolana”. O governante representou o Ministro de Estado para a Coordenação Económica, José de Lima Massano.
O tom do discurso de abertura afastou-se da linguagem habitual destes encontros. O ministro afirmou que já não está disponível para insistir junto dos empresários brasileiros, sustentando que “se não quiserem vir, não precisam de vir, mas também não precisam de estar aqui todo o tempo a debitar inconvenientes, insucessos, incapacidades”. O responsável reconheceu, contudo, que a disponibilidade de terra não basta para atrair investidores, apontando como condições em falta a segurança jurídica, o financiamento, as infra-estruturas, o acesso a factores de produção e as condições de comercialização e exportação.
A área em causa destina-se, segundo o ministro, ao levantamento, ordenamento e estabelecimento de empresas brasileiras integradas com as comunidades locais. Isaac dos Anjos indicou ainda a estrutura financeira acordada para viabilizar a operação, com o Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social do Brasil a assumir 45 por cento, o programa de financiamento às exportações do Banco do Brasil 23 por cento, o Fundo de Desenvolvimento Económico e Social de Angola 17 por cento, os próprios produtores 10 por cento e o Banco de Desenvolvimento de Angola 5 por cento. O governante referiu também a criação de uma comissão, por portaria própria, destinada a estudar os obstáculos apontados pelos investidores brasileiros.
O encontro juntou governantes, empresários, investidores, instituições financeiras e produtores dos dois países, para debater investimento, inovação tecnológica, financiamento, produção animal, logística, infra-estruturas, biotecnologia e acesso a mercados internacionais. Entre os participantes contaram-se o fundador do LIDE, João Doria, e o presidente do LIDE Angola, Venceslau Andrade. Segundo a organização, esteve igualmente presente o Ministro do Turismo, Márcio Lopes Daniel.
Venceslau Andrade defendeu que Angola deve afirmar-se não apenas como mercado consumidor mas como destino de produção e investimento, sustentando que o objectivo passa por posicionar o país como “uma plataforma agrícola capaz de abastecer o mercado interno e outros mercados africanos”. João Doria apresentou Angola como parceiro estratégico para a expansão da presença brasileira em novos mercados.
O fórum ficou marcado pela assinatura de um protocolo de cooperação entre o LIDE Angola e a Câmara de Comércio Angola-Brasil. Os termos do protocolo não foram divulgados.
A deslocação da delegação brasileira, composta por cerca de 30 empresários, ocorre num momento em que o Brasil procura mercados alternativos na sequência do agravamento tarifário norte-americano sobre produtos brasileiros. Angola surge nesse contexto como destino de investimento produtivo e não apenas como mercado de exportação.
Angola dispõe de cerca de 35 milhões de hectares aráveis, dos quais aproximadamente 6 milhões estarão em produção e apenas 2 por cento sob regadio, segundo dados apresentados no fórum. De acordo com números atribuídos a autoridades angolanas na mesma ocasião, a produção nacional cobre cerca de 37 por cento das necessidades do mercado interno. No arroz, a produção situa-se próxima das 50 mil toneladas para uma necessidade estimada entre 300 mil e 350 mil toneladas.
O anúncio dos 800 mil hectares contrasta com o enquadramento conhecido de Janeiro deste ano, quando o Governo brasileiro apresentou a Angola uma proposta de acordo bilateral de 120 milhões de dólares para investimentos agrícolas, prevendo então a cedência de 20 mil hectares. Produtores brasileiros chegaram a solicitar até 500 mil hectares. As três ordens de grandeza não foram conciliadas publicamente.
A aproximação assenta num memorando entre os ministérios da agricultura dos dois países, posteriormente alargado à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, e prolonga a agenda do Fórum Económico Angola-Brasil de Agosto de 2023. A presença brasileira no agronegócio angolano não é recente: produtores brasileiros operam em Malanje e no Cuanza-Norte desde a década passada e a Biocom, no Cuanza-Norte, iniciou a produção de cana-de-açúcar em 2014.












