As duas operações, realizadas em Março e Maio, combinaram a emissão de novos títulos com a recompra antecipada de obrigações vincendas, alongando o perfil de vencimentos da dívida externa. O novo financiamento foi colocado a taxas superiores às dos títulos recomprados, indício de uma operação orientada para o alongamento de prazos e não para a redução imediata do custo.
O Estado mobilizou cerca de quatro mil milhões de dólares em duas emissões de Eurobonds no primeiro semestre e recomprou parte da dívida que vencia em 2028 e 2029.
A primeira operação, em Março, ascendeu a 2,5 mil milhões de dólares, repartidos por duas tranches — 1,5 mil milhões a sete anos, com vencimento em 2033, e mil milhões a onze anos, com vencimento em 2037. A segunda, em Maio, mobilizou 1,5 mil milhões de dólares em títulos com maturidade em 2031 e 2037. Ambas foram estruturadas como operações integradas de gestão de passivos, associando a captação de novo financiamento à recompra de obrigações já em circulação.
Da primeira emissão, cerca de 500 milhões de dólares — um quinto do total — destinaram-se à recompra antecipada das obrigações com vencimento em 2028, sendo o remanescente canalizado para a execução orçamental e a regularização de atrasados. Na operação de Maio, o Estado adquiriu cerca de 750 milhões de dólares de títulos vincendos em 2028 e 2029. O objectivo declarado foi reduzir a concentração de amortizações nesses dois anos e aliviar a pressão sobre a tesouraria do Estado.
O novo financiamento foi, contudo, colocado a taxas mais elevadas do que as dos títulos recomprados. As obrigações retiradas do mercado tinham cupões de 8,25% (2028) e 8% (2029), ao passo que os novos títulos foram emitidos com taxas na ordem de 9,25% a 9,9%. A leitura que se impõe é a de uma operação desenhada para empurrar vencimentos para prazos mais longos e mitigar o risco de refinanciamento, e não para reduzir de imediato o custo da dívida.
A procura superou a oferta nas duas operações. Em Março, as ordens ultrapassaram 5,2 mil milhões de dólares, mais do dobro do montante colocado e acima do objectivo inicial de dois mil milhões; em Maio, o livro de ordens aproximou-se de quatro mil milhões. O Executivo interpretou a adesão como sinal de confiança na trajectória macroeconómica do país — leitura que, sendo a do próprio emitente, deve ser tomada com a devida cautela.
O regresso aos mercados foi favorecido pela subida do preço do petróleo no início do ano, associada às tensões geopolíticas no Médio Oriente, que abriu uma janela de financiamento às economias produtoras. Angola tinha acedido pela última vez ao mercado internacional em Outubro de 2025, com uma emissão de 1,75 mil milhões de dólares, e acumula, desde 2015, mais de 15 mil milhões de dólares em dívida titulada internacional. As notações de risco soberano mantêm-se em B- (Standard & Poor’s e Fitch) e B3 (Moody’s), com perspectiva estável.
O Secretário de Estado das Finanças e Tesouro, Ottoniel dos Santos, defendeu que o conjunto das operações traduz uma gestão mais atenta da carteira. “O conjunto destas operações reflecte uma gestão mais activa da dívida pública, orientada não apenas para o financiamento das necessidades do Estado, mas também para a melhoria do perfil e da sustentabilidade da carteira.”





